‘Sete policiais não resolvem’: secretário defende integração para retomar favelas

Vitor Santos falou sobre a megaoperação desta terça-feira (28), nos complexos da Penha e da Maré

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O secretário de Segurança Pública do Rio, Vitor Santos, afirmou que o estado do Rio já adota uma estratégia de retomada escalonada dos territórios dominados por facções criminosas, com metas até 2031. Ele participou da coordenação da megaoperação realizada nesta terça-feira (28) nos complexos da Penha e Alemão, Zona Norte do Rio, que mobilizou 2,5 mil policiais, em conjunto com o Ministério Público. Ao menos 60 suspeitos e quatro polícias foram mortos.

Segundo Santos, a ofensiva representa uma mudança de abordagem em relação às políticas aplicadas em anos anteriores.

“Sete policiais não resolvem o problema de uma comunidade. O Rio tem quase 1.900 favelas. O estado não tem como estar em todas ao mesmo tempo. O que acontecia no passado era ocupação policial. Ocupação sem serviços e sem Estado não resolve”, disse o secretário ao Bom Dia Rio, da TV Globo.

Nove gentes acabaram feridos nos confrontos, cinco são policiais civis e quatro militares.

Objetivo é atingir o núcleos do CV

A operação mira lideranças foragidas e quadros especializados do Comando Vermelho (CV), como operadores financeiros e articuladores interestaduais do tráfico. Até o momento, 81 pessoas foram presas, entre elas um homem identificado apenas como Nicolas Fernandes Soares, apontado como operador financeiro do traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso, considerado alvo prioritário.

Santos destacou que parte dos suspeitos tem atuações fora do Rio, e refletiu sobre a expansão territorial da facção: “Isso mostra o caráter interestadual das organizações criminosas”, disse, ao citar 30 mandados de prisão expedidos contra investigados do Pará.

Foram usados 32 blindados, dois helicópteros, drones e 12 veículos de demolição para abrir vias bloqueadas. Três pessoas inocentes ficaram feridas no fogo cruzado, entre elas, um morador de rua socorrido para o Hospital Getúlio Vargas.

Segundo o Mobi Rio, oito linhas de BRT tiveram seus serviços interrompidos. São elas:

Transcarioca
42 – Manaceia x Galeão (Parador)
46 – Penha x Alvorada (Expresso)

Transbrasil:
80 – Gentileza x Penha
60 – Gentileza x Deodoro
90 – Gentileza x Fundão
Esp – Gentileza x Galeão

Conexão BRT:
67 – C.Grande x Deodoro
68 – Bangu x Deodoro

Criminosos incendiaram barricadas e lançaram bombas em drones | Crédito: Reprodução

Topografia e controle armado exigem mobilizações de grande porte

A polícia enfrentou barricadas em chamas e drones com explosivos, indicados como exemplos do alto grau de controle territorial exercido pela facção na região. Santos disse que essas características tornam rondas permanentes inviáveis sem operações massivas.

“São aproximadamente 9 milhões de m² de desordem: casas construídas de forma irregular, é impossível fazer o patrulhamento. Isso causa risco à população e obviamente aos policiais. Esses criminosos dominaram essa região”, disse o secretário.

Segundo ele, o uso de tecnologia por criminosos reforça o alerta: “Hoje, por exemplo, utilizaram drones, lançando até artefatos explosivos contra os policiais e contra a população. Então é essa a realidade do estado de guerra que a gente vive no Rio de Janeiro. Segundo o Direito Humanitário, é um conflito armado não internacional”.

Sobre a integração com outras esferas do poder público, o secretário disse: “São décadas de inação de todos os entes da federação: município, estado e União. Então o que a gente quer fazer aqui é retomar esse território”.

Metas até 2031

O secretário afirmou que o governo já trabalha em um projeto estruturado de retomada, com monitoramento de metas e envolvimento de moradores na formulação das ações sociais e urbanísticas que devem suceder as entradas policiais.

“Existe o plano de segurança pública do Rio de Janeiro até 2031, isso está planejado com metas claras. Agora, não é somente isso que vai resolver o problema, mas a ação integrada entre todos os entes da federação”.

Santos explicou que a estratégia prevê entradas recorrentes e coordenadas, não ocupação isolada e enfatizou que a operação desta terça não será a única determinante no combate ao tráfico. “Não vamos prometer que uma operação vai resolver o problema. Mas as ações vêm sendo praticadas com muito planejamento e inteligência.”

STF exige integração entre esferas de governo

A decisão do Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a necessidade de ação integrada em territórios afetados por armas e milícias também foi comentada pelo secretário.

“O STF já determinou isso e reconheceu que o estado de coisas que vive o Rio de Janeiro é por conta das organizações criminosas e obriga hoje, através de uma decisão, que município, estado e União se unam para a retomada desse território e devolvê-lo à população de bem que ali mora”, afirmou.

Na sequência, ele reforçou um apelo político direto: “É importante, sim, que prefeitura, Estado e União sentem à mesa, sem ideologia, e ouçam aqueles que estão na ponta da segurança pública: os técnicos, passando esse diagnóstico, mostrando a necessidade de todos estarem juntos em prol da sociedade”.

Dificuldade no combate ao Comando Vermelho

Ao falar sobre a facção que domina Penha e Alemão, o secretário apontou o alcance nacional do Comando Vermelho e condicionou o sucesso do enfrentamento a uma estratégia conjunta:

“O Comando Vermelho está em 25 estados da federação, só perde para o PCC. Eles causam terror na Bahia, no Ceará, no Pará, no Centro-Oeste. Qual outro estado tem essa quantidade de fuzis? Nós não fabricamos fuzis.”

Sem isentar o próprio governo, fez cobrança: “Eu assumo a minha responsabilidade. Estamos combatendo o mal que assola o Rio. Mas o CV é grande em todo o Brasil. O governo federal precisa entender isso.”

Crítica à legislação penal: ‘Prende e solta virou rotina’

Santos indicou ainda que mudanças legais são necessárias para interromper o ciclo de reincidência: “Um criminoso preso com arma de guerra não fica mais de um ano e meio preso. No Rio, tem policial prendendo o mesmo criminoso 15 vezes. A população não aguenta mais o ‘prende e solta’.”

Por fim, o secretário deixou um recado às comunidades afetadas: “Durante uma operação, permaneça em casa. Não arrisque sua vida”, disse.

Ele pediu que moradores recorram aos agentes caso precisem de proteção: “A força policial vai estar no terreno. Se precisar de ajuda, procure o policial e denuncie onde há criminosos e armas escondidas. A polícia está ali para garantir sua integridade física hoje e sempre.”

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