Em uma manhã de sol escaldante no Rio de Janeiro, o cidadão médio decide, por livre, doce e espontânea pressão familiar, enfrentar três horas de engarrafamento na Ponte Rio-Niterói apenas para disputar um centímetro quadrado de areia em praias cujos nomes já viraram hashtags genéricas. Enquanto a maioria se amontoa entre isopores e caixas de som no volume máximo, uma seleta minoria foge para refúgios onde a civilização parece um erro remoto do sistema.
É fascinante observar como o conceito de “descanso” foi ressignificado como a arte de suar em bicas numa fila de quiosque por um pastel de vento de vinte reais. A questão é: o paraíso existe, mas ele exige o esforço hercúleo de caminhar por cinco minutos ou, pior ainda, de renunciar ao sinal de 5G por algumas horas. Para quem ainda acredita que lazer não é sinônimo de aglomeração, o Rio de Janeiro esconde portais para um multiverso onde a natureza ainda não foi totalmente gourmetizada.
Prepare o repelente e o espírito de explorador, pois estamos prestes a desbravar o que o Google Maps tenta esconder para proteger os moradores locais de sua inconveniência. Se você busca o cenário perfeito para fingir que é um nômade digital ou apenas quer um lugar onde o único som seja o das ondas e não o do sertanejo-universitário de algum desconhecido, acompanhe este roteiro. Afinal, nada diz mais “exclusividade” do que um lugar que dá um pouco de trabalho para ser encontrado.
A praia com nome de vilão
Se volta e meia os governos resolvem homenagear alguém trocando o nome de uma rua ou praça, a denominação desse lugar está fazendo hora extra. O nome da praia veio de um traficante de escravos, José Gonçalves, que utilizava a área para o tráfico de negros. Sim, esta faixa de areia de apenas cem metros de extensão perdida na APA do Pau-Brasil carrega o sobrenome de um dos personagens mais sombrios do litoral fluminense sem que ninguém tenha, até hoje, proposto uma solução mais adequada. No século XVIII e até o fim do XIX, os escravizados africanos desembarcavam aqui, e ainda há uma trilha, chamada trilha dos escravos, que leva através da floresta tropical para a praia.
A trilha que conecta a Serra das Emerências à praia é, ela própria, um espetáculo. O trajeto atravessa a belíssima Área de Proteção Ambiental Pau Brasil, revelando a diversidade da fauna e flora locais, enquanto conduz até as águas cristalinas e tranquilas da Praia de José Gonçalves, cercada de bromélias, cactos impressionantes e espécies raras da Mata Atlântica.
Para quem prefere chegar de carro, a notícia é razoavelmente boa: o acesso é feito através da estrada Búzios/Cabo Frio, sinalizado, e os veículos automotores chegam muito perto da praia, utilizando, na parte final da estrada, uma via de terra. Infraestrutura? É um conceito abstrato. A praia é virgem por deliberada falta dela. Não há barracas, quiosques, banheiros nem salva-vidas. Há areia escura e fina, seixos de pedra vulcânica negra que não podem ser retirados (sim, isso é lei, ouviram?), altas ondas para surfistas e, nos dias de semana fora da temporada, há situações em que você pode realmente não ver outra pessoa. Na constelação de praias do Rio de Janeiro, isso é ouro.
Como chegar: De carro, saindo da Guanabara, siga rumo à Ponte Rio-Niterói. Na descida da ponte, pegue o acesso à esquerda para a BR-101, sentido Rio Bonito. Após cerca de 72 km, pegue o acesso à direita para a Via Lagos (RJ-124). Terminando a Via Lagos, continue até o trevo de São Pedro da Aldeia e siga pela RJ-106 na direção de Macaé/Búzios. Búzios fica a aproximadamente 170 km do Rio. Uma vez na cidade, siga pela estrada Búzios/Cabo Frio até a sinalização para José Gonçalves. De ônibus: A viação 1001 opera saídas diárias da Rodoviária Novo Rio para Búzios, com passagens a partir de cerca de R$ 82 (convencional).

