* Guibsom Romão
A segunda escola da noite a desfilar na Sapucaí neste domingo foi a Imperatriz Leopoldinense, com quesitos muito seguros, um samba que foi muito subestimado no pré-carnaval, mas levantou a avenida. Ney Matogrosso foi saudado com maestria e a escola entra forte na disputa pelo título de 2026.
O desfile estruturou-se em cinco setores que exaltaram a trajetória artística de Ney Matogrosso sob uma perspectiva estética e simbólica. O primeiro apresentou o artista como figura híbrida, “meio homem, meio bicho”, explorando o imaginário animalesco e a metáfora do camaleão como representação de sua reinvenção constante; o segundo destacou a explosão performática dos anos 1970, quando, à frente do Secos & Molhados, consolidou uma estética marcada por androginia, teatralidade e enfrentamento político, sobretudo após o icônico álbum de 1973; o terceiro mergulhou na fase solo, revisitando discos como Água do Céu-Pássaro, Bandido, Pecado e Feitiço, ressaltando a construção de personagens transgressores em meio à repressão moral; o quarto celebrou seu repertório em formato de pot-pourri carnavalesco, evocando sucessos como Rosa de Hiroshima, Sangue Latino e Homem com H; e o quinto encerrou a narrativa em tom festivo e hedonista, transformando clássicos ligados ao prazer e à liberdade em uma ode carnavalesca à força performática e libertária que marcou mais de cinco décadas de carreira do homenageado.
A escola abusou de cores fortes e fluorescentes. Desde a comissão de frente coreografada por Patrick Carvalho, chamada “Camaleônico – O Musical”, a apresentação assumiu o traço performático que caracteriza a figura de Ney Matogrosso no imaginário musical brasileiro como recurso poético, enquanto festejou a obra e a carreira da icônica personalidade abordada como enredo. O tripé era uma estrutura que mostrou “do Ney do palco” ao “do Ney da coxia” como o material criativo daquilo que é exibido de forma artística, o Ney era o espetáculo como um todo. Contou com truques de ilusionismo, com Ney se transformando, desaparecendo e aparecendo em outro lugar, a comissão de frente que demonstrou um nível de sofisticação extremamente elevado. Sendo assim, é uma forte candidata a uma das melhores comissões do carnaval.
O abre-alas homônimo ao enredo, em tons predominantemente azuis, com araras, peixes e uma onça esturrando, também trouxe a figura alegórica, em escultura, de Ney Matogrosso como um corpo seminu junto a uma natureza selvagem de caráter fantasioso. O tripé “Arte Que Sabe O Que Quer” fez uma referência clara à capa do LP que marca a estreia oficial de Ney Matogrosso no cenário musical nacional, como vocalista da histórica banda Secos e Molhados. O destaque alegórico ficou por conta do quarto carro, “O Vira”, simbolizando a música homônima, pois com um lobisomem imenso que se movimentava no centro do carro, a alegoria deixou a avenida impressionada.
O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Phelipe Lemos e Rafaela Theodoro, vestiram a fantasia ‘O Homem-Bicho E O Pássaro-Mulher’, apresentados pela ilustre coreógrafa Ana Botafogo, bailaram lindamente, como sempre, com a indumentária em tons degradê que ia do azul, roxo ao verde-água. O casal multi-premiado fez uma apresentação de gala nas três cabines de jurados, podendo já contar com ótimas notas na quarta-feira de cinzas.
A rainha de bateria, Iza, de volta à frente da Swing da Leopoldina, após três carnavais distantes, estava toda de vermelho e vestida de ‘Serpente’. A cantora reinou lindamente, fazendo referência ao LP ‘Pecado’, de 1977, cuja tipografia da capa é uma cobra escrevendo o título do álbum.
A ala ‘Bota Pra Ferver (Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua)’ se destacou à frente do último carro, encerrando o desfile e fazendo um verdadeiro carnaval na avenida. Eram 5 fantasias diferentes, que representavam um bloco carnavalesco em homenagem ao Ney, com referências indígenas, latinidade exagerada, corpo de fora e danças sensuais.
Na última alegoria, ‘O Arauto Do Jardim Das Delícias Terrenas’, trouxe o homenageado no centro do carro, vestido de verde e dourado, com um macacão típico do figurino do artista. O carro atravessou a avenida representando um lúdico jardim adornado por figuras humanas em estado de entrega sexual e nudez, o carro estava repleto de esculturas douradas e nuas. No mesmo carro vieram figuras como os atores Luiz Fernando Guimarães e Jesuíta Barbosa, que interpretou Ney em sua cinebiografia ‘Homem com H’, do diretor Esmir Filho, também presente no carro.
Se a Imperatriz Leopoldinense já carregava favoritismo antes mesmo de pisar na avenida, saiu da Sapucaí ainda maior. Com um desfile plástico, ousado e tecnicamente irretocável, a escola transformou a obra de Ney Matogrosso em espetáculo grandioso, reafirmando sua vocação para enredos biográficos tratados com sofisticação e impacto visual. Entre cores vibrantes, performances arrebatadoras e um samba que cresceu no calor da pista, a Rainha de Ramos fez jus ao apelido: reinou na noite e cravou seu nome, com força, na briga pelo campeonato de 2026.






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