Com armas em punho, criminosos ameaçam atirar em funcionários da UPA Costa Barros, Zona Norte do Rio, ordenando que socorram um comparsa baleado. Detalhe: o homem já está morto, obrigando os profissionais de saúde a “encenar” um atendimento para preservar suas próprias vidas.

Na linha de tiro em meio a uma disputa entre facções rivais nas favelas do Chapadão e Pedreira, funcionários relatam até ataques a ambulâncias para que os próprios criminosos socorram seus comparsas em uma guerra do tráfico que parece longe do fim.

A Agenda do Poder mergulhou nesse universo ao entrevistar médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde, que detalham a rotina de quem trabalha sob constante ameaça. É o primeiro capítulo da série “Vidas em risco: a Saúde do Rio na mira do crime”. Para preservar a identidade dos entrevistados, os nomes na reportagem são fictícios.

“Criminosos armados chegaram na UPA pedindo para atender um comparsa em óbito. Aí, tivemos que simular atendimento, já que a equipe estava toda ameaçada”.

John, enfermeiro *

“O cara já morto e aqueles homens armados na nossa volta pressionando, dizendo: ‘tem que salvar, tem que salvar’. Naquelas circunstâncias, fomos obrigados a fingir para minimizar o impacto que eles estavam exercendo”.

Peter, profissional de saúde *

Eles dizem trabalhar há anos em meio a intensos tiroteios, em um ambiente onde quem manda é o poder paralelo. E não é de hoje.

Um morador, que optou pelo anonimato, conta um episódio ocorrido há mais de dez anos, quando Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy, invadiu a UPA exigindo atendimento a um baleado, carregado nas costas pelos comparsas. O traficante, que já foi apontado como o criminoso mais procurado do Rio, era um dos líderes do tráfico na região e foi morto em uma operação policial em agosto de 2015.

“Eu esperava atendimento quando vi o Playboy entrando com outros caras com mó fuzilzão e carregando um baleado. As mulheres começaram a gritar. Ele ficou puto e pagou geral: ‘Porra, morador! É a gente, caralho! Tá pensando é alemão e vai esculachar vocês?’. Depois, mandou todo mundo sair. Só que o cara já chegou morto. Isso sempre aconteceu na UPA”.

Mas o cenário se agravou neste ano, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde obtidos pela reportagem.

Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Costa Barros | Reprodução / Google street view

Número de baleados mais que dobrou em 2025

De janeiro a setembro deste ano, a unidade atendeu 78 pessoas baleadas, média de um caso a cada quatro dias. O índice mais que dobrou em comparação aos 38 registros no mesmo período de 2024, com aumento de 105%. E triplicou em relação a 2023, quando a UPA recebeu 25 feridos por tiro.

Apesar do índice elevado, profissionais de saúde relatam que o número de baleados atendidos é muito maior, já que criminosos costumam impedi-los de fazer registro quando o paciente é foragido da Justiça. Algo corriqueiro nesses casos.

“Quando chega um baleado em confronto, a pressão é grande, porque os criminosos entram armados para acompanhar na sala vermelha enquanto estamos fazendo o procedimento. Em algumas ocasiões, eles saem da unidade sem o devido tratamento, sem que o caso seja registrado. Eles também não vão a um hospital de grande porte, porque seriam presos”.

Michael, enfermeiro *

Registro flagra pacientes e profissionais de saúde buscando proteção no chão da UPA Costa Barros | Crédito: Arquivo pessoal

‘Arma na cara’: a escalada de violência

A unidade enfrentou uma escalada de violência nos últimos dias. O episódio mais recente de violência ocorreu há pouco mais de uma semana, quando uma profissional gravou a invasão de criminosos armados. À procura de rivais baleados, eles chegaram a suspeitar de dois pacientes. “Não tem baleado aqui”, disse um deles.

“Ele entrou!”, reagiu a profissional que fez a gravação ao ver um criminoso armado. Em seguida, uma colega dela fez um apelo: “Ele tá apontando a arma na minha cara! Não tem condições, não”. Os criminosos chegaram a sequestrar e agredir os dois pacientes, liberados em seguida quando perceberam que eles não eram criminosos rivais envolvidos no tiroteio.

Marca de tiro em carro nas proximidades: violência afeta profissionais de saúde | Crédito: Reprodução

Em agosto, uma granada foi encontrada no corpo de um criminoso morto em confronto dentro da UPA Costa Barros. No dia 17 de setembro, um menino de 8 anos foi atendido na unidade após ter a mão direita amputada após devido à explosão de um artefato. Uma semana depois, o carro de uma médica foi baleado em tiroteio entre a PM e criminosos.

Em um dos registros gravados de violência na unidade, é possível ouvir uma série de disparos, com profissionais buscando proteção atrás de uma ambulância. “Ó! Estão dando [tiros] pra cima do caveirão! Olha o caveirão ali! O bagulho tá doido, mané”, diz um deles.

Outro vídeo mostra um grupo de cerca de dez policiais militares buscando refúgio no estacionamento, a menos de 200 metros da unidade. Também há imagens de funcionários e pacientes se atirando no chão da UPA para se proteger dos tiros.

A UPA Costa Barros está fechada por tempo indeterminado.

* Para preservar a identidade dos entrevistados, os nomes na reportagem são fictícios.

PMs na frente da UPA de Costa Barros | Crédito: Reprodução

Roubo de ambulâncias para socorrer feridos: ‘Cena de guerra’

Os profissionais da UPA Costa Barros lidavam com um enredo já conhecido. Passou a fazer parte da rotina a entrada de homens armados na unidade para render profissionais, obrigando que entrassem na comunidade para socorrer criminosos feridos em confronto.