O segredo dentro do segredo
Há um bando de jornalistas mal-intencionados na Guanabara dizendo que Cabo Frio é uma cidade que faz questão de ser famosa pelas coisas erradas: engarrafamentos na Av. Julia Kubitschek no verão, fila do pastel na orla, o preço do guarda-sol. Enquanto isso, a menos de 12 km do centro, a Praia do Peró respira numa quietude olímpica, ostentando a Bandeira Azul de qualidade ambiental pelo quinto ano consecutivo.
Mas dentro do Peró, há ainda um lugar menor, mais recôndito e mais bonito: o Pesqueirinho. Uma prainha utilizada pelos pescadores artesanais para guardar suas embarcações e apetrechos de pesca, e ótima parada para banho de mar. Ninguém vai até o Pesqueirinho por acidente. É preciso querer.
O acesso ao Pesqueirinho é feito obrigatoriamente por trilha. O circuito completo das Praias do Peró tem distância total de 6 km, dificuldade moderada, tempo de atividade de 4 a 5 horas, elevação máxima de 29 metros e desnível positivo de 88 metros. O percurso passa pelo Morro do Vigia, pelos Mirantes das Conchas e do Peró, pelo Buraco do Sargo e culmina no Pesqueirinho , com direito a mergulho nas piscinas naturais formadas pelas rochas.
A trilha, interpretativa e sinalizada, tem quatro QR Codes que trazem informações históricas, culturais e ambientais da região. Toda essa área está inserida na APA Pau-Brasil: veículos motorizados são terminantemente proibidos, o que, na prática, funciona como o mais eficiente filtro de multidões que se poderia imaginar. A Cabana dos Pescadores, patrimônio histórico de Cabo Frio, já foi cenário de novela das 21h na Rede Globo, em 2012 que está sendo reprisada agora. Uma prova de que o lugar tem fotogenia de sobra, mas se recusa, felizmente, a se comportar como uma atração turística convencional.
Como chegar: De carro, Cabo Frio fica a aproximadamente 175 km da Guanabara. Da Ponte Rio-Niterói, siga pela BR-101 à esquerda, depois pela Via Lagos (RJ-124) e, no trevo de São Pedro da Aldeia, entre na RJ-106 em direção a Búzios. Cabo Frio fica a 14 km antes. O acesso à trilha do Pesqueirinho parte da Av. dos Pescadores, s/nº, bairro do Peró, Cabo Frio. De ônibus: há passagens Rio–Cabo Frio, com saídas frequentes da Rodoviária Novo Rio e diferentes tarifas.

O Mar Morto do Rio de Janeiro que ninguém conhece
Existem dois tipos de pessoas que conhecem a Lagoa Vermelha, em Saquarema: os cientistas e os que chegaram por acidente. Para os primeiros, trata-se de um patrimônio geológico e científico de relevância internacional. A Lagoa Vermelha vem se formando há cerca de sete mil anos, conforme ocorrem as variações do nível relativo do mar, e possui importância científica internacional devido à presença de estromatólitos — colônias de micro-organismos consideradas a forma de vida conhecida mais antiga no planeta.
Para os que brotaram por acaso, ela é simplesmente aquela lagoa cor-de-rosa que gera situações hilárias de turistas tentando afundar sem sucesso _ e onde a lama do fundo tem propriedades medicinais que qualquer vovó aprovaria. Não há contradição: ambos estão certos. A Lagoa Vermelha tem as águas mais salgadas do estado do Rio de Janeiro. Devido à água hipersalina, é comparada ao Mar Morto, onde quem mergulha não afunda. A presença de hidrogênio sulfuroso é excelente para banhos medicinais.

Mas é Mar Morto de verdade? Não exatamente. A Laguna de Araruama é considerada a segunda mais salgada do mundo, onde o Mar Morto é o primeiro. A condição dos corpos boiarem com muita facilidade se estende por todos os seus 45 quilômetros de extensão. A Lagoa Vermelha, conectada à Lagoa de Araruama por um canal entre as salinas, compartilha dessa hipersalinidade em escala local: sua salinidade fica em torno de 100%.
A cor avermelhada (ou rosada, dependendo da hora e da intensidade do sol) vem de microalgas e bactérias que adoram sal. A trilha até lá é de aproximadamente 30 a 40 minutos pela vegetação preservada de restinga do Parque Estadual da Costa do Sol, e a visitação deve ser feita preferencialmente com guias ambientais habilitados.
Como chegar: De carro, Saquarema fica a cerca de 100 km da Guanabara pela RJ-106 (via Niterói e São Gonçalo) ou pela Linha Amarela/Presidente Dutra. A Lagoa Vermelha está localizada na divisa entre Saquarema (Vilatur) e Araruama (Praia Seca). Use GPS e pesquise “Lagoa Vermelha Saquarema”. De ônibus: A viação 1001 opera o trecho Rio–Saquarema com passagens a partir de cerca de R$ 47.

O banho gelado de Santo Aleixo
Esqueça as praias por um momento e suba a serra em direção a Guapimirim para encontrar a Cachoeira do Tamanqueiro. Santo Aleixo é um desses distritos do interior do Rio de Janeiro que carregam três séculos de história numa única ruazinha principal. Magé, o município ao qual pertence, está situado a 60 km da capital estadual, num vale formado pela base do Pico Dedo de Deus, da Serra dos Órgãos, com 70% do seu território em área de proteção ambiental. Quem nunca ouviu falar em Magé _ o que é provavelmente a maioria dos leitores desta reportagem _, precisa saber que está perdendo um dos acervos de cachoeiras mais acessíveis do estado.

