A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que tornou Cláudio Castro (PL) inelegível pelos próximos oito anos por abuso de poder político e econômico tem desdobramentos na corrida eleitoral deste ano em meio a um cenário de incertezas e de manobras políticas.
De um lado, Eduardo Paes (PSD) deve explorar a condenação para fortalecer a postura de oposição ao governo já em meio a uma escalada de ataques a Castro. De outro, Douglas Ruas terá a paradoxal missão de se posicionar como candidato à sucessão enquanto busca maior protagonismo no tabuleiro político. E, ao mesmo tempo, se descolar da imagem negativa devido à decisão judicial contra o ex-governador.
Ele chegou a ser eleito presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) em sessão ocorrida nesta quinta-feira (26), o que o tornaria apto para assumir o governo do Rio após a renúncia de Castro. Contudo, a sessão extraordinária foi anulada horas depois pelo Tribunal de Justiça do Rio sob a alegação de que a decisão só poderia ocorrer após a retotalização dos votos pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ), marcada para a próxima terça-feira (31). A Agenda do Poder conversou com cientistas políticos e sociólogos, projetando os próximos capítulos no tabuleiro político em meio ao começo da corrida eleitoral para o Governo do Rio.
Eles também comentam a recente manobra, que busca eleger Ruas como presidene da Alerj e colocá-lo como governador do Rio já de olho no pleito.
“Com isso, o Douglas Ruas teria o controle da máquina, colocando a política de Estado nos municípios, em busca de apoio à campanha. Isso faz parte de um xadrez político para antecipar a disputa com o Eduardo Paes, e com cacife elevado”.
Paulo Baía, cientista político
“A presidência da Alerj pode dar ao Douglas Ruas exatamente o que ele não tem em comparação com o Eduardo Paes, que é visibilidade junto aos eleitores. É a capacidade de ter seu nome circulando na mídia”.
Mayra Goulart, cientista política

Como Paes e Castro reagiram à votação na Alerj
Após a condenação, Castro defendeu a legalidade da sua gestão e disse que irá recorrer. Já Paes criticou a cogitação do PL de apoiar a candidatura ao Senado do delegado Felipe Curi, ex-secretário da Polícia Civil do Rio. Mas o debate em relação à sessão da Alerj deu o tom nas últimas horas nas redes sociais.
Em uma espécie de “passada de bastão”, Castro postou no X (antigo Twitter) uma foto ao lado de Douglas Ruas comentando a eleição na Alerj. “Parabenizo meu amigo e companheiro de partido pela vitória na eleição à presidência da Alerj, com expressivos 45 votos favoráveis. Os deputados fizeram a melhor escolha para o Rio de Janeiro”. Paes rebateu a postagem, relacionando a imagem de Ruas a de Castro, mas com tom crítico. “Castro é Douglas Ruas. Douglas Ruas é Castro. É isso mesmo que queremos para o nosso Rio de Janeiro?”.
Em postagem anterior nas suas redes sociais, relacionou Castro a Wilson Witzel, governador do Rio de 2019 a 2021. “Querem continuar roubando o Rio com as mesmas práticas e outras caras”, atacou. Witzel também ficou inelegível na época em decisão do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), após impeachment na Alerj, que o afastou do cargo por crime de responsabilidade e improbidade administrativa. Com isso, o Rio já conta com uma lista de sete ex-governadores que ficaram inelegíveis por decisões judiciais nos últimos anos.
“O grupo político já está acostumado com esse tipo de problema. Mas quem está na oposição nesses casos sempre sai em vantagem. Soma-se a isso a popularidade do Paes, que defende esse ‘novo Rio’, e desponta como favorito nesse cenário em relação à campanha de Douglas Ruas”, analisa o sociólogo Victor Escobar David.

