Eduardo Paes (PSD) tem concentrado esforços nas críticas a Cláudio Castro (PL) no começo da corrida eleitoral para o Governo do Rio. Com isso, Douglas Ruas, pré-candidato para suceder o governador, tem ficado fora dos embates políticos. Um cenário que o mantém como uma espécie de coadjuvante das eleições de 2026 em meio a uma busca para que se torne conhecido dos eleitores. Cientistas políticos ouvidos pela Agenda do Poder avaliam a estratégia de Paes de oposição ao Governo Castro e o desafio de Ruas de busca por visibilidade.
Favorito nas pesquisas, Paes tem feito ataques governador, que responde a um processo no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e pode ser declarado inelegível. Ele deixou a Prefeitura do Rio na semana passada para se dedicar à campanha. Ruas se despediu nesta sexta-feira (20) da secretaria estadual das Cidades, cargo que ocupava no Governo Castro. Outros membros do primeiro escalão que irão disputar o pleito também foram exonerados. Já Castro convocou um evento nesta segunda-feira (23) para oficializar sua renúncia ao cargo.

Em meio a uma escalada da tensão política, Paes subiu o tom ao criticar a renúncia de Castro no embate mais recente, em postagem no seu perfil no X (antigo Twitter) neste domingo (22). “Trata-se de um governador omisso fugindo da Justiça”, postou.
Paes já havia criticado a postura do governador do Rio pelos ataques ao vereador Salvino Oliveira após a sua prisão por suspeita de envolvimento com o Comando Vermelho (CV), há duas semanas. O parlamentar, do mesmo partido de Paes, foi solto dois dias depois pela Justiça, que considerou o conjunto de provas “precário” e “insuficiente”. “O mínimo que se espera é que você apague a postagem acusando o vereador de ser ‘braço do Comando Vermelho’ na Prefeitura do Rio. Alguém com hombridade reconheceria o erro e pediria desculpas. Talvez aí já seja demais pra você. Ainda é tempo”, disse Paes, também no X.
A cientista política Mayra Goulart diz ver o cenário como previsível no começo de uma corrida eleitoral. “O embate entre Paes e Castro é entre situação e oposição, algo estruturante em qualquer eleição em que há um candidato defendendo o seu legado e apresentando alguém para a sua sucessão”, minimiza.

Contudo, diz que Ruas tem recursos para reverter a situação devido principalmente ao seu reduto eleitoral em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. Ele é filho do prefeito Capitão Nelson do terceiro maior colégio eleitoral do Estado, com mais de 665 mil eleitores.
“O Ruas vem de uma família com capital eleitoral muito expressivo e tem todos os elementos necessários para se apresentar como um nome forte nessas eleições. Ele não quer antecipar a corrida eleitoral, que ainda vai ter outras etapas”.
Mayra Goulart
Paulo Baía, cientista político e colunista de Agenda do Poder, diz ver desvantagem para o candidato bolsonarista. “A minha percepção é a de que Ruas quer se poupar em um primeiro momento, porque o enfrentamento ficou mais direto entre Paes e Castro devido a esse episódio. Ele não é um coadjuvante, mas a falta de visibilidade o prejudica. O Ruas não é assunto nos debates políticos, e sai em desvantagem razoável em relação a Paes”.
Baía projeta uma busca impulsionada pelo próprio Castro para reverter esse cenário, colocando Ruas à frente de pautas ligadas à Segurança Pública, um dos principais temas para as eleições de 2026. “Essa visibilidade deve ser articulada pelos estrategistas do PL e será importante para marcar a sua presença em cima da maior pauta da campanha. Mas o perfil mais discreto não contribui”.
Processo no TSE na mira de debates
O cientista político Ricardo Ismael diz que Paes tem explorado também o processo no TSE contra Castro. Em meio a esse cenário, Ruas terá como desafio uma busca por maior visibilidade, escorado no apoio de Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República.
“Como candidato de oposição de quem propõe um governo de mudança, o Paes adota uma ação previsível de ataques a Castro, discutindo fragilidades do Governo do Rio. Já Ruas tem o desafio de se tornar mais conhecido do eleitor. Mas o primeiro passo foi dado ao ter como cabo eleitoral o principal político do campo bolsonarista, que é o Flávio Bolsonaro”.
Ricardo Ismael
A decisão do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), pela suspensão de trechos que regulamentam uma eventual eleição indireta para um mandato-tampão em caso de renúncia ou cassação de Cláudio Castro dificultaram uma possível manobra do PL em busca de maior visibilidade a Ruas, cotado para substituir o atual governador.
Contudo, há expectativa no meio político de uma suposta volta atrás de Fux, que teria sido convencido de que o prazo de seis meses para desincompatibilização nas eleições indiretas não é razoável, segundo antecipou o blog de Ricardo Bruno em Agenda do Poder.
A determinação atual do STF proíbe que secretários assumam o governo antes desse período, reduzindo as chances de Ruas. A decisão é provisória e será analisada em plenário. “O eleitorado pouco conhece o Ruas, e essa é a preocupação principal. Por isso, a estratégia de concorrer à eleição indireta para suceder Castro. Mas a decisão do Fux complicou um pouco essa ideia. Há um confuso jogo político em andamento no Rio de Janeiro”, diz o cientista político Ricardo Ismael.
Para Ismael, Ruas já corre contra o tempo. “Quanto mais Douglas Ruas demorar nessa estratégia de ser mais conhecido, melhor para Eduardo Paes”. O cientista político Paulo Baía concorda. “A decisão de Fux beneficia o Paes nessa disputa imediata, tirando o peso da hegemonia de Castro”.
‘Fato novo’ do bolsonarismo e megaoperação do Alemão
A cientista política Mayra Goulart projeta uma “aparição” de Douglas Ruas já nas próximas semanas como uma espécie de “fato novo” na política do Rio, em contraste com Cláudio Castro e Eduardo Paes.
“O Castro está há dois mandatos à frente da máquina estadual. O Paes está no seu terceiro mandato na Prefeitura do Rio. O Ruas é menos conhecido. Mas isso também pode ser explorado, caso haja a percepção de fadiga entre os eleitores, fisgados pela aparição de ‘alguém novo’”, diz.
Mayra prevê uma guinada em busca da polarização, com discurso voltado ao eleitor bolsonarista. “Ele vai ideologizar bastante o debate a partir dessa nacionalização”.
A cientista política projeta, ainda, o uso político da megaoperação que deixou mais de 120 pessoas mortas no Complexo do Alemão e Penha em novembro de 2025. “A matança operacionalizou uma forma de atrair a atenção e sinalizar para o eleitorado de extrema direita”, projeta, traçando um cenário provável para as próximas semanas da corrida eleitoral para o Governo do Rio.


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