Sem Paes, debate produz mais ruído do que consequência política

Douglas Ruas se mostrou mais preparado, enquanto Garotinho apostou nos ataques, Siri buscou se afirmar pela esquerda e André Marinho pouco acrescentou; encontro teve poucas propostas e não deve alterar a correlação de forças na disputa

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Sem a presença de Eduardo Paes, atual líder das intenções de voto, o debate deste domingo perdeu relevância. Tornou-se palco para um desfile de platitudes, sem que houvesse qualquer originalidade. Com baixa audiência e incompleto em sua composição, terá certamente consequências diminutas no processo eleitoral.

Os quatro contendores presentes não conseguiram empolgar. Uns pela inexperiência, outros pelo exagerado maneirismo de velhas práticas. Quem se mostrou mais preparado para o enfrentamento foi, inequivocamente, Douglas Ruas — tentou, o quanto pôde, trazer a conversa para o campo das proposições. Em tom firme, sem exageros retóricos, falou de segurança pública e, diante da ausência do principal oponente, fustigou Eduardo Paes, tentando desgastá-lo junto às mulheres ao evocar frases infelizes do ex-prefeito nesse campo.

Foi sóbrio; lembrou a proximidade ideológica com Flávio Bolsonaro, mas fez questão de não nacionalizar o discurso. Enfatizou aspectos regionais e os problemas reais do Rio, evitando sobrepor a eles qualquer mensagem de cunho puramente ideológico. Mostrou-se de direita não pela estridência, mas pelo conteúdo: defendeu a retomada de territórios com operações como a dos complexos do Alemão e da Penha, na qual 117 pessoas que resistiram à ação policial terminaram mortas. Também na educação, defendeu a necessidade de construção de escolas cívico-militares, citando os bons resultados das unidades no mais recente Ideb.

Anthony Garotinho esbanjou ironia e sarcasmo. Fez do debate uma extensão de suas redes sociais, onde desfila denúncias, muitas das quais sem a mínima prova, tentando se mostrar, a qualquer preço, detentor de informações estratégicas sobre a máquina. Tenta se qualificar mais pela capacidade de atirar pedras do que pela proposição de ideias para mudar a administração pública. Deletério na ação, não se beneficia desse estilo. Destrói, mas não consegue autoconstruir sua imagem a partir da virulência dos ataques. Falta credibilidade.

Aos 66 anos, com trajetória marcada, primeiro, pela assunção de cargos relevantes — secretário, deputado e governador — e, depois, por prisões em cascata que liquidaram sua credibilidade, Garotinho foi Garotinho. A imagem que exibia enquanto os oponentes falavam era sempre de ironia, como se todos fossem cegos diante dos problemas do Rio — à exceção, obviamente, dele próprio. O comportamento é típico de personagens vencidos pelo tempo, presos a conceitos e modelos ultrapassados.

Assistir a mise-en-scène de Garotinho no debate tem inevitavel dejá vu: nos remete aos anos 80, quando o radialista campista surgiu como renovação. Hoje, é passado. Encarna um estilo encardido pela incapacidade de inspirar confiança.

Processado centenas de vezes pela irresponsabilidade em catilinárias recorrentes, Garotinho já não teme as consequências de ações judiciais. Usa a lentidão do julgamento das ações nas instâncias recursais como estratégia para se livrar de sanções. Na maioria das vezes, funciona. Em outras, nem tanto; não por acaso, esteve proscrito dos pleitos eleitorais nos últimos anos.

Willian Siri usou o espaço para se firmar pela esquerda. Defendeu a reestatização da Cedae e alvejou Douglas Ruas com críticas a seu vínculo com Cláudio Castro e Flávio Bolsonaro. Esse tipo de crítica interessa aos dois. Ao público de Siri, é importante atacar o bolsonarismo e seus representantes. A Douglas, interessa muito reforçar seus laços com Flávio, dada a força eleitoral do filho 01 no Rio.

O que parecia um confronto letal, a rigor, interessava aos dois.

Experiente como humorista, André Marinho não conseguiu exibir a mesma naturalidade de suas apresentações em programas de televisão, nos quais se notabilizou como imitador. Repetiu frases e propostas já apresentadas em suas redes sociais, sem trazer qualquer novidade para o encontro. Fora do ambiente controlado dos programas de TV tradicionais, Marinho foi comedido e pareceu pouco à vontade diante de adversários prontos para contestá-lo.

Houve poucas propostas, uma recorrente tentativa de atrapalhar o adversário a partir de ataques e da exploração de contradições — o que é do jogo — e quase nenhuma palavra ou atitude capaz de impactar a atual correlação de forças. Ao fim, o debate produziu mais ruído do que consequência política e dificilmente terá força para alterar o curso da disputa.

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