A corrida eleitoral esquentou antes da campanha para o Governo do Rio, que só deve iniciar oficialmente em agosto. Em um cenário de indefinições jurídicas, o meio político aguarda a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre as regras para definir o novo governador após a renúncia de Cláudio Castro (PL). O Rio vive uma escalada de incertezas, que se agravou quando Castro passou a ser considerado inelegível pelos próximos oito anos por abuso de poder político e econômico em decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A saída de Castro abriu um vácuo de poder. O vice Thiago Pampolha já havia deixado o governo em 2025 para assumir uma vaga no Tribunal de Contas do Estado (TCE). O próximo na linha sucessória seria o presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Mas Rodrigo Bacellar foi preso pela primeira vez em uma investigação por suposta ligação com o Comando Vermelho (CV), em dezembro de 2025. Cassado, foi preso novamente na última sexta-feira (27) pela Polícia Federal. Com isso, o desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ), assumiu o cargo de governador em exercício.
A estratégia do grupo ligado a Castro era abrir caminho para o deputado estadual Douglas Ruas, candidato para suceder Castro. Ele chegou a ser eleito presidente da Alerj em sessão extraordinária na última semana. A medida já o colocaria no posto de governador interino, à espera de uma definição do STF. Mas a escolha foi anulada horas depois pelo TJ-RJ por violação do rito da Justiça Eleitoral.
Nesta terça-feira (31), a Casa fará a retotalização dos votos, que determinará a redistribuição de cadeiras para abrir uma nova vaga para deputado devido à saída de Bacellar. Só então, a Alerj poderá escolher um novo presidente, que assumiria o governo do Rio. Mas por pouco tempo, já que todos os olhares estão voltados para Brasília. No confuso xadrez político fluminense com novos desdobramentos no STF, há dois cenários possíveis para o mandato-tampão, que se encerra no dia 31 de dezembro: eleição indireta com voto de deputados da Alerj ou direta, com dos próprios eleitores. E cada um deles conta com a atuação nos bastidores dos dois principais pré-candidatos, que movem as suas peças no tabuleiro.

Por que Paes e Ruas agora apoiam eleições diretas para mandato-tampão?
Um dos últimos capítulos de uma novela que parece ainda longe do fim ocorreu na última sexta-feira (27), quando o ministro Cristiano Zanin concedeu liminar que suspende as eleições indiretas. O pedido atende uma reclamação do PSD, partido do ex-prefeito Eduardo Paes, que pede votação direta e já abriu campanha nas redes sociais. “Diretas já! Deixa o povo decidir”, escreveu nas suas redes sociais. A estratégia dele é assumir o mandato e sair na frente na disputa das eleições de outubro.
Ainda em busca de maior visibilidade, Douglas Ruas reagiu ao fazer uma manobra inesperada, e já em busca de um primeiro embate com Paes, em um aceno da antecipação da corrida eleitoral. O pré-candidato para suceder Castro também defendeu as eleições diretas e confirmar a sua candidatura. “Esse é o exercício pleno da democracia”, disse.
As movimentações anteriores indicavam um caminho mais fácil para dar andamento ao plano do PL de colocar Ruas como governador interino. Isso porque a tendência era a de que ele fosse escolhido nas eleições indiretas com o voto de deputados.
Mas a estratégia já havia sido frustrada em liminar do ministro Luiz Fux, do STF, que propôs um período mínimo de seis meses para desincompatibilização de candidatos. Com isso, a candidatura de Ruas seria inviabilizada, abrindo caminho para que ele agora se posicionasse a favor das eleições diretas.
Ficou confuso? A Agenda do Poder ouviu especialistas para explicar o momento atual e todos os cenários possíveis para os próximos dias.

