O mundo ainda se recuperava da Segunda Guerra Mundial quando a América Latina resolveu lançar um reality show próprio político-esportivo. A Guerra Fria engatinhava e o continente vivia em turbilhão. Na Argentina, Perón brincava de populista, estendendo direitos aos trabalhadores e apertos de mãos aos empresários.
No Brasil, o general Dutra tentava governar equilibrando pratos como se fosse um motorista ao volante, com Getúlio Vargas no banco do carona. E no Chile, o presidente Gabriel González Videla, enquanto começava a caçar comunistas, operou nas sombras um genial plano de gestão de imagem que ajudaria a dar dimensão internacional a suas visões políticas.
Assim, em 1948, o Colo-Colo anunciou que iria organizar em Santiago o que chamou de Campeonato Sul-Americano de Campeões. Nome meio burocrático, pompa improvisada, mas que apesar de alguns pesares funcionou.
O Colo-Colo, com a mão amiga do governo, bancou toda a estrutura da competição — até prêmios, passagens e hospedagem dos jogadores —, e reuniu sete clubes de diferentes países no que acabou servindo de ensaio geral para o que, mais tarde, ganharia o nome de Copa Libertadores da América.
O problema era que ainda era um tempo em que campeonatos nacionais de verdade eram artigo raro por aqui. Campeões nacionais mesmo entraram quatro: River Plate (Argentina), Colo-Colo (Chile), Nacional (Uruguai) e Emelec (Equador). Os demais participaram como convidados, como o Litoral (campeão regional de La Paz, Bolívia); o Deportivo Municipal, que era vice-campeão peruano, mas o campeão, o Universitário de Desportes, se recusou a participar e o Brasil enviou o Vasco da Gama para representar a pátria.
Não qualquer Vasco, mas o famoso Expresso da Vitória, um dos maiores esquadrões da história do clube entre 1944 e 1953. O clube era bicampeão do Campeonato Carioca, o mais importante do país, e desembarcou no Chile como se fosse convidado de honra em festa de debutante. Saiu de lá como campeão invicto, depois de um empate com o River Plate que mais pareceu uma aula de diplomacia esportiva: ninguém fez gol, mas todo mundo saiu elegante.
Somente décadas depois, em 1996, a Conmebol teve a epifania de reconhecer oficialmente o torneio de 1948 como precursor da Libertadores. Assim, o Vasco ganhou um título retroativo, tornando-se bicampeão continental sem precisar jogar uma segunda final.
Foi um gesto tão político quanto futebolístico: corrigir a história para valorizar o passado, e, claro, manter viva a tradição da América do Sul onde nada é definitivo enquanto houver um cartola astuto para reescrever o regulamento.
O que foi o campeonato de 1948?
O Campeonato Sul-Americano de Campeões de 1948 foi o primeiro torneio continental de clubes na América do Sul, organizado pelo Colo-Colo com o apoio “discreto” do presidente chileno Gabriel González Videla que ajudou o clube a metralhar o bolso sem olhar torto para ninguém.
O torneio foi disputado entre 11 de fevereiro e 17 de março de 1948, em Santiago (Chile), no Estádio Nacional em sistema de todos contra todos, em turno único. O Vasco sagrou-se campeão invicto, com quatro vitórias e dois empates, e assegurou o título após empatar 0-0 com o poderoso River Plate na rodada final.
Por que o Vasco foi escolhido para representar o Brasil?
O bom senso da época determinava que o representante brasileiro deveria ser um clube de destaque, e o Vasco da Gama tinha, digamos, as credenciais necessárias representar bem o Brasil. Era bicampeão carioca invicto em 1945 e 1947, quando os campeonatos da Guanabara eram os únicos transmitidos por rádio para todo o Brasil.
Além disso, o time vivia sua era de ouro, o chamado Expresso da Vitória, que entrava em campo com nomes imponentes como Barbosa, Danilo, Ademir de Menezes e Chico.

Como surgiu então a Libertadores que conhecemos hoje?
Em 1955 nasceu a Champions League, com jogos entre os times campeões dos países europeus. E não demorou muito para alguém vir com a ideia de organizar um grande jogo entre o campeão da Europa e o campeão das América. Só que não tinha campeonato por aqui. Em 1958 a Conmebol realizou um congresso na Guanabara onde os planos para a realização do campeonato sul-americano de clubes começaram a ficar mais concretos.
Só no ano seguinte, em Caracas, na Venezuela, foi realizado um novo congresso onde a ideia do campeonato foi posta na mesa. Quase todos votaram a favor. Menos a Venezuela, que se absteve alegando elegantemente ser anfitriã do evento, e o Uruguai — que votou contra defendendo que um campeonato de times iria esvaziar as atenções da Copa América disputada entre as seleções nacionais.
Na época o presidente era José Ramos Freitas, o único brasileiro presidente da entidade em toda sua história.
Quem foi o único presidente brasileiro da Conmebol?
José Ramos de Freitas (1909–1990) foi um advogado e cartola do Bahia que, por acidente histórico ou habilidade política, acabou presidente da Conmebol entre 1957 e 1959. Foi, sim, o único brasileiro a ocupar o cargo até hoje.
Sua biografia é tão discreta que seu nome não batiza um só campo de pelada em todo o território nacional. O curioso é que o maior país do continente e um colosso do esporte, só conseguiu colocar um único representante no comando da entidade em mais de 100 anos de história.
Então afinal quando começou a Libertadores?
O primeiro torneio entre times campeões sul-americanos foi marcado realizado em 1960 como Copa dos Campeões da América — nome nada criativo que permaneceu até 1964. Finalmente alguém de bom gosto sugeriu a mudança para o muito mais pomposo Libertadores da América.
Seu nome presta reverência a dois nomes de especial relevância na luta pela independência dos países da América do Sul: José de San Martín, o general argentino que liderou os movimentos de emancipação da Argentina (1816), Chile (1818) e Peru (1821); e Simón Bolívar, líder venezuelano que esteve à frente da independência da Venezuela, Equador, Colômbia e ainda deu uma moral ao San Martín no Peru.
Finalmente o torneio foi disputado entre sete clubes campeões de seus países em 1959. E o representante brasileiro foi o Bahia, não por ser o clube do coração do presidente da Conmebol, mas por ter vencido o Santos de Pelé na final Taça Brasil, conquistando o primeiro torneio nacional de times organizado pela CBD.
Ao cabo e desdobro dos acontecimentos, o Peñarol terminou campeão, o Bahia não passou da primeira fase, mas gerou uma das maiores lendas da história do futebol brasileiro.
Volante, o primeiro
O treinador do Bahia no torneio internacional era o argentino Carlos Martín Volante (1905–1987), que começou a carreira em 1924, jogou por times da Itália e da França, quando descolou um bico: foi o massagista da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1938.O networking deu certo. E Volante veio jogar como meio-campo no Flamengo, time que defendeu até 1944.
Diz a lenda que, por suas características defensivas, Carlos Volante virou referência para técnicos de outros times brasileiros, que passaram a orientar alguns de seus jogadores a “jogarem como o Volante”. E assim teria surgido o termo “volante” no futebol brasileiro.

Alguns historiadores, entretanto, sustentam que o mito seria apenas uma coincidência, embora seja tentador imaginar que um argentino jogando no Flamengo teria “batizado” uma posição na nomenclatura do futebol mundial. Volante brilhou depois no Vasco, voltou ao Bahia para encerrar a carreira, e tornar-se técnico do time tipo um Felipe Luiz do futebol dos velhos tempos. E foi, por décadas, o único treinador estrangeiro campeão nacional.


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