Uma possível falha na comunicação entre batalhões da Polícia Militar está no centro das investigações sobre o tiroteio que matou um subtenente do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e deixou outros cinco agentes feridos neste domingo (11), em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio. A principal hipótese investigada é de que policiais do 18º BPM (Jacarepaguá) tenham confundido integrantes da tropa de elite com criminosos e disparado contra os colegas.
O episódio ocorreu durante uma abordagem na Rua Guilherme Moreira, na Freguesia, nas proximidades da Gardênia Azul. Segundo a Polícia Militar, a baixa luminosidade pode ter contribuído para que os agentes não reconhecessem a equipe do Bope.
O antropólogo Lenin Pires, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), avalia que a investigação precisa esclarecer se houve comunicação prévia sobre a presença dos policiais especializados na área e se essas informações chegaram às equipes que estavam nas ruas.
Especialista questiona comunicação entre batalhões
Para Lenin Pires, professor do Departamento de Segurança Pública e diretor do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos da UFF, a atuação simultânea de diferentes unidades exige procedimentos de comunicação e identificação capazes de evitar confrontos entre policiais.
— Tem cinco policiais do Bope em atuação na área do 18º Batalhão e fazendo abordagens. Por que isso deveria ser um segredo para que o 18º Batalhão não soubesse? — questiona o pesquisador.
Uma das principais dúvidas é se o comando do batalhão responsável pelo policiamento da região tinha conhecimento da operação e, caso tivesse, se o aviso foi repassado aos agentes em patrulhamento.
— Foi informado ao 18º Batalhão que isso iria acontecer? A informação não fluiu? Tem muita coisa que, a meu ver, precisa ser respondida — afirma.
O especialista também considera necessário verificar se os policiais estavam uniformizados e se utilizavam veículos que permitissem a identificação das equipes.
Como aconteceu o confronto em Jacarepaguá
De acordo com a Secretaria de Estado de Polícia Militar, agentes do Bope realizavam uma abordagem a um veículo quando foram avistados por policiais do 18º BPM.
Informações iniciais apontam que o batalhão local teria recebido um alerta sobre homens armados nas proximidades de um Kia Sportage branco. Ao chegarem ao endereço, os policiais teriam confundido a movimentação da equipe especializada com uma ação criminosa.
Também surgiram relatos sobre a utilização de veículos descaracterizados, mas ainda não foi esclarecido a quais equipes pertenciam os automóveis nem se essa circunstância contribuiu para o possível erro de identificação.
Testemunhas relataram que os policiais não teriam se reconhecido durante a ocorrência, nas proximidades do Beco do Saci.
Após um pedido de prioridade na comunicação por rádio, outras equipes foram acionadas. Um blindado do Comando de Operações Especiais (COE) e duas viaturas do Bope seguiram para a região.
Imagens registradas depois do tiroteio mostram uma viatura do 18º BPM com diversas perfurações provocadas por disparos. Também foram identificados sangue e cápsulas de munição espalhadas pelo chão.
A área foi isolada para perícia, enquanto o confronto provocou reflexos no trânsito. Duas faixas da Avenida Ayrton Senna, na altura do Espaço Hall, no sentido Linha Amarela, foram interditadas por volta das 6h30.
Policial morto já havia perdido irmão em operação
O subtenente Gláucio Marcelo Fonseca da Silva, de 54 anos, morreu durante o confronto. Ele completaria 26 anos de serviço na Polícia Militar em dezembro e deixou três filhos, duas mulheres de 30 e 19 anos e um menino de 7 anos.
A morte representa uma nova tragédia para a família. Em outubro de 2025, o irmão de Gláucio, o terceiro-sargento Heber Carvalho, também integrante do Bope, morreu durante a megaoperação policial realizada no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio.
Menos de um ano depois, a família enfrenta outra perda envolvendo um integrante da unidade especializada. Desta vez, porém, a suspeita é de que os tiros tenham partido de policiais militares.
Em nota de pesar assinada pelo comandante do Bope, tenente-coronel Carlos Eduardo da Silveira Monteiro, a unidade lamentou a morte do subtenente e manifestou solidariedade aos familiares e amigos.
O corpo de Gláucio foi encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML).
Cinco policiais ficaram feridos
Além da morte do subtenente, cinco policiais militares ficaram feridos no confronto. Os agentes foram encaminhados ao Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca.
Segundo informações da direção da unidade hospitalar, Ângelo Cleber Toscano Araujo, do 18º BPM, e Leonardo Malaquias de Souza precisaram passar por procedimentos cirúrgicos e apresentavam quadro estável.
Os policiais Adriano de Oliveira Fernandes, Sidnei Santos Silva e Diego Alves de Santanna receberam alta após avaliação médica.
Investigação busca esclarecer possível fogo amigo
O caso é investigado pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), da Polícia Civil, e pela Corregedoria Interna da Polícia Militar, por meio da 2ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (2ª DPJM).
Entre os principais pontos que precisam ser esclarecidos estão a sequência dos disparos, a identificação das equipes, a comunicação entre os batalhões e as circunstâncias que levaram os agentes a abrir fogo.
Lenin Pires defende que a apuração conte com a participação do Ministério Público e da Polícia Civil e também seja utilizada para aperfeiçoar os protocolos de segurança.
O pesquisador ressalta que ainda não existem informações suficientes para determinar responsabilidades, mas considera fundamental avaliar a coordenação operacional e os procedimentos adotados pelas unidades envolvidas.
O episódio também reacende o debate sobre confrontos acidentais entre policiais militares. Em fevereiro de 2024, integrantes do Bope e do serviço reservado do 9º BPM (Rocha Miranda) trocaram tiros no Morro do Jorge Turco, na Zona Norte do Rio.
Na ocasião, o confronto durou aproximadamente dois minutos e não deixou feridos. A Polícia Militar informou que analisaria as imagens da ocorrência com as equipes operacionais para prevenir novos casos.
*Com informações do jornal Extra







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