A disputa pelo comando do Senado Federal, prevista para fevereiro de 2027, ganhou um componente que vai além das negociações partidárias. Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) intensificaram articulações nos bastidores de Brasília para favorecer a reeleição de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). O movimento é motivado pelo receio de que a nova composição da Casa abra caminho para processos de impeachment contra integrantes da Corte, uma das principais bandeiras defendidas por parlamentares eleitos em outubro.
As informações são do portal UOL, que ouviu interlocutores de senadores com investigações em andamento, pendências judiciais e candidaturas sujeitas a decisões da Justiça. A reportagem também procurou políticos recém-eleitos e identificou uma movimentação de magistrados interessados em preservar Alcolumbre como principal interlocutor do Supremo no Congresso. A avaliação é de que sua permanência na presidência do Senado poderia dificultar o avanço de pedidos de afastamento de ministros.
Articulação envolve interesses políticos e judiciais
A aproximação entre ministros do STF e parlamentares não é considerada uma novidade na política brasileira. O que chama a atenção é a intensidade das conversas nas últimas semanas, impulsionadas pelo resultado das eleições e pela perspectiva de fortalecimento de grupos críticos ao Supremo.
Os contatos não envolveriam ameaças explícitas, mas uma espécie de entendimento informal entre políticos e magistrados. De um lado, parlamentares interessados em evitar o avanço de processos judiciais; de outro, integrantes da Corte preocupados com a possibilidade de enfrentar pedidos de impeachment.
Em determinadas situações, a interlocução não ocorre diretamente com os senadores. Os recados são transmitidos por advogados responsáveis pela defesa dos políticos, o que torna as negociações menos visíveis.
Um dos principais pontos de sustentação dessa articulação é a proximidade entre Alcolumbre e Alexandre de Moraes. O ministro já teria atuado para administrar crises políticas envolvendo o presidente do Senado, inclusive durante o desgaste entre o parlamentar e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O conflito se prolongou após a rejeição, em abril, da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no STF. Moraes teria trabalhado para restabelecer o diálogo entre Alcolumbre e o Palácio do Planalto, reduzindo as tensões entre Executivo e Legislativo.
Escândalo do Banco Master aumenta pressão
As revelações envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master contribuíram para ampliar a preocupação dentro do Supremo. O caso atingiu ministros de diferentes perfis e criou um ponto de convergência entre magistrados que nem sempre compartilham as mesmas posições políticas.
Alexandre de Moraes aparece em uma das frentes mais delicadas. Uma análise do celular apreendido de Vorcaro identificou 316 registros de interação entre o banqueiro e o ministro nos dois meses anteriores à prisão do empresário, ocorrida em novembro de 2025.
Outro episódio envolve a contratação do escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do magistrado, para prestar serviços jurídicos ao Banco Master. O contrato alcançou quase R$ 130 milhões. Moraes nega a existência de irregularidades.
As informações sobre os contatos e a contratação do escritório passaram a integrar o debate político em torno da atuação de integrantes do Supremo e de possíveis conflitos de interesses.
Embora os fatos relatados tenham provocado questionamentos, a existência de contatos ou vínculos profissionais, isoladamente, não comprova a prática de irregularidades pelos envolvidos.
Toffoli e Nunes Marques enfrentam questionamentos
O ministro Dias Toffoli passou a ser alvo de questionamentos depois da divulgação de relações empresariais entre fundos associados ao universo do Banco Master e empresas ligadas a familiares do magistrado.
Um desses fundos teve participação na Tayayá Administração e Participações, empresa relacionada a um resort que pertenceu a familiares de Toffoli. A repercussão das informações aumentou a pressão sobre o ministro, que acabou deixando a relatoria do caso Master no Supremo.
Outra frente envolve Kassio Nunes Marques. Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro mencionam um contrato de honorários de R$ 427 milhões associado à expressão “Turma do KN”, utilizada nas conversas para identificar pessoas apontadas como próximas ao magistrado.
Segundo os registros, o acordo previa pagamentos vinculados à obtenção de resultados favoráveis em processos de interesse do Banco Master relacionados a precatórios.
As referências encontradas nas mensagens levantaram questionamentos sobre possíveis relações entre operadores jurídicos e pessoas próximas ao ministro. O material mencionado, contudo, não demonstra por si só que Nunes Marques tenha participado das negociações ou cometido alguma irregularidade.
O impacto político dessas revelações ajuda a explicar por que magistrados de diferentes grupos passaram a compartilhar o interesse na continuidade de Alcolumbre à frente do Senado.
Alcolumbre e caso Master
O próprio presidente do Senado tem pessoas próximas envolvidas em uma investigação relacionada ao Banco Master. Em fevereiro de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação Zona Cinzenta para investigar aplicações de aproximadamente R$ 400 milhões realizadas pela Amapá Previdência (Amprev), responsável pela administração dos recursos previdenciários dos servidores estaduais, em letras financeiras emitidas pelo banco.
