Negociadores chegam a consenso delicado sobre declaração do Brics; presidentes definirão texto final no Rio

Irã pressionava por linguagem dura contra EUA e Israel, mas Índia, EAU e Arábia Saudita frearam menções

Os representantes dos países do Brics, conhecidos como sherpas, chegaram neste sábado (5) a um “consenso possível” sobre a declaração final da cúpula do bloco, que começa neste domingo no Rio de Janeiro. Três temas sensíveis vinham travando as negociações: a reforma do Conselho de Segurança da ONU, a situação humanitária na Faixa de Gaza e os recentes ataques dos EUA e de Israel ao Irã.

Após intensas conversas que se estenderam pela madrugada, o texto foi finalizado e será submetido agora aos presidentes dos 11 países-membros, que devem bater o martelo entre domingo e segunda-feira, durante a primeira cúpula presencial do Brics ampliado sediada no Brasil.

Embora o conteúdo exato da declaração ainda não tenha sido divulgado, autoridades envolvidas nas tratativas confirmaram que o maior impasse envolvia a forma como o bloco se posicionaria sobre os ataques sofridos pelo Irã em junho. A delegação iraniana exigia termos mais duros e a citação explícita dos Estados Unidos e de Israel, mas enfrentava forte resistência de Índia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, que defenderam um tom mais neutro.

Entre Gaza e Teerã: os impasses diplomáticos

Outro ponto sensível envolveu o posicionamento do grupo em relação à Palestina. Em abril, durante a reunião dos chanceleres no Rio, o Brics havia expressado apoio à adesão plena do Estado da Palestina à ONU e reiterado o compromisso com a “solução de dois Estados”. Na ocasião, o Irã aceitou essa linguagem, apesar de não reconhecer Israel.

Mas os ataques ao território iraniano nas semanas seguintes endureceram a postura da delegação de Teerã, que passou a defender mudanças no tom e no conteúdo da declaração. Segundo uma fonte próxima das discussões, “o Irã hoje precisa mais do Brics do que o Brics do Irã” — frase que norteou parte da estratégia dos demais membros para conter avanços mais radicais no texto.

Uma nota anterior do Brics, divulgada após os bombardeios de junho, já havia sido considerada branda por Teerã. Nela, o grupo expressou apenas “profunda preocupação” com os ataques à República Islâmica do Irã e mencionou violações ao direito internacional e à Carta da ONU, sem citar nominalmente os agressores. Agora, interlocutores avaliam que é “possível” que EUA e Israel sejam mencionados na nova declaração, embora o grupo continue buscando uma redação juridicamente cuidadosa.

Disputa por assentos no Conselho de Segurança

A reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas é outro tema delicado. Brasil e Índia defendem há décadas a ampliação do órgão com novos membros permanentes. A África do Sul, no entanto, está vinculada ao Consenso de Ezulwini — posição oficial da União Africana — que exige ao menos dois assentos permanentes para o continente africano, com poder de veto, além de cinco assentos não permanentes escolhidos pelos países africanos.

Esse embate de interesses regionais complica a construção de uma posição única no grupo. A versão final buscou respeitar todas essas divergências sem comprometer a coesão do bloco.

Diplomacia posta à prova

Com um cenário geopolítico cada vez mais polarizado, os negociadores tentaram evitar que temas fundamentais para o Brics — como a multipolaridade e a revisão da ordem internacional — ficassem de fora da declaração. A missão era encontrar um equilíbrio entre o pragmatismo e os interesses estratégicos dos 11 países: Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Egito, Irã, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Arábia Saudita.

A expectativa agora recai sobre a posição que os presidentes adotarão durante a cúpula. Até lá, o documento permanece em sigilo, mas fontes diplomáticas garantem que, apesar das tensões, prevaleceu a disposição por um consenso mínimo.

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading