‘Macumbeiro, militar e sambista’: a caneta consagrada de Cláudio Russo no Carnaval do Rio de Janeiro
Reportagem Especial

‘Macumbeiro, militar e sambista’: a caneta consagrada de Cláudio Russo no Carnaval do Rio de Janeiro

Um dos maiores vencedores de sambas da atualidade, compositor fala ao Agenda do Poder sobre sua trajetória com mais de 200 músicas, enredo afro-cubano de 2026, parceria com Luiz Antônio Simas e a vida entre o quartel e a quadra

Durante 35 anos, o Exército Brasileiro conheceu apenas o Capitão Malheiros, um oficial exemplar, que nunca chegava atrasado e jamais pedia dispensa. O que poucos sabiam é que, ao cruzar os portões, o capitão dava lugar a Cláudio Russo, compositor com mais de 200 sambas assinados e uma coleção de prêmios, incluindo quase dez Estandartes de Ouro — considerada uma das maiores premiações do Carnaval — conquistados por diferentes agremiações.

A separação entre as duas vidas sempre foi rígida. “O Cláudio Russo nunca entrou no quartel. E o Capitão Malheiros nunca entrou na quadra”, resume o compositor, emocionado, em entrevista ao Agenda do Poder, na série especial Artistas da Avenida.

Cláudio Russo conversou com a equipe do Agenda do Poder na quadra da Tuiuti e falou sobre sua carreira e o equilibrio entre a vida de sambista e de militar | Crédito: Agenda do Poder

A carreira militar, segundo ele, não surgiu de uma vocação romântica. “O Exército é uma organização de Estado que defende a soberania e a tradição, com regulamentos e disciplinas rígidas. Eu me sinto militar talvez nem tanto por vocação, mas por necessidade”, afirma. Russo lembra que ingressou no Exército em busca de estabilidade e, vindo de família pobre e com facilidade para os estudos, viu na profissão a chance de garantir um salário melhor e mais segurança para o futuro.

Essa escolha, no entanto, nunca interferiu na vida de compositor — nem o contrário. Ao longo de mais de três décadas de serviço, Russo diz que nunca misturou as duas rotinas. Não chegava atrasado ao quartel alegando compromissos com o samba e tampouco pedia dispensa para entrevistas ou eventos ligados à música. Para ele, os dois mundos não dialogavam. “O trabalho de lá não vai conversar com o trabalho daqui. Não tem diálogo”, resume.

A contradição aparente entre a caserna e a quadra sempre esteve clara para ele. Russo se define como um militar fora da curva. “Eu sou militar com três coisas que 99% deles não são: sou progressista, macumbeiro e sambista. Tinha tudo para dar errado. Por isso, um mundo não conversava com o outro”.

“Depois, quando comecei a aparecer em matérias como esta, aí sim ficaram sabendo. E me diziam: ‘mas tu nunca falou!’. E eu respondia: ‘não, mas não tem motivo pra falar. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa’. Hoje, depois de 35 anos trabalhando, vi que deu certo. Mas vou te falar: foi muito difícil”.

Agora na reserva, aos 53 anos, ele agora consegue ter mais tempo para o mundo do samba. “Sou um privilegiado num país onde poucos se aposentam com salário integral”, afirma o artista, que chega ao Carnaval deste ano com sede por mais um título.

Cláudio Russo coleciona prêmios na estante, incluindo quase dez Estandartes de Ouro | Crédito: Reprodução / Redes sociais

‘O samba ensina quando fala a língua do povo’

Com dedicação integral ao samba, a missão para 2026 é abrir a terça-feira de Carnaval com a Paraíso do Tuiuti cantando Lonã Ifá Lukumi. O enredo narra a travessia da tradição iorubá até Cuba, onde africanos escravizados preservaram sua fé e deram origem à Santería, também conhecida como Regla de Ocha ou Regla Lucumí.

Ao lado de parceiros como Gustavo Clarão e do historiador Luiz Antônio Simas — uma das grandes novidades para este ano —, Russo encara mais uma vez o desafio do samba encomendado. “Eu considero a encomenda muito mais difícil do que a disputa”, avalia. “Na disputa, eu entro em dez escolas. Se eu perder na sua, tchau. Na encomenda, não. Você tem o compromisso moral de entregar o hino oficial. A responsabilidade dobra”, reconhece.

A estratégia para este ano foi blindar a obra contra possíveis polêmicas políticas ou religiosas. Segundo Russo, o foco foi a resistência cultural, desviando de rivalidades entre vertentes do Ifá ou alusões à Revolução Cubana — que poderiam dar o que falar. “Já gostei dessas polêmicas, hoje eu não gosto mais. Eu prefiro sair delas”.

Para Russo, o samba não precisa ser um tratado acadêmico para ensinar: a força mora muitas vezes na simplicidade. Ele critica a tendência de transformar a avenida em defesa de tese, esquecendo que o Carnaval é, antes de tudo, uma festa popular.

“Tem muito compositor tornando a letra do samba uma tese de mestrado, mas esquece que Carnaval é coisa popular. É lugar de democracia. É onde o servo vira rei e o rei vira servo — tanto que o prefeito entrega as chaves da cidade para o Rei Momo”, continua. “Eu me lembro de várias provas no ginásio que consegui fazer, principalmente de história, puxando na memória sambas-enredo. O samba ensina quando fala a língua do povo”.

