Brics encerra reunião no Rio sem consenso após impasse sobre reforma do Conselho de Segurança da ONU

Resistência de Egito e Etiópia frustra plano do governo Lula de incluir apoio à candidatura brasileira em declaração conjunta

Uma disputa entre países africanos sobre a reforma do Conselho de Segurança da ONU impediu a aprovação de uma declaração conjunta na reunião dos chanceleres do Brics, realizada no Rio de Janeiro. As informações são da Folha de S.Paulo. Apesar de quase uma semana de negociações, o governo Lula (PT) não conseguiu angariar o apoio de todas as 11 nações do bloco para um texto consensual.

O impasse teve como centro a proposta brasileira de incluir no documento final uma menção explícita à aspiração do país de conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança. A sugestão buscava reeditar o posicionamento acordado em 2023, quando o Brics foi ampliado para incluir Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Arábia Saudita, além dos membros originais — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Entretanto, Egito e Etiópia se opuseram. Ambos manifestaram desconforto com a ideia de que os pleitos de antigos membros, como África do Sul, Índia e Brasil, fossem destacados, em detrimento das novas adesões. No centro da resistência esteve a preocupação de que o reconhecimento explícito das pretensões sul-africanas pudesse ferir o “Consenso de Ezulwini”, acordo firmado no âmbito da União Africana que prevê uma posição comum sobre a reforma da ONU.

Diante da falta de entendimento, o governo brasileiro optou por divulgar nesta terça-feira (29) uma declaração unilateral da Presidência do Brics, posição ocupada pelo Brasil este ano. Diferentemente de um documento endossado por todos os membros, o texto da Presidência tem peso diplomático reduzido e explicitou a oposição de egípcios e etíopes no tema relacionado à reforma do Conselho de Segurança.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, buscou minimizar o revés. “Não houve nenhum desacordo entre os países com relação às questões do Conselho de Segurança. O que acontece é que cada país, cada grupo de país, tem compromissos e posições assumidos”, afirmou Vieira nesta terça-feira, ao final da reunião. Segundo ele, o objetivo agora é preparar o terreno para construir uma linguagem consensual antes da cúpula de líderes do Brics, marcada para julho.

Lula enviou carta ao presidente do Egito para tentar superar impasse

Na tentativa de destravar a negociação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a enviar uma carta pessoal ao presidente do Egito, Abdel Fattah el-Sisi, mas a iniciativa não surtiu efeito.

O Brics foi criado em 2009, inicialmente com Brasil, Rússia, Índia e China. Em 2010, a África do Sul foi incorporada ao grupo. A expansão promovida em 2023 — fortemente apoiada por China e Rússia — incluiu cinco novos membros, embora alguns, como a Arábia Saudita, participem de maneira mais discreta.

O Itamaraty chegou a manifestar reservas quanto à ampliação, temendo que a entrada de novos países diluísse a influência brasileira no bloco. Como compensação, o governo Lula negociou a inclusão, no documento da cúpula de 2023, da mais contundente sinalização de apoio da China a uma reforma do Conselho de Segurança da ONU. Na ocasião, os países endossaram “uma reforma abrangente da ONU, inclusive do seu Conselho de Segurança, com a visão de fazê-la mais democrática, representativa, efetiva e eficiente”.

Com o impasse desta semana, o Brasil busca evitar que o episódio se repita na próxima reunião de cúpula, reforçando sua articulação diplomática em busca de um consenso mais amplo.

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