Mais da metade dos senadores que defendem impeachment de ministros do STF já foi alvo da Corte

Levantamento revela que 25 dos 49 parlamentares favoráveis ao afastamento de magistrados tiveram histórico de investigações ou ações penais no Supremo; nova composição do Senado amplia tensão entre os Poderes

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A eleição de uma bancada mais favorável ao impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) colocou em evidência uma situação que pode intensificar os conflitos entre o Congresso e o Judiciário a partir de 2027. Dos 49 senadores eleitos ou em exercício que já manifestaram apoio ao afastamento de integrantes da Corte, 25 foram alvo de investigações, medidas investigativas ou ações penais que passaram pelo próprio tribunal.

O levantamento é do jornal Estado de São Paulo e considera tanto procedimentos ainda em andamento quanto casos arquivados, absolvições e investigações posteriormente encaminhadas a outras instâncias. Entre os 31 senadores eleitos em 2026 que defendem o impeachment de pelo menos um ministro, 18 possuem histórico de envolvimento em procedimentos judiciais ou investigativos autorizados pelo STF.

A coincidência entre o histórico judicial de parte dos parlamentares e a defesa do impeachment levanta discussões sobre os limites da fiscalização do Senado, a independência do Judiciário e a possibilidade de conflitos de interesse.

Os integrantes do grupo argumentam que ministros do Supremo não estão acima da lei e devem responder por eventuais crimes de responsabilidade. Também sustentam que cabe ao Senado exercer sua competência constitucional para processar e julgar magistrados da Corte.

O fato de um parlamentar ter sido investigado, entretanto, não significa que tenha cometido irregularidades nem permite concluir que sua posição favorável ao impeachment seja motivada por retaliação.

Bancada cresce após eleições

A eleição de 2026 ampliou o número de senadores dispostos a apoiar processos contra ministros do Supremo. O grupo reúne 49 dos 81 integrantes da Casa, embora ainda não tenha votos suficientes para aprovar o afastamento de um magistrado.

A Constituição exige o apoio de dois terços do Senado, o equivalente a 54 votos, para a condenação em um processo de impeachment. Portanto, a bancada precisaria conquistar pelo menos mais cinco adesões.

O crescimento do grupo ocorre em meio a críticas às decisões do STF sobre investigações envolvendo parlamentares, atos antidemocráticos e fiscalização de recursos públicos.

Entre os ministros mais questionados está Alexandre de Moraes, alvo de críticas por sua atuação em processos relacionados ao governo Jair Bolsonaro e às investigações sobre ataques às instituições.

Carlos Jordy foi alvo de operações

Um dos integrantes da nova bancada é o senador eleito pelo Rio de Janeiro Carlos Jordy (PL), que foi alvo de duas operações da Polícia Federal autorizadas por ministros do Supremo.

Em janeiro de 2024, Alexandre de Moraes determinou buscas contra o então deputado federal durante a Operação Lesa Pátria, que investigava suspeitas de participação na organização de manifestações antidemocráticas após as eleições de 2022.

Em dezembro de 2025, Jordy voltou a ser alvo de uma operação, desta vez autorizada pelo ministro Flávio Dino, para apurar suspeitas de desvio de recursos da cota parlamentar.

Nas duas ocasiões, o político negou irregularidades e afirmou que as medidas tinham caráter intimidatório. Outro senador eleito que aparece no levantamento é Mauro Mendes (União Brasil-MT), ex-governador de Mato Grosso.

Em agosto de 2026, Dino autorizou uma operação da Polícia Federal para investigar suspeitas de desvio de R$ 308 milhões em um acordo entre o governo estadual e uma empresa privada de telefonia. Mendes teve o passaporte recolhido e ficou proibido de manter contato com outros investigados. Ele negou qualquer irregularidade.

Gayer e Carlos Bolsonaro também aparecem

O senador eleito por Goiás Gustavo Gayer (PL) também integra a relação de parlamentares com histórico de investigações supervisionadas pelo Supremo. Em outubro de 2024, Moraes autorizou uma operação da Polícia Federal para apurar suspeitas de utilização irregular de recursos da cota parlamentar.

A investigação apontou a possibilidade de emprego de dinheiro público em atividades particulares ligadas ao então deputado federal. Em dezembro de 2025, Gayer foi indiciado pela Polícia Federal por suspeitas de peculato, associação criminosa e falsidade ideológica. Parte do procedimento permanece sob sigilo.

O parlamentar negou irregularidades e associou o indiciamento à sua atuação em defesa do impeachment de ministros do STF. Outro nome é Carlos Bolsonaro (PL), eleito senador por Santa Catarina. Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e irmão do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, ele foi citado em investigações relacionadas à disseminação de informações falsas e ataques a autoridades durante o governo do pai.

A Polícia Federal apontou Carlos como um dos possíveis articuladores do chamado “gabinete do ódio”, investigado no âmbito do inquérito das fake news. Em janeiro de 2024, ele também foi alvo de buscas autorizadas por Moraes na investigação sobre o suposto uso irregular da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Na ocasião, os investigadores apreenderam seu telefone celular. Carlos foi indiciado em junho de 2025 e apontado como integrante do núcleo político do esquema investigado. Em julho de 2026, Moraes determinou a transferência dessa investigação para a primeira instância da Justiça Federal, mantendo válidas as provas e diligências realizadas anteriormente.