Afastamento do bolsonarismo, mandato-tampão e máquina pública
Colunista de Agenda do Poder, o cientista político Paulo Baía diz ver um afastamento do bolsonarismo em relação ao ex-governador do Rio. “Tenho percebido um certo desinteresse de Flávio Bolsonaro em relação a Castro. Quanto mais ele sair de cena, melhor para a campanha do Douglas Ruas”.
Baía também vê prejuízo para Ruas com a decisão do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), pela suspensão de trechos que regulamentam uma eventual eleição indireta para um mandato-tampão. Isso dificultou uma possível manobra do PL em busca de maior visibilidade a Ruas, cotado para substituir o atual governador.
“O Ruas sofreu um certo abalo, porque a ideia era a de que assumisse o mandato-tampão e fosse candidato à reeleição. Com isso, herdaria a máquina pública e ganharia uma visibilidade que ele ainda não tem. Agora, será preciso calibrar a campanha”.
Paulo Baía
O próprio Eduardo Paes se posicionou sobre o caso ao se manifestar contra a possibilidade de eleição indireta após a renúncia de Cláudio Castro (PL). Nas redes sociais nesta quinta-feira (26), ele defendeu que a escolha do sucessor deveria ocorrer por meio do voto popular e questionou a legitimidade de uma eventual eleição indireta na Alerj.
O sociólogo Victor Escobar David também projeta um cenário ainda incerto. “A decisão sobre o mandato-tampão bagunçou o tabuleiro eleitoral. Essa manobra era fundamental para a campanha de Ruas, porque o candidato também enfrenta uma certa falta de conhecimento do eleitorado em comparação com Paes. O próprio Castro dependeu do uso da máquina pública para se reeleger com a visibilidade do cargo”.
“O Douglas Ruas terá o dilema de usar a máquina pública por ser candidato da situação para ser mais competitivo, já que nunca participou de eleição majoritária. Mas, ao mesmo tempo, precisará ‘esconder’ o Cláudio Castro. É um cálculo eleitoral complexo, que envolve reivindicar o governo, mas não o governador. É um fantasma que ele vai ter que enfrentar”.
Victor Escobar David
A cientista política Mayra Goulart prevê desdobramentos em relação à decisão sobre o mandato-tampão, que ainda pode ser revertida ao ser submetida ao conjunto de ministros do STF. O PL e a Alerj já manifestaram intenção de recorrer. “Parece que todo mundo está esperando para saber como vai ser concluída essa dinâmica”, diz.

Como Paes pode explorar escândalo político
Mayra Goulart projeta benefícios para a campanha de Eduardo Paes em meio à crise política no Governo Castro.
“Os principais protagonistas no meio político do Rio estão sempre arrolados em crimes escândalos que envolvem o Judiciário. O Rio vive há décadas uma institucionalidade errática, incapaz de garantir a continuidade de mandatos de maneira constitucional. O Paes pode tirar proveito disso por ter uma reputação relativamente ilibada”.
Segundo ela, Douglas Ruas acaba sofrendo as consequências da inelegibilidade de Castro. “Ele herda esse passivo, uma vez que é do mesmo partido do Cláudio Castro. Já o Paes vai explorar essa crise ao se apresentar como candidato de oposição, com o desafio de mostrar que é diferente”. Com isso, Mayra acredita que ele poderá evitar gatilhos ideológicos da polarização política no país. “O debate será outro”, avalia.
Para o cientista político Paulo Baía, o ex-prefeito do Rio tem trazido à tona as críticas a Castro em meio ao cenário político incerto do ex-governador. “O caso está gerando repercussão na mídia, e tem sido bem explorado pelo Eduardo Paes. Mas não vejo prejuízo grande para Ruas”, argumenta.
O problema só aumentará se Castro insistir na candidatura ao Senado “sub judice”. “Se isso não ocorrer, logo surge outro assunto nas eleições. Se ocorrer, pode prejudicar a campanha de Ruas, porque a pauta da inelegibilidade com contratação de cabos eleitorais de maneira ilegal poderia vir à tona novamente durante a campanha para o Governo do Rio”, projeta Baía, traçando um cenário ainda incerto em relação às eleições de 2026.


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