Presidente do União Brasil discutiu com Vorcaro acordo para venda de 49% da BRB Financeira

Mensagens extraídas pela PF mostram que Antonio Rueda enviou ao então dono do Banco Master uma minuta que daria ao grupo comprador maioria no conselho da financeira

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Quatro dias antes de o BRB anunciar uma parceria para vender 49% de sua financeira, uma minuta do acordo de acionistas passou pelo WhatsApp de Antonio Rueda e Daniel Vorcaro. O presidente do União Brasil enviou um trecho do documento ao então dono do Banco Master, que sugeriu uma mudança nos poderes para aprovar operações financeiras e de crédito. A negociação beneficiaria um consórcio que tinha entre seus investidores o empresário José Ricardo Lemos Rezek, amigo de Rueda.

As mensagens foram extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro e obtidas pela coluna de Malu Gaspar, do jornal O Globo. Os registros indicam que Rueda e Vorcaro se encontraram ao menos duas vezes no Lago Sul, em Brasília, durante as tratativas. Eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro em outubro, Rueda ainda não tinha mandato eletivo quando as conversas ocorreram.

O negócio foi negociado na gestão de Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB. Ele foi indiciado pela PF em 28 de outubro no inquérito sobre suspeitas de fraude nas carteiras de crédito vendidas pelo Banco Master ao banco público de Brasília.

Minuta previa maioria no conselho

A troca de mensagens sobre a minuta ocorreu em 1º de julho de 2024. Embora o trecho compartilhado por Rueda mencionasse o BRB sem citar diretamente a financeira, o documento tratava de atividades do setor e previa ampla autonomia para os diretores indicados pelo consórcio. O acordo daria ao grupo comprador a maioria dos votos no conselho, apesar de sua participação de 49% no capital.

O consórcio se comprometeu a pagar R$ 320 milhões em dez parcelas anuais, o equivalente a R$ 32 milhões por ano. Segundo fontes do BRB ouvidas pela coluna, a financeira registrava lucro anual em torno de R$ 90 milhões. Se esse resultado se mantivesse e os lucros fossem integralmente distribuídos na proporção das participações, a fatia de 49% renderia cerca de R$ 44 milhões por ano ao grupo comprador.

Dois dias depois do envio da minuta, Vorcaro avisou a Rueda que estava atrasado para um encontro em Brasília. “Atrasou aqui pra liberarem decolagem to decolando agora. Devo pousar 16:30 e vou direto para ai.” O dirigente partidário respondeu com seu endereço.

Mensagens citam sócio do Master e presidente do BRB

Em 4 de julho, Rueda mencionou Augusto Lima, então sócio de Vorcaro no Master e um dos responsáveis pelo modelo de negócios de crédito consignado do banco. “Augusto me chamou queria dividir. Tô voltando p bsb [Brasília]”, escreveu. Em seguida, acrescentou: “Queria alinhar o que falei”. Após duas ligações, Vorcaro enviou seu endereço no Lago Sul. As mensagens não esclarecem o que Lima pretendia dividir.

No dia seguinte, quando o BRB anunciou a parceria, Rueda enviou outro recado a Vorcaro: “PH precisando falar c vc”. A referência era a Paulo Henrique Costa, que voltou a mencionar Rueda em 27 de fevereiro de 2025. Naquela ocasião, segundo os registros, o então presidente do BRB disse a Vorcaro que havia tomado um café com o dirigente partidário e precisava falar com ele.

No comunicado de julho de 2024, Costa apresentou a parceria como uma forma de ampliar a atuação da financeira no crédito consignado e nos cartões de benefícios. “Com essa aliança, estamos não apenas expandindo nossa capacidade de atuação no mercado de crédito consignado e cartões de benefícios, mas também fortalecendo nossa posição como um banco inovador e dinâmico, que passará a oferecer soluções ainda mais robustas e abrangentes para nossos clientes em todo o Brasil. Estamos confiantes de que essa parceria impulsionará significativamente o desenvolvimento da Financeira BRB e contribuirá para o crescimento contínuo do banco”.

Banco Central questionou operação

A transação avançou em março de 2025, no mesmo período em que o BRB anunciou a compra do Banco Master, mas encontrou resistência no Banco Central. Segundo a coluna, o regulador barrou a transferência de capital após apontar problemas na comprovação da origem dos recursos e levantar objeções ao acordo de acionistas. O grupo recorreu, e o recurso ficou sem decisão final.

Após a liquidação do Master e a primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025, dirigentes do Banco Central se reuniram com representantes do BRB. Segundo fontes ouvidas pela coluna, o diretor Renato Gomes avisou que o regulador cancelaria a operação caso o próprio banco não o fizesse. O BRB anunciou o cancelamento no fim de dezembro daquele ano.

O que dizem os citados

Em nota, Antonio Rueda afirmou que sua atuação em questões relacionadas ao Banco Master se limitou à assessoria jurídica e invocou o sigilo profissional. Ele não esclareceu as mensagens sobre Paulo Henrique Costa e Augusto Lima.

“Minha atuação, em todas as questões relativas ao Banco Master, limitou-se à assessoria jurídica, sempre na condição de advogado, no exercício regular da profissão e dentro dos limites legais e éticos.

As comunicações com clientes são protegidas pelo sigilo profissional (Estatuto da Advocacia e da OAB, arts. 7º, II, e 34, VII, e Código de Ética e Disciplina da OAB).

As demais perguntas dizem respeito a condutas e declarações de terceiros.

Atenciosamente,
Antonio de Rueda
”

Carla Pontes e André Azin, que participaram do consórcio, disseram à coluna que Rezek faria o maior aporte e ficaria com 39% da financeira, enquanto cada um deles teria 5%. Rezek afirmou que entrou como investidor minoritário após receber um convite. Na íntegra, a nota do empresário diz:

“O empresário José Ricardo Lemos Rezek jamais tratou de qualquer assunto da BRB Crédito, Financiamento e Investimento (BRB Financeira) com as pessoas citadas, e desconhece a relação delas com a instituição.

É importante ressaltar que Rezek não participou de qualquer processo para a aquisição da BRB Financeira.

Somente após a conclusão desse processo, Rezek foi procurado e convidado pela empresa vencedora a integrar o negócio, na condição de investidor, com participação minoritária na BRB Financeira.

A decisão de ingressar na sociedade foi de natureza exclusivamente empresarial, baseada na avaliação de uma oportunidade comercial. Após análises de natureza mercadológica e técnica, Rezek desistiu do negócio, o que foi comunicado publicamente. A operação, portanto, sequer se concretizou.”

A defesa de Daniel Vorcaro informou à reportagem que não se manifestaria sobre as mensagens.

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