Um levantamento nacional feito pelo portal UOL identificou 343 candidatos das eleições de 2026 com registros no Banco Nacional de Devedores Trabalhistas (BNDT), sistema que reúne pessoas físicas e jurídicas com débitos decorrentes de decisões da Justiça do Trabalho. Entre eles, 12 disputam cargos majoritários: dois concorrem à Presidência da República, três aos governos estaduais e sete ao Senado.
Os registros estão distribuídos pelas 27 unidades da federação e alcançam candidatos filiados a 24 dos 30 partidos que participam da eleição. São Paulo concentra o maior número, com 77 nomes, seguido pelo Rio de Janeiro, com 31.
DC e Republicanos aparecem com 28 candidatos cada. O PL tem 21 nomes na relação, enquanto o PT registra nove.
A presença no BNDT, porém, não torna um candidato inelegível. Também há situações em que o político não era o empregador direto, mas acabou incluído no processo na condição de sócio ou sucessor de uma empresa.
Renan Santos está entre presidenciáveis citados
Entre os candidatos à Presidência, Renan Santos (Missão) aparece com quatro processos em sua certidão. O registro ganha destaque porque o candidato já defendeu publicamente que, se eleito, buscaria extinguir a Justiça do Trabalho.
Um dos casos começou em Jundiaí, em 2013, e envolve a Martin Artefatos de Metais, fábrica de esquadrias da qual Renan fez parte do quadro societário. A empresa foi condenada em 2016 a pagar R$ 39 mil por salários e 13º não pagos, além de outros direitos.
Durante a execução, houve determinação para penhora de um imóvel do candidato. Depois de tentativas de cobrança sem sucesso, o nome dele foi incluído no banco de devedores. Renan declarou patrimônio de R$ 795 mil ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O candidato afirmou que o valor da dívida de Jundiaí foi depositado judicialmente como garantia de pagamento. Sobre os outros registros, sua equipe declarou:
“Nos dois processos de Betim (MG) — nº 0011573-57.2014.5.03.0027 e 0010635-93.2013.5.03.0028 — Renan foi incluído indevidamente, e sua defesa já requereu sua exclusão. O processo de Camaçari (BA), nº 0094600-33.2009.5.05.0131, é de 2009 e está arquivado desde 2013, razão pela qual será apurado por que ainda consta na certidão.”
O outro presidenciável citado é Veterinário Wilson Grassi (Democrata), relacionado a um processo iniciado por uma ex-funcionária em 2007, em São Paulo, envolvendo R$ 10 mil em verbas rescisórias.
“Eventuais passivos e questionamentos pontuais são decorrentes desse ecossistema de quem produz e emprega no país. Quanto ao apontamento na Justiça do Trabalho, trata-se de um processo que já foi resolvido e está em fase de baixa processual”, afirmou Grassi.
Kalil concentra maior número entre os majoritários
Entre os 12 candidatos a cargos majoritários, Alexandre Kalil (PDT), candidato ao Governo de Minas Gerais, é quem aparece relacionado ao maior número de processos: 13.
As ações estão ligadas às empresas de engenharia Erkal e Fergikal e somam mais de R$ 4 milhões nos casos em que os valores foram divulgados. Uma das ações, apresentada por trabalhadores de Belo Horizonte, envolve R$ 3,2 milhões e cobra horas extras, verbas rescisórias e indenizações.
Kalil declarou patrimônio de R$ 5,9 milhões ao TSE e afirmou que “todas as obrigações trabalhistas de empresas da família Kalil foram resolvidas com o depósito de R$ 13 milhões em conta judicial, valor que está à disposição da Justiça”.
Também candidato a governador, Anthony Garotinho (Republicanos-RJ) aparece em 12 processos relacionados à AGP Produções, cujo nome fantasia é Palavra de Paz. Entre as reivindicações de ex-funcionários estão reconhecimento de vínculo empregatício e diferenças de FGTS. Garotinho não respondeu aos contatos feitos pela reportagem original.
O terceiro candidato a governador é Estêvão (DC-BA), relacionado a três processos envolvendo o Instituto Compasso. Entre os temas das ações estão vale-alimentação, salários pagos com atraso e diferenças de FGTS.
Sete candidatos ao Senado aparecem na relação
A lista de candidatos ao Senado inclui Arthur Lira (PP-AL), Geraldo Rufino (Podemos-SP), Antônio José Lira (Avante-PI), Bruno Scheid (PL-RO), Dailson Corrêa (DC-AM), Gilvan Costa (Democrata-PE) e Simplício Araújo (DC-MA).
No caso de Arthur Lira, o processo está relacionado a um trabalhador de um engenho e remonta a 2007. Segundo o candidato, a discussão atual está restrita a contribuições previdenciárias decorrentes de um acordo trabalhista, sem verbas pendentes em favor do ex-empregado.
Geraldo Rufino aparece em uma ação de 2016 contra a JR Diesel, em Osasco, envolvendo R$ 112 mil em direitos trabalhistas. O candidato afirma que seu nome passou a constar no BNDT após o direcionamento da execução também aos sócios da empresa, que está em recuperação judicial.
Os registros envolvendo os demais candidatos abrangem casos relacionados a reconhecimento de vínculo empregatício, verbas rescisórias, FGTS e outras obrigações trabalhistas.
Inclusão ocorre após etapas de cobrança
A simples existência de uma ação trabalhista não significa que uma pessoa será incluída no Banco Nacional de Devedores Trabalhistas. Segundo o advogado trabalhista Ronaldo Pagotto, o processo percorre diferentes etapas antes de chegar à execução.
“Só depois disso, vai para a execução [cobrança]. Para alguém entrar no banco de devedores, a Justiça tem de não ter conseguido fazer a cobrança dessa dívida, não ter encontrado bens da empresa ou no nome dos sócios da empresa para bloquear, por exemplo”, explica o advogado.
Entre as reivindicações mais frequentes nas ações identificadas estão falta de pagamento de horas extras, adicionais de insalubridade, férias, FGTS, indenizações e verbas rescisórias.
A inclusão no BNDT não impede uma pessoa de disputar eleições. No caso de empresas inadimplentes registradas no sistema, entretanto, há restrições à participação em licitações públicas.







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