Santo Aleixo é um distrito famoso no estado do Rio de Janeiro por conta de seus tradicionais eventos, como a Festa de Santo Aleixo, realizada em julho, e pelos eventos no Haras dos Anjos, sobretudo raves de grande porte. Mas é às cachoeiras que os trilheiros vão. A do Tamanqueiro, em particular, é descrita pelos moradores locais como a mais bonita da área. E a trilha de acesso é uma das mais fáceis do distrito, localizada na esquina da Rua Manoel dos Santos com a rua do Cemitério de Santo Aleixo.
O Tamanqueiro faz parte do Circuito de Cachoeiras de Santo Aleixo, conjunto que reúne também a Cachoeira de Monjolos _ composta por três quedas d’água de até 45 metros de altura, que atraem multidões em épocas quentes _ e a Cachoeira da Pegada do Gigante, entre outras. . A infraestrutura é básica: não há estrutura. E a visitação, pode ser desordenada nos fins de semana de verão. Vale ir durante a semana, levar água, calçado fechado e paciência para as placas que, segundo alguns visitantes, às vezes tentam desviar quem não conhece o caminho. A boa notícia: os moradores adoram indicar o trajeto. Chegando ao Tamanqueiro você pode saltar o alto em poços profundos, ou simplesmente se permitir boiar em piscinas de águas cristalinas.
Como chegar: De carro, Santo Aleixo fica a cerca de 60 km da Guanabara. Configure o GPS para “Cachoeira do Tamanqueiro, Santo Aleixo, Magé”. A estrada tem trechos de terra e pode ser íngreme em alguns pontos. De ônibus trajeto exige conexão: ônibus da Central do Brasil até o Terminal Rodoviário de Magé (várias empresas fazem esse trecho), depois a linha Andorinhas, saindo do terminal de Magé.

O circuito de Santo Aleixo reúne as cachoeiras do Monjolo, da Pegada do Gigante e do Tamanqueiro (foto) numa trilha contínua (Crédito: Reprodução)
Um pedaço da África escondido embaixo do farol
Popularmente conhecida como Poção Azul ou Gruta do Farol de Ponta Negra, a Gruta de Ponta Negra, em Maricá, ainda é pouco conhecida pelo grande público, mas vem ganhando destaque entre turistas e moradores que buscam além da conexão com a natureza, paisagens de tirar o fôlego. O acesso se faz por uma trilha curta a partir do Farol de Ponta Negra, com alguns trechos íngremes e escorregadios, principalmente após períodos de chuva. Há cabos instalados para auxiliar na descida. No final, a recompensa é uma piscina natural de água cristalina e azulada, batizada de “Pequeno Caribe de Maricá” pelos frequentadores mais entusiasmados.
Mas o que realmente distingue a Gruta de Ponta Negra de qualquer outra piscina natural do litoral do Rio de Janeiro é sua geologia. É uma formação de rochas plutônicas de dois bilhões de anos, as chamadas ortognaisses, que vão até Macaé e são oriundas da colisão dos continentes africano e sul-americano. É, literalmente, um pedaço da África no Rio de Janeiro. Oitra história curiosa é que muitos acreditam que a gruta serve como esconderijo para tesouros de piratas ou portais místicos, embora o único tesouro real seja a foto que você vai tirar sem ninguém ao fundo. É um lugar de beleza bruta e perigosa para os desavisados.
Em 2024, uma missão de avaliação da Unesco visitou o local para analisar o credenciamento de Maricá como porta de entrada do Geoparque Costões e Lagunas. Um dos minerais presentes na formação rochosa é a magnetita, utilizada na fabricação de bússolas, e parte de uma parede superior da gruta consegue reter um objeto metálico preso no alto, como demonstraram os avaliadores durante a visita. Uma gruta que, além de bonita, serve como bússola. Difícil competir com isso. A infraestrutura é mínima: sem guarda-sol, sem bar, sem salva-vidas. Leve sua água, seus sapatos fechados e verifique sempre a maré antes de entrar na água.
Como chegar: De carro, Maricá fica a cerca de 50 km da Guanabara pela RJ-106, via Niterói. Configure o GPS para “Farol de Ponta Negra, Maricá”. De ônibus, o “Vermelhinho” de Maricá oferece transporte gratuito para moradores e visitantes dentro do município. O ônibus da linha 578D (Candelária × Ponta Negra) é uma das opções diretas saindo do centro do Rio.



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