A UPA Costa Barros, na Zona Norte do Rio, ainda não tem previsão para reabrir. Em entrevista exclusiva à Agenda do Poder, Daniel Soranz, secretário municipal de Saúde, negou a possibilidade de que o fechamento seja definitivo. Mas confirmou que os profissionais têm medo de voltar (confira a entrevista abaixo).
A unidade foi fechada há duas semanas após uma invasão de criminosos armados à procura por rivais baleados em ação gravada pelos próprios profissionais de saúde. Uma profissional de saúde escreveu uma carta de apelo com pedido de transferência, dizendo conviver com distúrbios psiquiátricos causados pelo medo de morrer em conflito.

Levantamento obtido pela reportagem junto à Secretaria Municipal de Saúde indica que 741 unidades de atendimento foram fechadas de janeiro a setembro por causa de tiroteios. É o equivalente a uma unidade de saúde sem funcionamento a cada nove horas. Só neste ano, mais de 200 profissionais pediram afastamento de unidades em áreas de risco.
A rotina de profissionais de saúde na linha de tiro da guerra do tráfico nas favelas do Chapadão e Pedreira abriu a série “Vidas em Risco: a Saúde do Rio na mira do crime”. A Agenda do Poder também contou o drama vivido na UPA Vila Kennedy, na Zona Oeste, onde as vítimas ficaram no meio do fogo cruzado na noite de 7 de outubro. E ainda detalhou a ação policial que impôs o terror aos moradores da Maré na manhã de 26 de setembro.
A Secretaria de Segurança Pública descarta a relação entre ações policiais e o fechamento de unidades de saúde. “[Isso ocorre por] investidas dos criminosos que atentam contra a vida e a rotina da população. Todas as operações policiais são planejadas com foco na proteção dos moradores e na preservação dos serviços públicos”.

Agenda do Poder – Uma série de reportagens retratou o drama vivido por profissionais de saúde em meio à guerra urbana do Rio. Como você vê esse cenário?
Daniel Soranz – O que mais incomoda é não ter uma perspectiva mais otimista de futuro e de planejamento. Como vamos resolver essa situação a curto ou médio prazo? Vivemos em um cenário preocupante, com barricadas em portas de unidades de saúde e territórios dominados pelo tráfico. A situação tem se agravado nos últimos anos.
Agenda do Poder – Os profissionais de saúde gravaram quando criminosos invadiram a UPA Costa Barros à procura de rivais baleados. Como você vê essa situação?
Soranz – Não podemos naturalizar situações, como duas granadas encontradas em uma unidade de saúde. Não podemos aceitar que isso se torne rotina, e é preciso que haja uma reação forte. A situação é crítica. E o Estado precisa retomar esses territórios. Mas não é com blindado entrando e saindo que vamos resolver o problema. É necessário também que esses profissionais de saúde não sejam colocados em situações de risco ou de constrangimento. O Estado precisa proteger as unidades de saúde em momentos de guerra e de invasões do crime. E, para isso, a polícia precisa descobrir quem financia essa guerra.
Agenda do Poder – Qual situação foi mais marcante?
Soranz – Foi ver equipes em pânico após a invasão da UPA Costa Barros. No chão, desesperadas, pedindo para sair da unidade e para proteger os pacientes. Por isso, precisamos fechar a unidade, em um cenário de sucessivas ameaças.
Agenda do Poder – Há previsão de reabertura da UPA Costa Barros?
Soranz – Está descartada a possibilidade de fechamento definitivo. Mas é necessário garantir a segurança dos profissionais e dos pacientes. A ideia é reabrir o quanto antes. Todos os dias, nós analisamos a possibilidade de reabertura. Nesta semana, já houve mais um intenso tiroteio. Existe uma dificuldade para encontrar profissionais que queiram voltar. A sensação é de insegurança para essa retomada. Os profissionais têm medo de voltar. Mas confiamos na capacidade do Estado em ter uma reação ao crime organizado.


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