Para Cláudio Russo, Carnaval é lugar de democracia | Crédito: Reprodução / Redes sociais

A ‘faculdade’ Laíla

Se hoje Russo domina a técnica, muito se deve ao tempo em que trabalhou com Laíla, histórico diretor da na Beija-Flor. Foi lá, em 2015, que teve uma de suas maiores lições sobre rigor e sensibilidade.

O compositor não esconde que a convivência com o lendário sambista  impunha mais respeito do que a hierarquia do quartel. “Eu já levei chamada de militar — e militar sabe dar uma chamada —, do Laíla era muito pior. Bronca de General é menos pior do que tomar uma chamada do Laíla”, brinca, lembrando com carinho dos tempos com o mestre.

Laíla influenciou a trajetória de Cláudio Russo no samba e no Carnaval | Crédito: Reprodução / Agência Brasil

Foi sob essa pressão, diante de um enredo difícil sobre a Guiné Equatorial e cobrado por uma sinopse “poética” sem prazo, que Russo buscou na ancestralidade a solução. Em vez de um texto técnico, escreveu uma narrativa baseada na oralidade africana: a figura de um ancião contando a história do país para uma criança.

“Eu trouxe a ideia do Griô, que existe em quase todos os países do continente africano, do mais velho passando a sabedoria. A sabedoria na África é muito mais oral do que uma narrativa escrita. A parte de cima [da sinopse] era ele contando o tempo todo a grandeza do país dele”, explica.

A solução humanizou o enredo árido e emocionou o diretor. “Embora não exista a figura do Griô, pelo menos com esse nome, especificamente na Guiné Equatorial — algo que o Nei Lopes apontou depois como um erro de construção —, o Laíla adorou. Ele pediu para eu ler em voz alta, sorriu e mandou imprimir na hora. Fomos campeões”, recorda.

Inspiração da composição vem da trajetória pessoal

Russo conta que muitos perguntam o motivo da facilidade para escrever bons sambas sobre a cultura afro-brasileira. A resposta, segundo ele, que é pós-graduado em História da África e Cultura Afro-Brasileira, não está nos livros que estudou na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), mas na vivência pessoal.

“Eu nasci num terreiro de Umbanda. Minha avó paterna era mãe de santo, a mais conhecida de Jacarepaguá. Meu pai era ogã. Minha mãe, iaô”, conta, emocionado. “Eu não sou rodante, mas sigo a religião. As pessoas acham que as coisas caem do céu. ‘Por que você faz tanto samba afro bom?’ É porque eu me identifico”.

Ele prossegue: “Eu sou casado com uma mulher preta. Minha mãe é uma mulher preta. Eu não tenho lugar de fala, quem tem são elas, mas eu vivo com elas. Meu filho é preto. Eu vejo o preconceito, eu vejo a religiosidade, eu vejo as entidades surgindo e falando comigo desde pequeno. O curso, a formação acadêmica, é consequência de toda essa experiência na minha vida”.

Do menino tímido das paródias ao campeão do Carnaval

Quem vê a firmeza de Russo hoje não imagina que tudo começou como uma estratégia de sobrevivência escolar. Adolescente tímido, ele encontrou na música uma forma de se comunicar.  

“Eu comecei fazendo paródias na escola. Pegava melodias famosas e colocava letras engraçadas para angariar um pouquinho de popularidade, porque eu era muito tímido”, relembra, com um sorriso nostálgico. 

A brincadeira ganhou contornos de seriedade quando pediu ao pai, que trabalhava na direção da hoje extinta Império da Marangá, em Jacarepaguá, para fazer parte da escola. Aos 17 anos, começou a participar das disputas de samba-enredo. “Cheguei a três finais e não ganhei nenhuma”, conta. 

De lá, passou pelo Arrastão de Cascadura, em 1991, até chegar à Portela, no ano seguinte, onde sua caneta começou a fazer história logo na estréia, conquistando a primeira vitória com um samba-enredo assinado ao lado de Wilson Cruz e Jorginho Estrela Negra. A partir daí a carreira deslanchou, colhendo premiações em escolas como Beija-Flor, Unidos de Padre Miguel, Inocentes de Belford Roxo, Tuiuti e outras.

Hoje, com a estante cheia e a carreira consolidada, é na família que Russo encontra inspiração e fôlego para seguir criando e disputando novos carnavais.

Recentemente, a morte da cachorrinha da família, companheira de 13 anos, abalou a rotina da casa. O filho, André, ficou devastado e não quis ir aos ensaios. Já a filha, Sofia, pediu para ir à quadra “esfriar a cabeça”. Lá, a menina teve a dimensão real do tamanho do pai no samba.

“Minha filha viu todo mundo me entrevistando e falou: ‘Pai, não sabia disso tudo’. Eu disse a ela: ‘Você vai seguir o teu caminho, mas leva contigo as coisas que a gente está deixando’”, conta.

O legado, aliás, já está garantido — mas com identidade própria. Os filhos seguem na música, cada um no seu talento: Sophia canta, enquanto André toca. “O meu filho gosta dos sambas alegres, de fazer melodia. Eu gosto dos tons menores, dos lamentos. Ele está seguindo outro caminho, e isso é bom pra caramba”, compara.

Cláudio Russo, esposa e filhos | Crédito: Reprodução / Redes sociais

Do menino tímido que fazia paródias na escola ao capitão da reserva e campeão do Carnaval, Cláudio Russo hoje não precisa provar mais nada — mas não deixa de lado a ambição por mais conquistas. “Eu só estou aqui até hoje porque eu gosto muito. Enquanto tiver uma sinopse e uma vontade de escrever, eu estou feliz”.

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