MPE acusa candidata do PP de ser ligada a líder do Comando Vermelho em Alagoas

Ministério Público Eleitoral pediu ao TRE-RJ que negue o registro de Mariana de Souza e afirma que candidatura seria instrumento de infiltração do crime organizado na política

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O Ministério Público Eleitoral (MPE)entrou com pedido de impugnação da candidatura de Mariana de Souza a deputada federal pela Federação União Progressista (União Brasil/PP). O órgão afirma que ela seria casada com Wilson Marques de Albuquerque, conhecido como “Zé Dirceu”, apontado pela Polícia de Alagoas como “o segundo” na hierarquia do Comando Vermelho naquele estado, condenado por tráfico de drogas e associação para o tráfico e atualmente foragido da Justiça. Segundo o MPE, a candidatura representaria uma tentativa de infiltração do crime organizado no Poder Legislativo. As acusações ainda serão analisadas pelo TRE-RJ e a candidata terá direito de apresentar defesa.

O pedido é assinado pelo procurador regional eleitoral Flávio Paixão de Moura Júnior. Ele alega que o Ministério Público quer impedir suposta influência do crime organizado nas eleições

A ação sustenta que o caso vai além de uma discussão sobre condenações criminais ou inelegibilidade. Segundo o Ministério Público, o objetivo é impedir que organizações criminosas utilizem candidaturas para ampliar sua influência dentro das instituições públicas.

Na petição, o procurador eleitoral afirma que “as fartas evidências e elementos amealhados apontam para um grave risco de infiltração institucional, indicando que o mandato eletivo serviria como um braço da referida facção no Poder Legislativo para beneficiar atividades ilícitas”.

Ainda segundo o MPE, o entendimento adotado pela Justiça Eleitoral busca impedir que estruturas do crime organizado interfiram na formação da vontade popular e comprometam a liberdade do voto.

Casamento é principal fundamento

O principal argumento da ação envolve a relação da candidata com Wilson Marques de Albuquerque, conhecido como “Zé Dirceu”.

De acordo com o Ministério Público, ele é apontado pela Secretaria de Segurança Pública de Alagoas como uma das principais lideranças do Comando Vermelho naquele estado, possui condenações que ultrapassam 32 anos de prisão por tráfico de drogas e associação para o tráfico e permanece foragido, com mandados de prisão em aberto.

A promotoria também afirma que Mariana de Souza atuaria para ocultar a identidade do companheiro em publicações nas redes sociais, dificultando sua localização pelas autoridades.

Apesar disso, o próprio Ministério Público ressalta que não pretende responsabilizar a candidata apenas pelo vínculo conjugal, sustentando que o pedido de impugnação resulta do conjunto de elementos reunidos na investigação.

Outro ponto destacado na ação é um relatório de inteligência que atribui a uma liderança criminosa conhecida como “Nem Catenga” a declaração de que a organização precisava de “um representante” e “uma voz ativa” na política.

Segundo o Ministério Público, esse material reforçaria a tese de que haveria uma estratégia para ampliar a influência institucional da facção por meio da disputa eleitoral.

Empresas são apontadas como lavagem de dinheiro

A ação também reúne informações sobre a atividade empresarial da candidata.

Segundo o Ministério Público, Mariana é proprietária da empresa Império do Norte Ltda., localizada ao lado da empresa JF Organizações e Eventos, aberta por seu companheiro utilizando, segundo a acusação, identidade falsa.

O órgão sustenta que ambas apresentam características de empresas de fachada e afirma existir incompatibilidade entre o capital social declarado e a realidade econômica da região onde funcionam.

Além disso, o Ministério Público afirma que Mariana movimenta seis contas bancárias diferentes, situação que classifica como uma forma de fracionamento financeiro para ocultar a origem de recursos.

Na ação consta a seguinte afirmação:

“A impugnada opera seis contas bancárias distintas, configurando uma tipologia clássica de fracionamento de valores (smurfing) para dissimular a origem ilícita dos recursos, provenientes do narcotráfico.”

Essas conclusões fazem parte das alegações do Ministério Público e ainda serão submetidas à análise da Justiça Eleitoral.

ONG em comunidades dominadas pelo tráfico

Outro eixo da ação envolve a atuação social da candidata.

Segundo o Ministério Público, Mariana preside o Centro Comunitário Superando Juntos, entidade localizada no Complexo da Penha.

A promotoria afirma que o funcionamento da ONG em comunidades como Vila Cruzeiro e Parque Proletário dependeria da autorização das lideranças da facção que controla esses territórios.

Na petição, o órgão afirma:

“A atuação da ONG em redutos controlados pela facção, como a Vila Cruzeiro e o Parque Proletário, ocorre necessariamente com a prévia ciência e autorização das lideranças do tráfico local.”

Concentração de votos em áreas sob domínio da facção

A ação também analisa o resultado eleitoral obtido pela candidata nas eleições municipais anteriores.

Segundo o Ministério Público, 81,3% dos votos recebidos por Mariana vieram de bairros vizinhos da Zona Norte apontados como áreas de influência do Comando Vermelho.

Para a promotoria, esse desempenho indicaria a existência de um “curral eleitoral” mantido mediante intimidação dos moradores.

O processo afirma:

“Mariana obteve 81,3% de sua votação total em bairros contíguos da Zona Norte sob domínio da facção Comando Vermelho, caracterizando a existência de um ‘curral eleitoral’ assegurado pela coerção armada sobre os moradores.”

Doações de campanha também são questionadas

O Ministério Público também levanta dúvidas sobre parte do financiamento eleitoral da candidata.

Segundo a ação, ela recebeu R$ 14,5 mil em doações de pessoas residentes ou ex-residentes de áreas controladas pelo Comando Vermelho.

O órgão afirma que parte desses doadores não possui emprego formal ou apresenta renda incompatível com os valores doados. Também cita que alguns respondem ou responderam a investigações por crimes como furto, receptação, porte ilegal de arma e tráfico de drogas.

Ao mesmo tempo, a própria ação reconhece que esses dados, isoladamente, não comprovam irregularidade nas doações, mas sustenta que eles reforçam o conjunto de elementos apresentados no processo.

O Ministério Público pediu que Mariana de Souza seja oficialmente citada para apresentar sua defesa dentro do prazo previsto na legislação eleitoral.

O Agenda do Poder não conseguiu contato com a candidata Mariana de Souza para comentar as acusações do MPE. O espaço segue aberto. Todas as acusações representam a versão apresentada pelo Ministério Público Eleitoral na ação proposta no Trinunal Regional Eleitoral (TRE-RJ).

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