Ruas do Alemão desaparecem sob coberturas e acendem alerta na polícia

Imagens comparadas pela Polícia Civil mostram vias cobertas em apenas 84 dias; investigadores suspeitam que estruturas protejam contra ataques de facções rivais e dificultem monitoramento policial

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Ruas e vielas inteiras estão desaparecendo da visão aérea no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Imagens analisadas pela Polícia Civil revelam a instalação de coberturas sobre diferentes pontos da comunidade, numa transformação que, segundo os investigadores, dificulta a vigilância por drones e pode servir de proteção contra ataques aéreos de grupos criminosos rivais.

O levantamento foi realizado pela inteligência da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core). Os agentes confrontaram imagens de satélite registradas em novembro de 2025 com novos registros aéreos produzidos em fevereiro deste ano. O intervalo entre as imagens é de apenas 84 dias.

Nesse período, a paisagem mudou de maneira significativa. Trechos de ruas antes completamente visíveis passaram a aparecer cobertos por telhados. Uma área usada como estacionamento recebeu uma cobertura de alvenaria, enquanto, em outro ponto observado pelos investigadores, uma laje passou a ter uma piscina.

Área seria usada pela cúpula do CV

As transformações identificadas ficam em uma região central do Complexo do Alemão considerada pela polícia de difícil acesso tanto por terra quanto pelo ar.

Segundo os investigadores, é nessa mesma área que estaria escondida parte da cúpula do Comando Vermelho.

A principal suspeita policial é que os telhados não tenham sido construídos originalmente para impedir a atuação das forças de segurança, mas como uma forma de proteção contra uma ameaça que vem ganhando espaço nos confrontos entre organizações criminosas: drones carregados com explosivos.

“Eu acredito que o emprego principal desses telhados que vêm sendo colocados em algumas comunidades seja evitar o lançamento de artefatos explosivos por facções rivais. Mas, obviamente, isso traz um prejuízo muito grande para o monitoramento feito pela polícia, por exemplo”, afirmou Marcos Motta, coordenador da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (Coant).

O efeito das coberturas, portanto, acaba sendo duplo: elas podem dificultar ataques aéreos de rivais e, simultaneamente, reduzir a capacidade de observação das forças policiais.

Estruturas semelhantes não aparecem apenas no Alemão. No Rebu, em Senador Camará, na Zona Oeste, uma rua localizada às margens da linha ferroviária também está quase totalmente coberta.

Em abril, a Polícia Civil e a Prefeitura de Niterói destruíram parte de uma estrutura parecida instalada em uma comunidade do município.

Drones viram os olhos do crime

O avanço das coberturas acontece ao mesmo tempo em que os drones ganham importância nas disputas territoriais entre criminosos.

Segundo a Polícia Civil, os equipamentos já são utilizados para observar territórios, acompanhar a movimentação das forças de segurança e realizar ataques contra grupos rivais.

Atualmente, 18 ocorrências envolvendo bombas lançadas por drones estão sob investigação. A própria corporação trabalha com a possibilidade de que a quantidade real de episódios seja superior aos casos oficialmente identificados.

“Hoje o drone não é usado só pela facção. Qualquer criminoso vai fazer o emprego desse drone porque ele traz uma vantagem estratégica, ele ganha olhos no céu”, explicou Motta.

Os números registrados pelo Disque-Denúncia ajudam a dimensionar a expansão do problema.

O primeiro relato envolvendo um drone equipado com granada foi registrado em 2023. No ano seguinte, foram quatro ocorrências.

Já em 2025, houve 73 denúncias relacionadas ao uso de drones por traficantes e outras 14 envolvendo milicianos, segundo os dados apresentados pela polícia.

Crime também aposta em tecnologia antidrone

A disputa tecnológica não termina na utilização das aeronaves. A polícia identificou criminosos utilizando equipamentos destinados a detectar drones e interferir no funcionamento dos aparelhos.

Em imagens exibidas pelo Fantástico, um homem aparece identificando a presença de uma aeronave e acionando um equipamento conhecido como “bazuca antidrone”.

O dispositivo interfere nos sinais utilizados para comunicação e navegação. No episódio registrado, o operador perdeu o controle da aeronave. O drone só não caiu porque seu sistema de segurança foi acionado automaticamente, fazendo com que retornasse ao ponto de onde havia partido.

Segundo a polícia, o homem que aparece operando o equipamento foi identificado como Hyrval Cassiano da Silva, conhecido como Bochecha Rosa.

Diante da expansão do uso criminoso dessa tecnologia, a Polícia Civil criou, há cerca de um mês, a Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas.

A nova estrutura é responsável por investigar o emprego de drones por criminosos no estado. Além do monitoramento de territórios e dos ataques com explosivos, a polícia já identificou aeronaves não tripuladas sendo utilizadas para transportar drogas para dentro de presídios.

* Reportagem baseada nas informações do RJTV2

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