Um traficante com fratura exposta nas pernas após ser atingido por tiros de fuzil em um confronto entre facções na Vila Kennedy, Zona Oeste do Rio, foi levado por comparsas à UPA. Os profissionais da unidade o colocaram em uma ambulância para levá-lo a um hospital nas imediações devido ao seu estado crítico. Mas ele não conseguiu sair da favela. Homens armados em um carro e motos renderam a equipe médica, levando o criminoso para matá-lo.
O possível assassinato há dois anos ilustra uma escalada de violência, onde servidores ficam cada vez mais expostos à disputa por território do crime organizado. O caso foi presenciado por uma médica que fazia parte da equipe de plantão. Em entrevista exclusiva, ela detalhou a escalada de violência nas imediações da unidade, que fica às margens da Avenida Brasil.
“Quando um criminoso recebe atendimento, ele vai embora rapidamente, por medo de ser preso ou de ser morto por rivais. Como esse paciente estava em estado crítico, foi colocado na ambulância. Mas fomos abordados na saída da unidade por quatro bandidos armados que desceram de um carro e de duas motos”.
Médica da UPA Vila Kennedy

É o segundo capítulo de “Vidas em risco: a Saúde na mira do crime”. Na abertura da série, a Agenda do Poder contou a história da UPA Costa Barros, que atendeu um baleado a cada quatro dias de janeiro a setembro, mais que o dobro em relação ao mesmo período de 2024.
A principal e mais violenta via expressa do Rio tem 58 km, cercada por 70 favelas envolvidas em disputas entre organizações criminosas. A avenida nas imediações da UPA e por onde circulam diariamente mais de 200 mil veículos registra uma média de um tiroteio a cada dois dias, segundo o Instituto Fogo Cruzado. É mais que o dobro em comparação à soma da Linha Vermelha e Linha Amarela, as outras duas principais vias expressas do Rio.
“Na Brasil, as dinâmicas de violência envolvem roubos a veículos, confrontos entre grupos criminosos e ações policiais nas favelas do entorno. Os tiroteios onde há presença de grupos armados impactam na mobilidade, na Educação e também na Saúde, afetando a vida das pessoas de diversas formas. A Vila Kennedy aparece nesse cenário em um contexto de disputa entre facções e milícias, com alto índice de indicadores de violência armada”.
Carlos Nhanga, coordenador-regional do Instituto Fogo Cruzado
Tiros em UPA: vídeo mostra mãe protegendo criança com o próprio corpo
Assim como em Costa Barros, os profissionais de saúde na Vila Kennedy convivem com o medo devido aos confrontos entre facções rivais no entorno da unidade. O caso mais recente da violência ocorreu na noite de terça-feira (7), quando 50 pessoas ficaram na linha de tiro em meio a uma invasão da milícia em uma área de domínio do CV (Comando Vermelho).
Um vídeo obtido com exclusividade pela reportagem mostra a reação das pessoas na sala de espera dos consultórios. Eram 23h07 quando começa a primeira sequência de tiros. Em seguida, as pessoas começam a correr em busca de proteção.

O som de disparos se intensifica, com rajadas de fuzil e o que parece ser o barulho de granadas explodindo. O desespero passa a tomar conta das pessoas por ali. “É polícia?”, questiona uma delas. Não era. Dois minutos depois, um outro morador responde.
“É bandido! Não é polícia, não, mano. Eu vi! Os caras tudo de preto (…). Eles mandaram eu sair do carro”.
Entre as pessoas que estão ali, aparece uma idosa caminhando com dificuldade enquanto é amparada por outra mulher, e uma pessoa em uma cadeira de rodas. “Tá todo mundo lá no banheiro”, diz uma mulher, que conversa com uma das pessoas na sala de espera.
O intervalo entre os confrontos é cada vez menor, com estouros mais altos. Era como se o confronto estivesse se aproximando. O desespero entre moradores, pacientes e funcionários da UPA se intensifica. Um grupo de pessoas entra correndo.
É possível ouvir uma mulher chorando. No meio do grupo, um homem corre com uma criança no colo e se joga no chão, nos fundos. A mãe então se aproxima e abraça o menino, usando o próprio corpo como se fosse uma espécie de escudo para protegê-lo, ao som de rajadas de fuzil e bombas.
Nesta sexta-feira (10), após a UPA ficar na linha de tiro, a Polícia Militar fez um cerco na região para “preservar a segurança” dos usuários da Avenida Brasil.
Em outra ação, agentes armados circularam pela comunidade, resultando na prisão de dois suspeitos. Com eles, foram apreendidas uma pistola, um radiotransmissor e drogas, de acordo com a Polícia Militar.

Sensação de terror: ‘É comum ver criminosos armados’
A médica citada no começo da reportagem diz que os confrontos entre facções rivais sempre ocorreram no entorno da UPA Vila Kennedy. Mas, segundo ela, passaram a acontecer cada vez mais perto da unidade. Como no caso da última terça-feira.
“Por mais que estivéssemos dentro do território, os confrontos ficavam distantes. Isso mudou. Neste ano, os tiroteios também estão mais frequentes. É comum ver criminosos armados de moto cruzando a avenida e passando na porta da UPA. Isso gera uma sensação de terror, principalmente quando estamos chegando ou saindo da unidade”.
Ela também relatou outro episódio que causou pânico entre os profissionais. Mas devido à presença dos próprios policiais, que foram à UPA para procurar por um foragido que teria sido baleado. Só que ele não havia sido levado para o local.
A estrutura física da unidade na Vila Kennedy reforça a sensação de insegurança, diz ela. “A UPA é um contêiner. Qualquer tiro pode nos atingir”.
“A guerra do tráfico não vai ter fim. A situação tomou uma proporção tão grande que parece sem saída. E nos sentimos vulneráveis. O pensamento é algo do tipo: ‘Hoje, consegui sobreviver. Mas e da próxima vez, como vai ser?’. Nós convivemos com o medo. É como se a nossa vida estivesse por um fio”.
Há casos em que pacientes baleados procuram atendimento na unidade sem dar qualquer tipo de identificação. Ou, ainda, fornecendo um nome falso. Mesmo em situações do tipo, os profissionais de saúde dizem se sentir coagidos. “Naquele momento, eles não são uma ameaça porque estão vulneráveis. Mas podem vir a ser”.


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