Megacultos da Igreja Universal viram palco político para pré-candidatos nas eleições

Eventos da Sexta-feira Santa reuniram multidões em estádios e atraíram pré-candidatos em meio à disputa eleitoral

Os eventos religiosos promovidos pela Igreja Universal do Reino de Deus durante a Sexta-feira Santa ganharam dimensão além da fé e se transformaram em vitrines políticas em diversas regiões do país, informa reportagem do jornal O Globo. Realizadas em grandes estádios, as celebrações reuniram multidões e contaram com a presença de pré-candidatos e autoridades, em um momento de intensificação das articulações eleitorais.

Os encontros, batizados de “Família ao pé da cruz”, ocorreram simultaneamente em nove arenas, incluindo o Maracanã, no Rio de Janeiro, a Neo Química Arena, em São Paulo, e o Mané Garrincha, em Brasília. A mobilização foi interpretada como demonstração de força da igreja e do Republicanos, legenda historicamente ligada à Universal e que ainda não definiu posição na disputa presidencial.

Presença política e disputa por apoio evangélico

Entre os nomes que marcaram presença nos eventos estão o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, e a governadora em exercício do Distrito Federal, Celina Leão, ambos com planos de disputar a reeleição. No Rio, o deputado estadual Douglas Ruas, pré-candidato ao governo estadual, participou da cerimônia no Maracanã.

Em São Paulo, o prefeito Ricardo Nunes esteve na Neo Química Arena ao lado do presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira. Embora não dispute eleição neste ano, sua presença foi vista como sinal de alinhamento com o segmento evangélico.

A participação de lideranças políticas reforça o peso do eleitorado evangélico, que representa 26,9% da população brasileira, segundo o Censo de 2022, chegando a cerca de 32% em estados como o Rio de Janeiro.

Recados políticos e críticas indiretas

Nas redes sociais, o bispo Renato Cardoso, genro de Edir Macedo e apontado como seu sucessor, atribuiu um tom político ao evento ao descrevê-lo como “a maior lata de conservas da família”. A expressão faz referência a uma ala do desfile da Acadêmicos de Niterói que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Durante a cerimônia em São Paulo, Renato Cardoso incluiu autoridades em uma oração, sem citar nomes diretamente:

“Oramos pelos governantes da nossa cidade, pelo prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, pelo governador Tarcísio, pelo presidente do nosso país. Nós oramos pelas autoridades para que o Senhor os ilumine para que eles cuidem bem da nação, se apartem do mal, e sigam o que é bom”, disse Renato Cardoso.

O evento contou ainda com a participação direta de Edir Macedo, que conduziu momentos de pregação na capital paulista.

Republicanos sinaliza insatisfação e busca espaço

Nos bastidores, o crescimento do evento também foi interpretado como uma resposta política do Republicanos diante de insatisfações com a condução das alianças eleitorais. A legenda tem manifestado desconforto com a priorização de negociações por parte do PT e do PL com outras siglas do Centrão.

Em declarações recentes, Marcos Pereira criticou movimentos que, segundo ele, afastam o partido das articulações principais.

“Se eles (candidatura de Flávio Bolsonaro) querem meu apoio, acha que com essa pressão aproxima ou distancia? E com a decisão unilateral que eles tomaram no Rio?”, questionou. E continuou: “O presidente do partido Republicanos do Rio, deputado Luís Carlos, e eu como presidente nacional, soubemos pela imprensa que a chapa já estava fechada. Isso aproxima ou distancia?”.

No estado do Rio de Janeiro, o Republicanos ainda não definiu apoio para a disputa ao governo, sendo alvo de articulações tanto do grupo de Douglas Ruas quanto do ex-prefeito Eduardo Paes.

A legenda já indicou que pretende lançar dois candidatos ao Senado: Marcelo Crivella e Waguinho. Para o governo estadual, nomes como Anthony Garotinho, Clarissa Garotinho, André Português e Ítalo Marsili são cogitados.

“Temos bons nomes. Precisa ver as pesquisas mais para frente e decidir qual terá mais viabilidade”, disse Marcos Pereira.

Mobilização de massa e estrutura nacional

No Rio, a organização do evento mobilizou caravanas de diferentes bairros e municípios da região metropolitana. Segundo lideranças da igreja, mais de 200 mil pessoas participaram da programação no Maracanã, enquanto outras acompanharam as atividades por telões instalados no entorno do estádio.

As ruas próximas foram ocupadas por ônibus e fiéis, e houve distribuição de itens simbólicos, como frascos em formato de cruz com “óleo santo”.

A dimensão dos encontros reforça a capacidade de mobilização da igreja em escala nacional e evidencia o papel crescente do segmento evangélico nas disputas políticas contemporâneas.

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