Especialistas veem cenário instável: ‘Mais uma camada de incerteza’
O cientista político Paulo Baía analisa o impacto do STF em um cenário de indefinições. “A decisão [do STF] não trouxe alívio. Trouxe mais uma camada de incerteza. A política, mais uma vez, foi retirada das mãos dos políticos e colocada em outro lugar, onde o tempo não é o da rua, nem o da urgência social”, escreveu em sua coluna na Agenda do Poder.
“A eleição de 2026 já começou, mesmo que oficialmente não tenha começado. Ela aparece nas entrelinhas, nas movimentações discretas, nas falas calculadas. Está nas redes sociais, nas articulações silenciosas, nas conversas que não chegam ao público (…). Quem governa o Rio hoje? Quem governará amanhã? Qual regra será aplicada?
Paulo Baía, cientista político
Baía diz ver um cenário ainda aberto devido ao impasse jurídico. “A primeira manobra era antecipar a escolha de Ruas como governador. Mas não deu certo. Se a eleição não tivesse sido questionada, ele seria governador interino, porque o presidente da Alerj está na linha direta de sucessão com a saída de Castro. Mas, ainda assim, depende da decisão do STF. É uma situação muito confusa”, admite.
O cientista político Ricardo Ismael concorda. “Enquanto não houver definição, não vamos ter um cenário claro. O Rio tem mais um governador inelegível por problemas de improbidade administrativa e não tem vice para assumir o seu lugar. Ainda teve um presidente da Alerj preso e precisa esperar a retotalização da Alerj para fazer a eleição da Mesa Diretora. Em meio a isso, o Supremo dará a palavra final”.
“Existem duas partes brigando, com o Paes de um lado e o Ruas do outro. A palavra final vai ter que ser do STF para dizer: ‘vai ser assim e cumpra-se’. Senão, sempre ter alguém entrando na Justiça para contestar. O eleitor fluminense deve estar perdido em uma confusão generalizada, que causa a sensação de que o Rio vive uma bagunça. É uma situação muito confusa, que infelizmente joga contra a imagem do Estado do Rio”.
Ricardo Ismael, cientista político
Segundo ele, esse cenário tem prejudicado o Rio. “O Estado está aí, com situações que não podem esperar. É necessário que a população do Rio tenha um novo governador em exercício, que possa ocupar o cargo na sua plenitude”.
A cientista social Mônica Gonçalves, que também atua como pesquisadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada da UFRJ, diz que o grupo político de Cláudio Castro busca se manter no poder em meio a um cenário de disputas também jurídicas. Mas também enfrenta resistência dos opositores. “Cada grupo político defende regras que lhe dão mais chance de alcançar seus objetivos: aumentar o poder de influência e comando, mas cria um cenário bastante instável”, avalia.

Plano frustrado com Bacellar e Ruas como plano B
Rodrigo Bacellar, então presidente da Alerj, era a principal opção para suceder Castro no Governo do Rio, com estratégia baseada no fortalecimento de alianças políticas e na consolidação de uma transição com foco em Segurança Pública.
“Ele se preparou para ser o sucessor, controlando a Alerj e fazendo todas as articulações, associadas a Castro. Mas bateu de frente com lideranças políticas, promovendo uma fissura no grupo e perdendo todo o seu capital político”, diz o cientista político Paulo Baía.
Uma das principais manobras foi a articulação política que resultou na saída do então vice-governador Thiago Pampolha do governo, seu principal rival até então na linha de sucessão. Em meio a uma disputa interna, ele renunciou ao cargo e acabou assumindo uma vaga no Tribunal de Contas do Estado (TCE).
“A estratégia de Bacellar para garantir sua vaga no Governo do Rio estava dando certo, até o momento da sua prisão. Ele tinha conseguido tirar Pampolha do caminho para já assumir a vaga quando Castro renunciasse para disputar a eleição em outro cargo. A prisão de Bacellar desorganizou o tabuleiro e fez com que os atores começassem a se movimentar”.
Mônica Gonçalves, cientista social e pesquisadora da UFRJ
Em meio a perda interna de poder, o plano foi frustrado com a prisão dele. Bacellar também foi declarado inelegível pelo TSE, acusado de abuso de poder político nas eleições de 2022 em um suposto esquema de contratações irregulares no Ceperj (Centro de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio), órgão ligado ao governo estadual.
Sem Pampolha e sem Bacellar, surgiu o nome de Douglas Ruas como o preferencial para enfrentar Eduardo Paes nas urnas. “Ele ganhou espaço como candidato ligado a Flávio Bolsonaro, com apoio de Cláudio Castro”, analisa o cientista político Paulo Baía, em um momento em que as ideias defendidas pelos principais pré-candidatos nas eleições deste ano ficam em segundo plano, enquanto as atenções do meio político se voltam para a decisão do STF.


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