Entre os alvos da operação estava Jocildo Silva Lemos, então presidente da Amprev e ex-tesoureiro de campanha de Davi Alcolumbre.
Outro nome ligado ao senador é Alberto Alcolumbre, seu irmão, que integrava o Conselho Fiscal da entidade no período em que ocorreram os investimentos investigados. A apuração busca esclarecer as circunstâncias das aplicações e eventuais responsabilidades na destinação dos recursos previdenciários.
Após a operação, Davi Alcolumbre defendeu a investigação dos fatos, afirmando que o episódio deveria ser apurado e esclarecido com transparência e responsabilidade.
A investigação envolvendo a Amprev acrescentou um elemento de desgaste político ao presidente do Senado justamente no período em que ele busca construir condições para permanecer no cargo.
Oposição prepara candidatura única contra Alcolumbre
Enquanto ministros do Supremo se movimentam pela continuidade de Alcolumbre, a oposição articula uma alternativa para assumir o comando do Senado em fevereiro. Dois nomes aparecem como pré-candidatos: Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição, e Tereza Cristina (PP-MS).
Marinho conta com o apoio do PL, que terá uma bancada de 29 senadores. Já Tereza Cristina procura ampliar sua base entre parlamentares de centro e representantes ligados ao agronegócio. Embora ambos mantenham suas pretensões, a expectativa é de que os grupos negociem uma candidatura única à medida que a eleição se aproxime.
O ponto de maior preocupação para o Supremo é que a defesa do impeachment de ministros deixou de ser uma bandeira restrita ao bolsonarismo. Parlamentares de diferentes correntes políticas foram eleitos ou reconduzidos ao Senado com discursos favoráveis ao aumento da fiscalização sobre a Corte e à responsabilização de magistrados.
O presidente do Senado ocupa uma posição estratégica nesse processo. Cabe a ele dar encaminhamento inicial às denúncias por crimes de responsabilidade apresentadas contra ministros do STF. Sem essa iniciativa, os pedidos podem permanecer sem tramitação.
Caso um processo avance até o julgamento, a condenação exige o voto favorável de dois terços dos senadores, o equivalente a 54 dos 81 integrantes da Casa.
A pressão também aparece em pesquisas de opinião. Levantamento AtlasIntel/Estadão divulgado em setembro apontou que 60,5% dos entrevistados defendiam o impeachment imediato de Dias Toffoli. Em relação a Alexandre de Moraes, o percentual favorável à medida chegou a 49,8%.
Os números indicam que a insatisfação com integrantes do Supremo alcança uma parcela expressiva dos entrevistados, embora o apoio popular não substitua os requisitos constitucionais e legais necessários para a abertura e o julgamento de processos de impeachment.
Lula e ministros querem a permanência de Alcolumbre
A movimentação dos ministros encontra um aliado importante no Palácio do Planalto. O presidente Lula também apoia a reeleição de Davi Alcolumbre, embora por razões diferentes das que mobilizam integrantes do Supremo.
Para o governo federal, a continuidade do senador representa a possibilidade de manter uma interlocução política capaz de facilitar negociações e votações de interesse do Executivo.
Nas últimas semanas, Alcolumbre teve papel importante na tramitação de propostas consideradas prioritárias pelo Planalto, entre elas a redução da jornada de trabalho na escala 6×1 e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública.
A atuação do presidente do Senado nessas pautas reforçou sua importância para a articulação política do governo e ajudou a aproximar novamente o parlamentar de Lula, depois de meses de desgaste.
A convergência de interesses, porém, não significa que Planalto e Supremo tenham as mesmas preocupações. Enquanto o governo busca estabilidade e apoio para aprovar sua agenda legislativa, integrantes da Corte procuram evitar que o comando do Senado seja ocupado por um parlamentar disposto a impulsionar pedidos de impeachment.
A eleição de fevereiro de 2027, portanto, ganhou dimensão institucional e poderá influenciar diretamente o equilíbrio de forças entre Congresso Nacional, Executivo e Judiciário.
Mais do que definir quem ocupará a presidência do Senado, a disputa poderá determinar a capacidade de articulação do Supremo diante de uma composição parlamentar que promete ampliar a pressão sobre seus ministros.
Para Alcolumbre, o apoio simultâneo de setores do governo e de integrantes da Corte representa uma vantagem política relevante. Para seus adversários, a eleição oferece a oportunidade de modificar a relação de forças entre o Legislativo e o Judiciário.
O resultado dessa disputa poderá definir se os pedidos de impeachment continuarão encontrando resistência na presidência do Senado ou se ganharão espaço na agenda política da Casa a partir de 2027.







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