Investigações também foram arquivadas

O levantamento inclui parlamentares que foram submetidos a medidas investigativas, mas tiveram os procedimentos encerrados sem condenação. É o caso das senadoras eleitas Bia Kicis (PL-DF) e Caroline de Toni (PL-SC).

Em maio de 2020, ambas tiveram os sigilos bancários quebrados por determinação de Alexandre de Moraes no inquérito que investigava a organização e o financiamento de manifestações antidemocráticas. O procedimento foi arquivado em julho de 2021, após pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Bia Kicis voltou a prestar esclarecimentos ao Supremo em 2026, desta vez por determinação de Flávio Dino. O questionamento envolvia a destinação de R$ 150 mil em emendas parlamentares para uma série documental ligada à produtora do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

A parlamentar afirmou que os recursos não foram executados e negou ter financiado o filme. O pedido de esclarecimentos ocorreu em uma ação relacionada à fiscalização de emendas e não representou, por si só, a abertura de investigação criminal contra a senadora.

Emendas ampliam atritos com o STF

A fiscalização das emendas parlamentares representa outra frente de tensão entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Sob a relatoria de Flávio Dino, a Corte ampliou as exigências de transparência e rastreabilidade dos recursos destinados por deputados e senadores.

As determinações provocaram resistência entre congressistas, especialmente diante da possibilidade de novas investigações sobre a aplicação das verbas.

Em 2025, Dino mencionou a existência de mais de 80 inquéritos no STF relacionados a suspeitas de irregularidades em emendas parlamentares. Na mesma época, Gilmar Mendes também reconheceu a dimensão das apurações, estimando entre 60 e 80 procedimentos.

Como parte das investigações tramita sob sigilo, não é possível identificar todos os parlamentares envolvidos nem determinar se outros integrantes da futura bancada favorável ao impeachment estão entre os investigados.

A situação cria um cenário institucional delicado: enquanto o Supremo supervisiona investigações contra congressistas, o Senado possui competência para processar e julgar ministros da própria Corte por crimes de responsabilidade.

Especialistas alertam para riscos

O professor de Direito do Insper Luiz Gomes Esteves avalia que a nova composição do Senado poderá abrir diferentes caminhos de reação às decisões do Supremo, incluindo propostas de alteração das competências do tribunal.

“De um lado, os senadores podem mobilizar processos de impeachment para reagir a eventuais investigações iniciadas pelo STF. De outro, é possível que os senadores simplesmente alterem a Constituição para retirar das mãos do STF a competência criminal”, afirmou.

Na avaliação do especialista, a concentração de decisões em relatores como Alexandre de Moraes e Flávio Dino contribuiu para personalizar os conflitos entre magistrados e parlamentares. Esse cenário pode dificultar a distinção entre o exercício legítimo das atribuições do Senado e eventuais tentativas de retaliação a decisões judiciais.

A professora de Direito do Insper e da FGV-SP Ana Laura Barbosa também chama atenção para os possíveis efeitos das ameaças de impeachment sobre a independência judicial. “A ameaça de retaliações pode servir não para que elas sejam diretamente concretizadas, mas sim como ferramenta para forçar uma cooptação ou captura”, afirmou.

Segundo a especialista, a pressão política pode influenciar a atuação dos magistrados mesmo quando os pedidos de afastamento não chegam a ser aprovados. Ana Laura ressalta, entretanto, que o histórico de investigações dos parlamentares não comprova intenção de retaliação. “Não dá pra usar impeachment para punir juízes pelas decisões que proferiram ou por especulações”, declarou.

Para ela, a legitimidade de um processo deve ser avaliada pela existência de crime de responsabilidade, e não pela discordância política em relação às decisões do Judiciário.

Quórum dificulta afastamento de ministros

Apesar do fortalecimento eleitoral da bancada favorável ao impeachment, a aprovação de um afastamento ainda enfrenta obstáculos políticos e jurídicos. Além da necessidade de alcançar 54 votos no Senado, o procedimento passou a ser objeto de novas discussões após uma decisão de Gilmar Mendes, em dezembro de 2025.

O ministro estendeu a exigência de dois terços dos senadores a etapas anteriores do processo, afastando a regra de maioria simples prevista na legislação para a aprovação de pareceres que permitem o avanço do procedimento.

A decisão foi tomada por meio de liminar e ainda não recebeu confirmação definitiva do plenário do Supremo. Entre os argumentos apresentados por parlamentares favoráveis ao impeachment de Moraes estão críticas a decisões consideradas abusivas e questionamentos sobre suspeitas envolvendo sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master.

Também são citadas informações sobre um contrato firmado entre a instituição financeira e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Esses episódios são utilizados por integrantes da bancada para defender investigações e, em alguns casos, o afastamento do magistrado.

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