No mesmo dia da invasão à UPA Costa Barros, Daniel Soranz, secretário municipal de Saúde, se posicionou sobre a reincidência de casos. Nas suas redes sociais, ele compartilhou o registro de boletim de ocorrência citando dois sequestros de ambulâncias na unidade em menos de uma semana. O último deles ocorreu em meio ao tiroteio no mesmo dia da invasão à UPA, no dia 30 de setembro. “Até agora nenhuma providência efetiva foi tomada. Profissionais de saúde não podem viver sob esse risco permanente”, escreveu.

“Precisamos lidar com sequestros de ambulância para resgate de baleados após confrontos. A UPA está no meio de uma guerra entre duas facções. Os bandidos invadem a unidade para ‘pegar’ a ambulância e ainda somos ameaçados. Eles nos impedem de abrir BO ou falar algo com a polícia. Precisamos acatar, porque temos medo de morrer”.

John, enfermeiro

No início deste ano, John relata que a ambulância foi obrigada a resgatar um baleado próximo à Estação Costa Barros, a 350 metros da UPA. Contudo, os profissionais entraram na mira dos tiros, já que os integrantes da facção rival começaram a atirar em direção à unidade. Na ocasião, a própria ambulância foi atingida. “Eu estava na sala vermelha e me joguei no chão, junto com o paciente”, contou.

Já o enfermeiro Michael relata outro episódio, ocorrido há dois anos. Na ocasião, uma equipe composta por médico, enfermeiro e motorista foi obrigada a entrar na comunidade para fazer um resgate em meio a um confronto.

“A facção rival poderia chegar a qualquer momento para dar início a um novo confronto, mas a equipe médica foi coagida e obrigada a entrar naquele território. É cena de guerra, com atendimento em território hostil”.

As ações para sequestrar as ambulâncias eram tão corriqueiras que um motorista se escondeu dentro da unidade ao perceber que seria levado mais uma vez pelos criminosos. Quem conta o caso é o profissional Peter. “O motorista viu de longe a aproximação dos criminosos em meio a um tiroteio. Aí, ele tirou o uniforme e ficou ‘à paisana’ para que não fosse identificado e obrigado a fazer um resgate”.

‘Crises de ansiedade’: enfermeira pede transferência em carta

A reportagem teve acesso a uma carta de apelo com pedido de transferência de uma profissional, que passou a conviver com distúrbios psiquiátricos causados pelo medo de morrer em serviço. Ela diz ter crises de ansiedade e dificuldade para dormir por causa da violência no seu local de trabalho.

“A violência cresceu com a entrada de meliantes na unidade, ameaçando com arma de fogo na cabeça dos profissionais e assaltos contínuos perto da unidade. Por várias vezes, tive que me jogar no chão por conta de tiros nas proximidades da UPA”.
Veja carta na íntegra abaixo

Trecho de carta de enfermeira, obtido por Agenda do Poder | Crédito Reprodução

Ela cita ainda a dificuldade para deixar o plantão, já que veículos de transporte por aplicativo não chegam próximo ao local e o transporte por vans parou de circular nas imediações “devido ao perigo constante”.

Na carta, relata que tem sofrido consequências até nas relações em família por causa da violência enfrentada na sua rotina de trabalho.

O profissional Peter compartilha da mesma ideia da colega, e também não pretende voltar a trabalhar na UPA Costa Barros. Durante os três anos em que atua na unidade, diz ter se tornado comum situações em que é acordado na madrugada com relatos de colegas sobre invasões de criminosos e tiros no local que deveria ser usado para preservar vidas.

“Aí, já penso: ‘como vou chegar lá? Como vou sair?’. Minha saúde mental já não é a mesma. Durmo só três horas por dia e vivo com medo por trabalhar onde precisamos também conviver com relatos de tiroteio. A violência é diária. Estou o tempo inteiro assustado”.

Em um desses casos de extrema violência, relatou o episódio em que um criminoso foi morto por rivais e teve o corpo incinerado em uma pilha de pneus a apenas 200 metros da UPA Costa Barros. “Vivenciei muita coisa lá, a ponto até de banalizar certos riscos. Situações desse tipo não podem ser tratadas como normais”.

PM ocupa região por tempo indeterminado

A Polícia Militar do Rio informou que foi determinada uma ocupação por tempo indeterminado no entorno da Pedreira e do Chapadão, complexo de favelas onde fica a UPA Costa Barros. Mas admitiu a dificuldade para garantir a segurança no território.

“A região apresenta grande complexidade, marcada por disputas entre grupos criminosos armados e pela presença de comunidades que demandam atenção constante do Estado (…). A corporação mantém esforços permanentes de policiamento e ações de proximidade, com o objetivo de proteger vidas, restabelecer a ordem e ampliar a sensação de segurança”.

Trecho da nota da PM

Armas de guerra apreendidas por PMs na região | Crédito: Reprodução

A PM informou ainda que a unidade foi atacada por criminosos armados, que atiraram na direção dos agentes nesta quarta-feira (8). Em seguida, eles fugiram. A corporação informou ter apreendido uma pistola e um radiocomunicador na ação.

O 41º BPM (Irajá), batalhão responsável pelo policiamento na região onde atuam as facções criminosas em confronto no Chapadão e Pedreira, lidera o ranking de apreensões de fuzis, um indício do alto poderio bélico da região.

De janeiro a setembro deste ano, a PM atingiu a marca de 500 armas do tipo apreendidas. Com 82 fuzis, a PM que atua na região é responsável por 16,4% do total de apreensões.

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