O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarca neste domingo (20) para Nova York, onde participará da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Na terça-feira (22), o brasileiro fará o primeiro pronunciamento entre os chefes de Estado e de governo no debate geral, mantendo a tradição, consolidada desde 1955, de o Brasil abrir os discursos, seguido pelo país anfitrião, os Estados Unidos.
A defesa da soberania nacional, da democracia e do princípio da não interferência nos assuntos internos dos países deverá ganhar destaque na passagem de Lula pela ONU. O encontro ocorre em meio às tensões entre Brasília e Washington e a poucas semanas das eleições presidenciais brasileiras, marcadas para outubro.
Lula tem reiterado a posição de que cabe aos brasileiros decidir os rumos políticos do país. A soberania deverá aparecer no discurso tanto como princípio da política externa quanto no contexto das divergências recentes com o governo do presidente dos EUA Donald Trump. Reportagens sobre a preparação da viagem apontam que o tema das eleições brasileiras e a rejeição a interferências externas estarão entre as mensagens levadas pelo presidente a Nova York.
Tensão com os Estados Unidos entra no cenário
A relação entre os dois governos tornou-se mais delicada diante de divergências comerciais, diplomáticas e políticas. Em 2025, negociações entre Brasil e Estados Unidos envolveram também questionamentos estadunidenses sobre a situação política brasileira, enquanto o governo Lula rejeitou a caracterização de determinadas figuras como presos ou dissidentes políticos.
Nesse ambiente, o discurso brasileiro deverá reforçar a posição de que as instituições e o processo eleitoral do país devem funcionar sem ingerência estrangeira.
A tensão aumentou nos últimos dias com a atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro e do comentarista Paulo Figueiredo em Washington. Os dois afirmaram ter realizado reuniões com integrantes do governo Trump e disseram ter defendido sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Também alegaram, sem apresentar provas públicas que sustentassem a afirmação, que integrantes da Corte poderiam tentar impedir uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial.
Eduardo e Figueiredo passaram ainda a se apresentar como “dissidentes”, expressão que ganhou espaço na disputa política e diplomática entre os dois países.
Outra movimentação partiu do deputado republicano Chris Smith, que pediu maior acompanhamento internacional da situação brasileira e das eleições. A Organização dos Estados Americanos (OEA) já havia acertado o envio de uma Missão de Observação Eleitoral para acompanhar o pleito brasileiro.
Multilateralismo e reforma da ONU
Para além das questões diretamente relacionadas à política brasileira, Lula deverá retomar temas recorrentes da diplomacia do país, entre eles a defesa do multilateralismo, a solução negociada de conflitos e mudanças na estrutura de governança internacional.
A reforma das Nações Unidas, especialmente do Conselho de Segurança, tem sido defendida reiteradamente pelo governo brasileiro. Lula sustenta que a composição do órgão, definida a partir da ordem internacional estabelecida depois da Segunda Guerra Mundial, não representa adequadamente o equilíbrio político e econômico atual.
O presidente já defendeu mudanças na composição, nos métodos de funcionamento e no direito de veto do Conselho, além da ampliação da representação da América Latina, da África e de outras regiões hoje sub-representadas.
O tema encontra espaço na própria agenda da 81ª Assembleia Geral. A presidência da sessão colocou a renovação do multilateralismo, a reforma da ONU e uma governança global mais inclusiva entre suas prioridades.
Questões como os conflitos internacionais, a proteção de civis, as mudanças climáticas e a defesa do direito internacional também deverão aparecer na participação brasileira. A preparação do pronunciamento de Lula inclui temas como meio ambiente e as guerras e crises em regiões como Ucrânia, Gaza e Sudão.
Lula terá encontro com António Guterres
Antes de discursar no plenário na terça-feira, Lula deverá se reunir com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. A programação em Nova York também inclui a possibilidade de encontros bilaterais com outros líderes durante a passagem do presidente pelos Estados Unidos.
O Debate Geral será realizado entre 22 e 28 de setembro e reunirá representantes dos 193 Estados-membros. Segundo a ONU, quase 130 chefes de Estado e de governo são esperados presencialmente na semana de alto nível.
O tema oficial da 81ª sessão é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”. A agenda foi estruturada em torno de desafios como paz e segurança, desenvolvimento, clima, direitos humanos, inovação tecnológica e reforma da governança multilateral.
Para Lula, a Assembleia Geral ocorre em um momento no qual a defesa da soberania e da autonomia das instituições brasileiras deverá se cruzar com temas tradicionais da política externa do país. O pronunciamento de terça-feira também colocará frente a frente, na ordem dos discursos, Brasil e Estados Unidos: depois da abertura brasileira, caberá a Trump representar o país anfitrião.







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