O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanha com atenção o desenrolar das negociações comerciais com os Estados Unidos e deve usar os próximos dias para avaliar a conveniência de uma nova reunião presencial entre Lula e o presidente estadunidense Donald Trump. Segundo a coluna de Jussara Soares no portal da CNN Brasil, a decisão dependerá, principalmente, do avanço das tratativas técnicas em curso sobre as tarifas anunciadas por Washington contra produtos brasileiros.
A expectativa no Palácio do Planalto é de que os próximos passos da negociação sejam definidos após uma série de conversas entre representantes dos dois países. Entre os encontros previstos está uma videoconferência envolvendo o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, e Jamieson Greer, chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR).
O resultado dessas discussões poderá influenciar diretamente a estratégia diplomática brasileira durante a próxima reunião do G7, marcada para ocorrer entre os dias 15 e 17 de junho, em Evian, na França. Embora não integre o grupo das sete maiores economias do mundo, o Brasil participará do encontro na condição de país convidado.
Possível encontro dependerá do avanço das negociações
Nos bastidores do governo, a avaliação predominante é de que um novo encontro formal entre Lula e Trump somente se justificaria caso as negociações técnicas produzam avanços concretos ou apresentem questões que exijam uma intervenção direta dos chefes de Estado.
Auxiliares presidenciais entendem que, sem uma pauta objetiva e perspectivas reais de solução, uma nova reunião poderia apenas repetir os temas já discutidos durante o encontro ocorrido em 7 de maio, na Casa Branca.
Mesmo assim, integrantes do governo consideram praticamente inevitável algum contato entre os dois líderes durante os bastidores do G7, ainda que não exista uma agenda bilateral formalmente marcada.
Defesa do multilateralismo será prioridade
Além das questões comerciais, Lula pretende utilizar sua participação no G7 para defender o fortalecimento das instituições multilaterais e manifestar preocupação com o cenário internacional.
Durante reunião ministerial realizada na última quarta-feira (3), o presidente antecipou o tom que pretende adotar no encontro internacional.
“Eu nem ia no G7, mas agora eu vou, porque é preciso alguém colocar ordem na casa e dar um fim no desmonte do multilateralismo, no desmonte da democracia e na desvalorização das instituições”, disse Lula em reunião ministerial na quarta-feira (3).
A fala reflete a preocupação do governo brasileiro com mudanças recentes na política externa de diferentes países e com o enfraquecimento de mecanismos de cooperação internacional.
Governo vê cenários diferentes para as tarifas
As negociações em curso envolvem duas sobretaxas anunciadas pelos Estados Unidos após investigações conduzidas com base na Seção 301 da Lei de Comércio do país norte-americano.
No entendimento do governo brasileiro, os dois casos possuem características distintas e exigem estratégias diferentes de negociação.
A tarifa adicional de 25% aplicada exclusivamente ao Brasil é vista pelo Planalto como passível de negociação. Embora reconheça a dificuldade do processo, o governo avalia que o caráter bilateral da medida abre espaço para conversas diretas entre Brasília e Washington.
A situação é considerada mais complexa em relação à sobretaxa de 12,5%, que foi aplicada simultaneamente a 59 países e à União Europeia. Nesse caso, auxiliares presidenciais consideram remota a possibilidade de uma reversão específica para o Brasil, justamente porque a medida faz parte de uma política comercial mais ampla adotada pelos Estados Unidos.
Mesmo diante das dificuldades, integrantes do governo apostam na possibilidade de alcançar uma solução negociada que permita evitar ou ao menos adiar a entrada em vigor da tarifa de 25%.
Pix fica fora das negociações
Neste momento, o governo brasileiro concentra seus esforços exclusivamente nas questões tarifárias e comerciais.
Embora existam discussões sobre possíveis propostas para destravar as negociações, um tema já foi descartado pelo Palácio do Planalto: qualquer alteração envolvendo o Pix.
A posição segue a linha já defendida publicamente por Lula, que considera o sistema de pagamentos instantâneos uma conquista estratégica do país e não pretende incluí-lo como objeto de negociação com os Estados Unidos.
Classificação de PCC e CV não deve mudar
Outro tema que acompanha as conversas entre Brasil e Estados Unidos é a decisão de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
A medida entrou em vigor na última sexta-feira (5) e foi anunciada após a visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, à Casa Branca.
Nos bastidores do governo brasileiro, a avaliação é de que não há qualquer sinal de revisão da decisão por parte das autoridades estadunidenses. Integrantes do Executivo consideram praticamente inexistente a possibilidade de recuo dos Estados Unidos sobre o tema neste momento.
Diante desse cenário, o foco da diplomacia brasileira permanece concentrado na tentativa de reduzir os impactos econômicos das tarifas anunciadas e preservar a competitividade dos produtos brasileiros no mercado estadunidense.






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