Niterói desfila forte, Imperatriz impecável, Portela faz bonito e Mangueira encanta: o 1º dia do Grupo Especial

Verde e Branco de Ramos e Estação Primeira podem se credenciar ao título por apresentações na noite deste domingo e madrugada de segunda

Guibsom Romão

A primeira noite de desfiles do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí foi marcada por enredos biográficos, narrativas de resistência e forte impacto visual. Da abertura ao encerramento, as escolas apostaram em propostas autorais, misturando política, ancestralidade, cultura popular e grandes personagens brasileiros, em apresentações que levantaram o público e já desenham o cenário da disputa pelo título.

Confira como foram os desfiles:

Niterói 

A Acadêmicos de Niterói abriu a primeira noite do Grupo Especial na Sapucaí com um desfile forte, político e repleto de referências históricas e simbólicas. Com o enredo Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o operário do Brasil, a escola transformou a avenida em uma narrativa cronológica que percorreu desde o nascimento e trajetória laboral de Luiz Inácio Lula da Silva até seus desafios políticos e conquistas como presidente. A presença da cantora Fafá de Belém abrindo a apresentação, o grito coletivo “Sem Anistia” e a visível emoção do público reforçaram a proposta crítica e simbólica da escola.

Visualmente impactante, a Niterói apostou em alegorias e setores que representaram aspectos sociais e políticos da vida do homenageado, desde a migração de sua família até seus embates no campo das políticas públicas. A comissão de frente intitulada “O amor venceu o medo” dramatizou a trajetória de Lula, com cenas que abarcaram rupturas institucionais e momentos de resistência e reafirmação popular.

Carro da Acadêmicos de Niterói | Crédito: Reprodução / Redes sociais

Mesmo diante de polêmicas judiciais que tentaram barrar o desfile por suposta propaganda eleitoral antecipada, a escola conseguiu dialogar com a história recente do Brasil de forma vibrante e potente na Marquês de Sapucaí.

Imperatriz 

A Imperatriz Leopoldinense foi a segunda escola a desfilar na noite e entregou um espetáculo que se destacou pela forte estética visual e pela performance envolvente do tema biográfico. Com o enredo “Camaleônico”, a escola transformou a trajetória artística de Ney Matogrosso em espetáculo na avenida, explorando sua versatilidade, reinvenção estética e impacto cultural ao longo de mais de cinco décadas de carreira.

Carnavalesco Leandro Vieira com Ney Matogrosso | Crédito: Reprodução / Redes sociais

A estrutura do desfile foi dividida em setores que enfatizaram fases marcantes da trajetória do artista, desde sua presença no grupo Secos & Molhados, até sua carreira solo de grande expressão.

A Imperatriz apostou em uma paleta colorida, em truques de ilusionismo e em momentos performáticos para traduzir a natureza camaleônica do personagem homenageado, fazendo uso de adereços e coreografias que evocaram tanto a androginia quanto a liberdade artística de Ney.

A composição visual e o samba chiclete levantaram a avenida, e a escola se colocou como forte candidata ao título com uma apresentação técnica, plástica e emocionalmente conectada com sua proposta temática.

Portela 

A Portela, tradicional e maior campeã do Carnaval carioca, apresentou um desfile que fez uma verdadeira “viagem ancestral” entre continentes e tradições, com o enredo O Mistério do Príncipe do Bará, a Oração do Negrinho e a Ressurreição de sua Coroa sob o Céu Aberto do Rio Grande. A escola transitou entre narrativas transatlânticas que conectam a origem africana do Príncipe Custódio Joaquim de Almeida no Benin à sua atuação como líder espiritual no sul do Brasil, destacando a presença e resistência da cultura negra no Rio Grande do Sul.

O desfile da Portela foi dividido em partes interligadas que equacionaram história, religiosidade e memória cultural, ressaltando tradições como o batuque afro-gaúcho e símbolos míticos que ressignificaram figuras como o Negrinho do Pastoreio como herdeiro ancestral.

A escola contou com fantasias e alegorias impactantes, participações simbólicas de figuras conhecidas e momentos que emocionaram as arquibancadas, mesmo com alguns entraves na evolução do desfile, visto que a escola ficou muito tempo parada na avenida por conta do último carro que demorou para entrar na Avenida, o que certamente irá impactar na pontuação da escola na Quarta-Feira de Cinzas.

Comissão de frente da Portela encantou na Avenida | Crédito: Reprodução / Redes sociais

No conjunto, a Portela reafirmou sua grandeza ao traduzir fé, resistência e legado em espetáculo vibrante na avenida.

Mangueira

Fechando a primeira noite do Grupo Especial, a Estação Primeira de Mangueira encantou a Sapucaí com um desfile de forte identidade afro-indígena e potência estética. Com o enredo Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra, desenvolvido por Sidney França, a Verde e Rosa homenageou Raimundo dos Santos Souza, o Mestre Sacaca — liderança cultural do Amapá que articulou saberes afro-indígenas, medicina ancestral e atuação comunitária.

A escola construiu uma narrativa que atravessou cosmologia, espiritualidade e resistência, exaltando a Amazônia Negra como território de memória, luta e reinvenção cultural. Coesa e segura, a Mangueira encerrou a noite com os pés firmes na disputa pelo campeonato.

Mangueira homenageou Mestre Sacaca e levantou a Sapucaí | Crédito: Reprodução / Redes sociais

Visualmente impactante, o desfile apostou em experiências sensoriais e forte teatralidade. O abre-alas, intitulado “No Ritual do Turé, a Presença do Invisível”, trouxe cascatas de água do Amapá, sons da mata e até aromas amazônicos pela avenida. A comissão de frente, “Te Invoco do Meio do Mundo”, encenou um ritual afro-indígena com uso marcante de luz cênica e um tripé em forma de árvore encantada, destacando a figura do Xamã Babalaô como representação de Mestre Sacaca.

O casal Matheus Olivério e Cyntia Santos evoluiu com firmeza, enquanto fantasias precisas e um canto comunitário forte completaram um conjunto envolvente, reafirmando a tradição mangueirense de unir discurso, identidade e espetáculo na Marquês de Sapucaí.

Em suma, foi uma noite que evidenciou Imperatriz e Mangueira como fortes escolas na disputa do campeonato.

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