A maioria dos brasileiros discorda da declaração feita pelo blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo de que mulheres “votam mal”, especialmente as solteiras. É o que mostra a pesquisa Meio/Ideia, divulgada nesta quarta-feira (8), segundo a qual 60,6% dos entrevistados rejeitam a afirmação do aliado político do senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O episódio ganhou repercussão nacional após Paulo Figueiredo comentar, durante uma transmissão ao vivo no YouTube, o desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro entre as mulheres. A declaração ocorreu em meio à crise aberta no PL depois da divulgação de um vídeo da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, no qual ela acusa o senador de tê-la desrespeitado e critica decisões políticas do partido.
Os dados da pesquisa indicam que a controvérsia ampliou o desgaste da pré-campanha de Flávio Bolsonaro em um segmento considerado estratégico para a disputa presidencial.
Maioria rejeita declaração
Segundo o levantamento, 44% dos brasileiros afirmaram discordar totalmente da declaração de Paulo Figueiredo.
Outros 16,6% disseram discordar parcialmente.
No sentido oposto, apenas 4,3% afirmaram concordar totalmente com a fala, enquanto 7,3% responderam que concordam parcialmente.
Outros 7,7% disseram não concordar nem discordar, e 20,1% declararam não saber ou preferiram não responder.
Os números mostram que a avaliação negativa supera com ampla margem o percentual de entrevistados que concordam com o posicionamento do blogueiro.
Declaração gerou forte repercussão
Durante a transmissão ao vivo, Paulo Figueiredo fez críticas ao comportamento eleitoral das mulheres ao comentar a crise envolvendo Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro.
Na ocasião, afirmou:
“Mulher vota estatisticamente muito mal. Principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras, não. Podem arrancar os pentelhos das calcinhas, fazer o que quiser, principalmente as feministas, que têm mais pentelhos, mas eu quero dizer a vocês: isso é estatística”.
A declaração provocou críticas de diferentes setores políticos e abriu uma nova frente de desgaste para a pré-campanha do senador, que busca ampliar sua aceitação junto ao eleitorado feminino.
Mulheres rejeitam fala de forma quase unânime
O recorte por gênero revela uma rejeição ainda maior entre as mulheres.
Segundo a pesquisa, nenhuma entrevistada declarou concordar, total ou parcialmente, com a afirmação de Paulo Figueiredo.
Entre as mulheres, 49,6% disseram discordar totalmente da declaração e 25,8% afirmaram discordar parcialmente.
Outras 4,2% responderam que não concordam nem discordam, enquanto 20,4% disseram não saber opinar.
Entre os homens, a concordância foi maior, embora ainda minoritária.
Ao todo, 24% afirmaram concordar com a declaração — sendo 9% totalmente e 15% parcialmente.
Já 37,9% disseram discordar totalmente e 6,7% discordaram parcialmente.
Outros 11,5% responderam que não concordam nem discordam e 19,7% afirmaram não saber responder.
Flávio Bolsonaro se distancia da declaração
Diante da repercussão negativa, Flávio Bolsonaro afirmou publicamente que não concorda com as declarações de Paulo Figueiredo e buscou desvincular sua pré-campanha do blogueiro.
“Não concordo com o que ele falou. Ele não faz parte da nossa campanha. Ele trabalha e ajuda dos EUA, e é por isso que colocam no meu colo uma fala que não é minha. Eu não tenho responsabilidade, mas tenho obrigação de dizer que me senti ofendido. Nunca ele poderia dizer que é culpa das mulheres”, afirmou.
Posteriormente, Paulo Figueiredo declarou que considera correta, do ponto de vista político, a reação do senador, mas manteve sua posição sobre o tema.
Segundo interlocutores da campanha, a manifestação pública de Flávio foi recomendada por aliados para tentar reduzir os impactos da controvérsia sobre sua imagem junto ao eleitorado feminino.
Crise amplia tensões no bolsonarismo
A polêmica ocorreu paralelamente ao agravamento das divergências entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro.
Após o vídeo divulgado pela ex-primeira-dama, Michelle deixou as atividades do PL Mulher e não participou de um evento organizado por Flávio Bolsonaro voltado ao público feminino, mesmo após apelos do presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto.
O episódio também gerou manifestações de outras lideranças políticas.
Durante reunião da Comissão de Direitos Humanos do Senado, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) criticou a tentativa de colocar em dúvida a capacidade política das mulheres.
“Chegaram ao absurdo, essa semana, de colocar em dúvida se a mulher tem capacidade de votar. Se a gente sabe escolher ou se merece ser escolhida”, disse.
A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), também não compareceu ao encontro promovido por Flávio Bolsonaro.
Pela base governista, a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, também condenou a declaração, sem citar nominalmente Paulo Figueiredo.
“Faço uma pausa para lamentar que alguém vá à imprensa dizer que nós mulheres não sabemos votar. Aqui eu deixo o meu repúdio a essa pessoa, porque nós somos maioria da população e sabemos muito bem conduzir uma nação ao seu pleno desenvolvimento, andando lado a lado com os companheiros homens, para que esse Brasil finalmente chegue ao seu lugar”, disse.
Metodologia da pesquisa
A pesquisa foi realizada pelo instituto Ideia, sob encomenda do canal Meio.
O levantamento ouviu 1.500 eleitores em todo o país entre os dias 3 e 6 de julho.
A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
O estudo está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-05628/2026.







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