Em um intervalo de apenas 12 dias, profissionais de saúde e pacientes gravaram quando ficaram na linha de tiro em três unidades de atendimento no Rio. Foram momentos de terror em meio a confrontos envolvendo traficantes, milicianos e até policiais em um raio de 36 km.
O último capítulo de “Vidas em risco: a Saúde na mira do crime” traz relatos sobre o dia em que profissionais de saúde e pacientes se tornaram reféns da violência na operação policial na manhã de 26 de setembro no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio.
A Agenda do Poder abriu a série detalhando a invasão à UPA Costa Barros, apenas quatro dias depois da ação das forças de segurança na Maré. A reportagem também contou como foi o confronto de 7 de outubro na Vila Kennedy, que obrigou as pessoas no local a se abrigar na unidade às margens da Avenida Brasil, principal via expressa do Rio.
A escalada de violência começou na manhã de 26 de setembro com registros de vídeos com som de tiroteios em unidades de saúde no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio.
A ação começou com helicópteros em voos rasantes e disparos na direção de traficantes. No lado interno, pessoas se escondem em uma unidade de saúde. Algumas delas aparecem deitadas no chão. Após a operação, os estragos.
As imagens mostram buracos de tiros de armas de grosso calibre espalhadas por paredes, portas, teto e até seis perfurações no chão de rajadas de disparos dados de cima para baixo do helicóptero até a Clínica da Família Adib Jatene.

“Já havia começado o expediente, e fomos surpreendidos pela operação policial. O helicóptero chegou atirando. Depois, teve uma troca intensa de tiros. Parecia que não iria acabar. Precisamos manter a calma para passar tranquilidade aos pacientes”.
Enfermeira da Maré, sob condição de anonimato
Profissionais de saúde e moradores foram obrigados a permanecer no local por quase quatro horas, até que a operação policial acabasse e fosse possível sair de lá sem riscos.

Não é a primeira vez que a unidade de saúde da Maré é atingida por disparos em meio a confrontos entre policiais e traficantes.
Em junho de 2024, imagens mostram vidros trincados de portas internas com marcas de tiro. A porta de entrada da unidade foi destruída por disparos na ocasião. Os profissionais de saúde fizeram registros até de projéteis no local.
“A tensão é permanente, e a violência já faz parte da nossa rotina de trabalho. Quando os profissionais de saúde chegam na Maré, precisam retirar barricadas do meio da rua para acessar as unidades. Estamos muito vulneráveis”.
Enfermeira da Maré
Violência fecha uma unidade a cada 9 h no Rio
Levantamento obtido pela reportagem junto à Secretaria Municipal de Saúde indica que 741 unidades de atendimento foram fechadas de janeiro a setembro por causa de tiroteios. É o equivalente a uma unidade de saúde sem funcionamento a cada nove horas. Só neste ano, mais de 200 profissionais pediram afastamento de unidades em áreas de risco.
O delegado Marcus Amim, da Polícia Civil do Rio, relaciona esse cenário à instalação de unidades de saúde em áreas de domínio do crime organizado.
“Se essas unidades de saúde ficassem no entorno, diminuiria bastante o risco de bala perdida. Aparelhos estatais não podem funcionar onde o Estado não tem controle. As pessoas ficam reféns daqueles que têm de fato o domínio do território”.
Marcus Amim
Já o sociólogo Daniel Hirata, que coordena o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da UFF, diz ver responsabilidade das forças policiais em ações em que profissionais de saúde e pacientes ficam na linha de tiro. “Também faz parte do planejamento das operações policiais pensar nesses impactos para garantir a proteção dessas pessoas”.
Procurada pela Agenda do Poder, a Secretaria de Segurança Pública descarta a relação entre ações policiais e o fechamento de unidades de saúde.
“[Isso ocorre por] investidas dos criminosos que atentam contra a vida e a rotina da população. Todas as operações policiais são planejadas com foco na proteção dos moradores e na preservação dos serviços públicos”.
Secretaria de Segurança Pública, em nota
A violência sofrida por profissionais de saúde e pacientes motivou a elaboração de um projeto de lei para instituir rondas policiais nas unidades, protocolado nesta semana na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) pela deputada estadual Lilian Behring (PCdoB).
O projeto de lei foi a elaborado a pedido da deputada federal Enfermeira Rejane, que se posicionou sobre o tema. “As pessoas não podem viver com medo nos postos e hospitais. Com a ronda policial na Saúde, o Estado estará presente, garantindo que o SUS seja espaço de paz, cuidado e respeito. É hora de proteger quem salva vidas”.


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