Uma rede de empresários de extrema direita dos Estados Unidos ligada a aliados do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) mantém conexões empresariais com uma cadeia de produção de terras raras que alcança ativos minerais no sul da Bahia. A informação foi divulgada pelo jornalista Paulo Motoryn na newsletter Noites Húngaras, em parceria com o canal Amado Mundo. O elo apontado pela reportagem envolve a Rockbridge Network, o fundo 1789 Capital, a fabricante de ímãs Vulcan Elements e a mineradora Energy Fuels.
A ligação ganha relevância política porque integrantes próximos à campanha de Flávio discutiram propostas para aproximar Brasil e Estados Unidos no setor de minerais estratégicos. Não há evidências, porém, de que o candidato, sua campanha ou seus aliados tenham participado da aquisição das áreas minerais na Bahia.
O ponto de conexão empresarial é o 1789 Capital, fundo fundado por nomes ligados à Rockbridge Network e que tem Donald Trump Jr., filho do presidente dos EUA Donald Trump, como sócio. A gestora investiu em 2025 na Vulcan Elements, fabricante estadunidense de ímãs de terras raras voltados a setores como tecnologia e defesa.
Pouco depois, a Vulcan assinou um memorando de entendimento com a Energy Fuels para desenvolver uma cadeia de fornecimento de terras raras nos Estados Unidos independente da China. A mineradora, por sua vez, controla um projeto no sul da Bahia que tem a monazita, fonte de elementos de terras raras, entre seus principais ativos.
Projeto baiano pode abastecer indústria nos EUA
A Energy Fuels concluiu em fevereiro de 2023 a aquisição do chamado Projeto Bahia, localizado entre Prado e Caravelas. As áreas adquiridas somavam 15.089 hectares, e a empresa informou que o projeto poderia produzir entre 3 mil e 10 mil toneladas de concentrado de monazita por ano.
Além da monazita, o empreendimento possui minerais como ilmenita, rutilo e zircão. A intenção declarada pela Energy Fuels é utilizar a monazita proveniente da Bahia como matéria-prima para sua unidade de White Mesa, em Utah, nos Estados Unidos, onde o material pode ser processado para a obtenção de óxidos de terras raras.
A própria companhia continuava descrevendo, em 2026, o projeto brasileiro como uma potencial fonte de longo prazo de monazita para a unidade dos EUA. O empreendimento permanecia, entretanto, em fase de licenciamento e desenvolvimento.
Segundo a apuração original, registros da Agência Nacional de Mineração (ANM) indicam que a Energy Fuels possui 19 processos minerários ativos distribuídos por Prado, Caravelas e Alcobaça. Nenhum deles, de acordo com o levantamento apresentado, tinha concessão de lavra que autorizasse a exploração comercial.
Fundo de Trump Jr. investiu em fabricante de ímãs
A conexão entre o projeto brasileiro e a rede empresarial estadunidense passa pela Vulcan Elements.
Em agosto de 2025, a fabricante anunciou uma rodada de investimentos de US$ 65 milhões. Informações divulgadas posteriormente apontaram o 1789 Capital entre os investidores da companhia.
Três meses depois, a Vulcan anunciou uma parceria de US$ 1,4 bilhão com o governo dos Estados Unidos e a ReElement Technologies para ampliar a produção doméstica de ímãs de terras raras. O pacote incluiu um empréstimo de US$ 620 milhões do governo dos EUA e US$ 50 milhões vinculados ao Departamento de Comércio, além de capital privado.
A proximidade temporal entre o investimento do fundo do qual Trump Jr. é sócio e o financiamento público provocou questionamentos nos Estados Unidos sobre potencial conflito de interesses. A Vulcan e representantes de Trump Jr. negaram interferência dele nas negociações com o governo dos EUA.
Em agosto de 2025, Vulcan e Energy Fuels também anunciaram formalmente uma parceria para construir uma cadeia estadunidense de ímãs de terras raras independente da China. O acordo previa inicialmente testes com óxidos produzidos nos Estados Unidos e, posteriormente, a possibilidade de contratos de longo prazo.
O memorando não determina que minerais retirados da Bahia sejam fornecidos diretamente à Vulcan. Há, contudo, uma conexão entre a fabricante financiada pelo fundo do qual Trump Jr. é sócio e a Energy Fuels, que declara pretender utilizar monazita do projeto brasileiro em sua cadeia produtiva nos EUA.
Terras raras aparecem em propostas de aliados de Flávio
A cadeia empresarial coincide com discussões políticas sobre minerais estratégicos realizadas por pessoas ligadas à campanha de Flávio Bolsonaro.
Segundo a apuração original, André Marinho, candidato ao governo do Rio de Janeiro e aliado de Flávio, elaborou um memorando que projetava, em um eventual governo do candidato do PL, uma aproximação com os Estados Unidos para a formação de uma cadeia alternativa à dependência chinesa de minerais críticos.
O documento também tratava de mudanças na legislação minerária e no licenciamento para facilitar investimentos no setor.
Em março, durante discurso na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), Flávio afirmou que o Brasil seria “a solução para os Estados Unidos quebrarem a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras”.
Outro nome citado é o empresário Pedro Sang, apontado pela apuração como articulador da Rockbridge no Brasil. Segundo a reportagem original, Sang participou da estruturação do comitê eleitoral de Flávio em São Paulo e teria se apresentado no local como “Pedro da Rockbridge”.
A Rockbridge Network foi criada por nomes ligados ao movimento da extrema direita estadunidense e reúne empresários interessados no financiamento de organizações e iniciativas alinhadas à direita dos Estados Unidos. Chris Buskirk, um de seus fundadores, também participou da criação do 1789 Capital.
A gestora define sua estratégia de investimentos como “capitalismo patriótico” e direciona recursos a empresas consideradas estratégicas para os interesses econômicos e de segurança dos Estados Unidos.







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