Retomar territórios dominados pelo crime, implantar tarifa zero nos trens, criar escolas cívico-militares, reestatizar serviços públicos, desmilitarizar ou até dissolver a Polícia Militar, usar inteligência artificial na saúde e criar programas de renda básica. Os planos de governo já apresentados pelos candidatos ao Governo do Rio no DivulgaCand, sistema da Justiça Eleitoral, revelam propostas que convergem em problemas como segurança, transporte, saúde e geração de empregos, mas apontam caminhos ideológicos bastante diferentes para enfrentá-los.
Até o momento, estão disponíveis para consulta os programas de Douglas Ruas (PL), Wiliam Siri (PSOL), André Marinho (Novo), Coronel Busnello (Missão), Cyro Garcia (PSTU), Juliete Pantoja (UP) e Luan Monteiro (PCO). Já Eduardo Paes (PSD) e Anthony Garotinho (Republicanos) ainda não disponibilizaram seus planos de governo no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Os documentos mostram alguns pontos em comum. Segurança pública, recuperação do transporte sobre trilhos, ampliação da saúde no interior, geração de emprego e reorganização da máquina estadual aparecem, sob diferentes formatos, em boa parte das plataformas. As maiores divergências estão nos métodos: enquanto candidatos à direita e ao centro defendem retomada territorial, inteligência policial e participação privada, candidaturas de esquerda propõem reestatizações, redução ou extinção de tarifas e mudanças profundas no atual modelo de segurança.
Da retomada de territórios à dissolução da PM
Douglas Ruas coloca a segurança no centro do “Plano do Rio Real 2027-2030”. O candidato do PL propõe o “Escudo Fluminense”, com reconhecimento facial, leitura de placas, drones e scanners de cargas, além de ofensiva financeira contra facções e milícias. Também defende novos presídios, isolamento de lideranças criminosas, ampliação do efetivo e retirada permanente de barricadas.
Na educação, Ruas pretende implantar escolas cívico-militares, com militares da reserva responsáveis pela disciplina. Na saúde, prevê Centros Integrados de Atenção Médica e Exames, mutirões de cirurgias e um novo Instituto Estadual de Oncologia. No transporte, aposta na integração tarifária e em corredores de alta capacidade na Baixada.
André Marinho (Novo) também aposta na retomada de áreas dominadas por criminosos. Seu “Plano SIGA” prevê 20 “Cinturões de Soberania” até 2030 e um programa chamado “Sai Fuzil, Entra Brasil”, com ações nas fronteiras, bloqueio financeiro de organizações criminosas e reorganização do sistema prisional.
Marinho propõe ainda usar inteligência artificial para organizar a fila estadual de saúde, implantar escolas cívico-militares com formação técnica e estruturar cerca de 700 quilômetros de rodovias estaduais para concessão. Outra bandeira é o Corredor Pavuna-Arco, associado à recuperação do Arco Metropolitano.
Coronel Busnello (Missão) segue linha semelhante na segurança. Seu programa prevê retomada territorial em três fases — asfixia financeira e inteligência, intervenção e presença permanente — inicialmente na Capital, Baixada e São Gonçalo. Cada território recuperado receberia uma Unidade de Controle Territorial.
Busnello promete ainda formar pelo menos 3,5 mil novos profissionais de segurança por ano e criar o “Escudo Jurídico RJ”, com assistência jurídica paga pelo Estado para agentes questionados por atos praticados em serviço. Entre as propostas mais singulares está um programa de “desfavelização”, com horizonte de dez anos para transformar comunidades em bairros formalizados, combinando urbanização e titulação individual.
No extremo oposto desse debate, Cyro Garcia (PSTU) propõe desmilitarizar a Polícia Militar e criar uma polícia civil única. Juliete Pantoja (UP) também defende a desmilitarização das polícias e guardas municipais e o fim de operações policiais consideradas violentas nas comunidades, substituindo-as por inteligência.
Luan Monteiro (PCO) apresenta a proposta mais radical nesse campo: dissolver a Polícia Militar e o que o partido chama de “aparato repressivo”, além de defender comitês de autodefesa de trabalhadores.

Tarifa zero, metrô e reestatizações dividem programas
O transporte é outro tema recorrente. Wiliam Siri (PSOL) propõe reduzir progressivamente as passagens até atingir tarifa zero em todos os modais estaduais e implantar gratuidade imediata nos trens após uma eventual reestatização. Também quer expandir a Linha 2 do metrô a partir da Pavuna em direção a São João de Meriti, Belford Roxo, Duque de Caxias e Nova Iguaçu.
Siri defende ainda uma Renda Básica Fluminense para as 600 mil famílias mais pobres, com benefício de até meio salário mínimo, e a retomada dos CIEPs em tempo integral. A meta é colocar 30 unidades nesse modelo já no primeiro ano, incluindo quatro refeições diárias e renda para estudantes do CadÚnico como forma de combater a evasão.
Juliete Pantoja promete cortar pela metade, em janeiro de 2027, as tarifas de todos os transportes e colocar trens e metrô sob administração estatal e controle popular. A candidata da UP também propõe levar o metrô à Baixada, Niterói e São Gonçalo.
Cyro Garcia igualmente defende a reestatização da SuperVia e do MetrôRio, sem indenização às empresas, além de estatização das barcas e dos ônibus municipais e adoção progressiva da tarifa zero.
As diferenças reaparecem na economia. André Marinho e Douglas Ruas apostam mais fortemente em concessões, PPPs e atração do investimento privado. Busnello também prevê utilizar o Fundo Soberano como garantia de projetos privados. Siri, por sua vez, quer criar um banco estadual de desenvolvimento, enquanto Juliete propõe um banco público para financiar infraestrutura e pequenos negócios.

Propostas mais inusitadas
É entre as candidaturas mais à esquerda que aparecem algumas das propostas que mais extrapolam as competências diretas de um governador.
Cyro Garcia defende jornada semanal de 30 horas sem redução salarial, taxação de grandes fortunas, nacionalização da Petrobras, descriminalização das drogas e estatização de instituições privadas de ensino superior. O PSTU também propõe fechar de forma controlada as usinas nucleares de Angra e as termelétricas.
Juliete Pantoja propõe anular a privatização da Cedae, reestatizar o setor de energia elétrica e erradicar o analfabetismo completo e funcional em um ano. A candidata também quer retirar de espaços públicos homenagens a personalidades que seu programa classifique como racistas, escravocratas, fascistas ou integrantes de órgãos de repressão da ditadura.
Luan Monteiro apresenta propostas ainda mais abrangentes. O programa do PCO fala em aumento emergencial de 50% para todos os salários e estabelece R$ 7,5 mil como referência para um salário mínimo considerado suficiente pelo partido. Também prevê jornada de 35 horas, redução de 50% no preço dos combustíveis e estatização do sistema financeiro.
Entre os pontos que dependem de mudanças no âmbito federal, o PCO defende ainda o fim do Supremo Tribunal Federal, eleição popular de juízes e procuradores, estatização do ensino privado e fim da Lei da Ficha Limpa e da cláusula de barreira.

Apesar das diferenças, os documentos revelam um diagnóstico comum: o próximo governador encontrará desafios particularmente fortes em segurança, mobilidade, saúde, equilíbrio das contas e desenvolvimento econômico. A disputa, portanto, não está apenas em quais problemas enfrentar, mas no modelo escolhido para solucioná-los — da ampliação das concessões e uso de tecnologia à expansão direta da presença do Estado e às reestatizações.







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