Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, mostram o advogado Walfrido Warde relatando ao banqueiro uma série de contatos que, segundo ele, poderiam aproximá-lo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de integrantes do governo.
Os diálogos, segundo reportagem de O Globo, ocorreram principalmente entre 2024 e 2025, período em que o Banco Master enfrentava dificuldades e Vorcaro buscava interlocução política enquanto a instituição estava sob crescente atenção de autoridades. Em uma das mensagens, enviada em setembro de 2024, Warde afirmou: “Estive com o Presidente Lula longamente ontem. Vc vai gostar”.
O conteúdo das conversas também mostra o advogado mencionando possíveis encontros com integrantes do governo e tentando organizar reuniões para tratar de assuntos relacionados ao banco.
Pedido de reunião com Lula começou em 2024
Em abril de 2024, Warde relatou a Vorcaro que havia recebido uma mensagem de Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, então chefe de gabinete da Presidência. Segundo o advogado, ele deveria encaminhar informações sobre os assuntos de interesse do Banco Master para que fosse formalizado um pedido de reunião com Lula.
No mês seguinte, Warde voltou a mencionar o assunto. Em uma mensagem enviada ao banqueiro, afirmou ter acabado de sair de uma sala onde estava o presidente e perguntou por que Vorcaro ainda não havia enviado o e-mail solicitado.
Registros de acesso ao Palácio do Planalto obtidos pela Lei de Acesso à Informação mostram que Warde esteve no local naquele dia.
Em setembro daquele ano, o advogado voltou a afirmar que havia conversado longamente com Lula e pediu um encontro com Vorcaro. Não há, porém, registro de uma visita de Warde ao Planalto na data mencionada na mensagem.
Encontro com Lula ocorreu em dezembro
Os registros oficiais apontam que Daniel Vorcaro esteve no Palácio do Planalto em 4 de dezembro de 2024. Na ocasião, ele se encontrou com Lula acompanhado do ex-ministro Guido Mantega, que prestava consultoria ao banqueiro.
Também participaram da conversa Rui Costa, então ministro da Casa Civil, e Gabriel Galípolo, que à época era diretor do Banco Central e posteriormente assumiria a presidência da instituição.
Depois da reunião, Warde escreveu a Vorcaro: “Parabéns. Soube que foi muito bom”. Em outra mensagem, afirmou que o encontro ajudaria a encaminhar a situação do banco.
Segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência, esse foi o único encontro entre Lula e Vorcaro.
Governo nega outras conversas e articulações
Em nota, o Planalto afirmou que Lula “não tem conhecimento da suposta articulação” atribuída a Warde e que o presidente não enviou recados ao banqueiro.
A Presidência também declarou que Lula não recebeu presente de Vorcaro. Segundo a versão oficial, durante o encontro de dezembro de 2024, o banqueiro afirmou sentir-se alvo de perseguições, e Lula respondeu que eventuais denúncias deveriam ser avaliadas tecnicamente pelo Banco Central.
Warde, por sua vez, não comentou as mensagens. A interlocutores, segundo a reportagem, o advogado afirmou que não tratou diretamente com Lula sobre Vorcaro e que algumas referências feitas nas conversas diziam respeito a contatos com Marcola e outros integrantes do governo.
Marcola também negou ter procurado Warde ou qualquer representante do Banco Master por iniciativa própria. Ele afirmou que, após ser procurado pelo advogado, apenas orientou que o pedido de audiência fosse formalizado por e-mail, procedimento que, segundo ele, era adotado para solicitações de reuniões.
Advogado citou novo contato com o presidente
Em janeiro de 2025, pouco mais de um mês depois do encontro entre Lula e Vorcaro, Warde enviou outra mensagem ao banqueiro. Disse ter encontrado o presidente naquele dia e afirmou que Lula havia perguntado se Vorcaro estava bem e mais tranquilo.
Na mesma mensagem, o advogado afirmou que o presidente teria agradecido novamente por um whisky e mandado um abraço. A assessoria do governo negou que Lula tenha recebido qualquer presente do banqueiro.
Em março de 2025, Warde também escreveu que Lula estaria disposto a receber Vorcaro novamente. Segundo a mensagem, desta vez o encontro poderia contar com a participação do senador Jaques Wagner.
Na sequência, o advogado afirmou que o presidente iria telefonar para tratar do caso relacionado ao banqueiro.
Vorcaro pediu ajuda contra Gleisi e Mercadante
As mensagens também registram uma preocupação de Vorcaro com integrantes do governo. Em março de 2025, o banqueiro escreveu a Warde que Gleisi Hoffmann e Aloizio Mercadante estariam “atuando muito contra” e perguntou como seria possível “bloquear” a atuação dos dois.
Warde respondeu que poderia conversar com ambos, mas que precisava entender melhor a situação.
Naquele momento, Gleisi havia assumido o Ministério das Relações Institucionais, enquanto Mercadante presidia o BNDES.
Mercadante negou ter conversado com Warde ou recebido tentativa de contato do advogado. Por meio de sua assessoria, afirmou ainda que sua avaliação sobre o Banco Master não mudaria diante de eventuais contatos, em razão das informações que circulavam no mercado financeiro sobre a instituição.
Gleisi não se manifestou sobre o episódio.
Banco Master foi liquidado e Vorcaro acabou preso
As tentativas de articulação ocorreram antes da liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central, em novembro de 2025. Vorcaro também foi preso pela Polícia Federal no âmbito das investigações relacionadas à instituição.
O banqueiro é investigado por suspeitas relacionadas a uma fraude bancária. Posteriormente, Warde deixou a defesa de Vorcaro após iniciar uma negociação envolvendo uma possível colaboração premiada, cuja proposta acabou rejeitada pelos investigadores.
A Secretaria de Comunicação Social do governo Lula ressaltou, em sua manifestação, que a liquidação do Banco Master foi determinada pelo Banco Central durante o atual governo e que a prisão de Vorcaro ocorreu no curso das investigações da Polícia Federal.
O episódio agora volta ao centro das atenções por causa das mensagens apreendidas no celular do banqueiro, que registram os relatos feitos por seu então advogado sobre contatos com integrantes do governo e tentativas de aproximação com o presidente da República.







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