Pesquisa identifica munições do Exército em apreensões ligadas ao Comando Vermelho

Estudo do Instituto Sou da Paz analisou mais de 31 mil cartuchos de fuzil em 29 casos no país e identificou que 40% das munições apreendidas com a facção eram de fabricação nacional

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Uma pesquisa do Instituto Sou da Paz identificou munições de fuzil adquiridas pelo Exército Brasileiro entre os cartuchos apreendidos em operações contra o Comando Vermelho. O levantamento, revelado pelo Fantástico, examinou registros de mais de 31 mil munições intactas em 29 casos registrados em diferentes estados do país.

Segundo o estudo, quatro em cada dez munições apreendidas com integrantes da facção nos casos analisados eram de fabricação nacional. Os pesquisadores também encontraram cartuchos produzidos pouco tempo antes das apreensões, indicando a necessidade de investigar como o material chegou ao crime organizado.

O levantamento foi realizado a partir do cruzamento de laudos periciais e processos judiciais. A análise identificou padrões recorrentes em diferentes estados e apontou dificuldades para reconstruir o caminho percorrido pelas munições compradas legalmente até chegarem às mãos de criminosos.

Rastreamento não esclarece o destino das munições

Há cerca de 20 anos, as munições nacionais adquiridas pelas forças de segurança passaram a receber códigos de rastreabilidade gravados nos cartuchos. O sistema permite identificar a origem do material encontrado em cenas de crimes, mas não registra necessariamente os repasses posteriores nem todos os responsáveis pela circulação das munições.

O estudo identificou que parte dos cartuchos utilizados por criminosos para atacar policiais durante a megaoperação realizada no Rio de Janeiro, em 2025, pertencia às próprias forças de segurança.

Outro caso analisado envolve uma carga de 1.804 cartuchos interceptada no Distrito Federal, em 2019, que tinha o Rio de Janeiro como destino. O material incluía munições de lotes do Exército, das polícias militares do Distrito Federal e do Rio de Janeiro, do Fundo Estadual de Segurança de Mato Grosso e do Ministério da Justiça.

Segundo os pesquisadores, lotes dessas munições já haviam aparecido em outras apreensões, o que reforça a necessidade de investigar os desvios e identificar os responsáveis pela circulação irregular do material.

O consultor Bruno Langeani, do Instituto Sou da Paz, afirmou que os casos apontam para uma rede de desvios que ainda não foi completamente desarticulada.

“Isso diz pra gente que essa fonte de desvio é uma fonte grande, é uma fonte que envolve bastante gente, mas que não conseguiu ser totalmente desbaratada pela polícia”, explicou.

Apreensão em Fortaleza expôs falhas na investigação

Em janeiro de 2025, uma investigação policial em Fortaleza, no Ceará, identificou um plano do Comando Vermelho para resgatar presos de uma unidade prisional do estado. Durante o monitoramento de integrantes da facção, policiais penais da inteligência foram surpreendidos por homens armados. Um agente morreu e outro ficou ferido. Quatro presos vão a júri popular pelo caso.

Na ocorrência, foram apreendidos 400 cartuchos de fuzil. De acordo com o Instituto Sou da Paz, fotografias feitas durante a apreensão mostravam caixas com embalagens originais de munição brasileira. No entanto, essas informações não foram incluídas no inquérito policial, impedindo uma tentativa de rastreamento a partir dos registros disponíveis.

Langeani explicou que, mesmo quando existe uma investigação sobre a origem das munições, nem sempre é possível identificar todas as etapas da distribuição. Em diversos casos, as instituições conseguem confirmar a compra e o recebimento dos cartuchos, mas não dispõem de informações suficientes sobre o destino do material depois que ele chega aos depósitos.

Instituto cobra transparência sobre compradores

O Instituto Sou da Paz defende que os códigos relacionados aos compradores de munições sejam disponibilizados publicamente, para ampliar a fiscalização sobre o destino dos cartuchos adquiridos com recursos públicos.

“A sociedade tem direito de saber o que está sendo feito com uma munição que foi comprada com recurso público”, afirmou o consultor da organização.

A entidade considera que o rastreamento precisa permitir não apenas a identificação da origem das munições, mas também o acompanhamento de sua distribuição e a apuração de possíveis desvios.

Exército e órgãos de segurança se manifestam

A Polícia Militar do Distrito Federal informou que revisou e aprimorou os protocolos internos de controle, armazenamento e carga de munições para fortalecer os mecanismos de fiscalização.

O Exército Brasileiro afirmou reconhecer a gravidade dos casos de extravio ou furto de munições e declarou que não compactua com desvios de conduta. A instituição também informou que revisa continuamente seus procedimentos de controle e que determina a abertura de procedimentos investigatórios quando há indícios de irregularidades.

Segundo a Força, as apurações buscam esclarecer os fatos, recuperar o material e responsabilizar os envolvidos, em colaboração com os órgãos de segurança pública.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública declarou que o desvio de armas e munições legais para o mercado ilegal é uma das prioridades da política de controle retomada pelo governo federal em 2023. A pasta afirmou que continuará aprimorando, em conjunto com outros órgãos, os mecanismos para identificar a origem do armamento e das munições que chegam ao crime organizado.

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