Dois candidatos deram a largada com o anúncio de suas pré-candidaturas ao Governo do Rio e já movem as suas peças no tabuleiro político. A Agenda do Poder entrevistou cientistas políticos para fazer uma análise das articulações de Eduardo Paes (PSD) com caciques políticos e do aceno bolsonarista a Douglas Ruas (PL), de olho nas eleições de 2026 para o Palácio Guanabara.

O prefeito Eduardo Paes (PSD) saiu na frente ao admitir a possibilidade de disputar as eleições no dia 19 de janeiro, tendência confirmada há pouco mais de duas semanas com o anúncio de que deixará o cargo no dia 20 de março para entrar oficialmente na campanha com chapa formada com Jane Reis (MDB). Ela é irmã de Washington Reis, presidente da sigla e ex-prefeito de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Douglas Ruas foi indicado pelo PL apenas cinco dias após o anúncio de Paes. E já com aceno bolsonarista, em anúncio feito por Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República. Deputado estadual licenciado, Ruas assumiu o cargo de Secretário das Cidades em setembro de 2023 e tem colado a sua imagem também junto a Cláudio Castro, governador do Rio. O marqueteiro Paulo Vasconcelos será o responsável pela condução da campanha, com aposta no eleitor conservador e religioso do interior, conforme antecipou o blog de Ricardo Bruno em Agenda do Poder.

Paes com caciques políticos, Ruas com Flávio Bolsonaro e Castro

O sociólogo e cientista político Paulo Baía diz que a manobra de Paes por articulações com os chamados caciques políticos é uma tentativa de fisgar o voto bolsonarista sem abrir mão do apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais. “Será um cenário curioso dentro da mesma chapa, com o Paes pedindo voto para o Lula e a Jane Reis apoiando o Flávio Bolsonaro”, diz Baía, colunista de Agenda do Poder e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Paulo Baía é cientista político e colunista de Agenda do Poder | Crédito: Reprodução

Já a estratégia de Ruas será a aposta no chamado “bolsonarismo raiz”, ligado aos valores da extrema direita, e a intensificação da campanha pelas eleições de Flávio Bolsonaro à Presidência. A sigla também mira eleger o governador do Rio Cláudio Castro ao Senado. “O PL precisa firmar posições definidas do bolsonarismo, que não estarão tão presentes na campanha de Paes. É uma chapa que consegue uma fidelidade bolsonarista, embora ainda não tenha tanto impacto eleitoral para o pleito”, avalia.

“Inicialmente, Ruas tem um papel estratégico de apoio às campanhas de Flávio Bolsonaro à Presidência e de Cláudio Castro ao Senado. Mas, se começar a despontar nas pesquisas, ele pode surpreender, já que tem uma base forte em São Gonçalo e conta com capilaridade grande no interior”.

Paulo Baía, cientista político e sociólogo

O próprio Paes tem demonstrado preocupação com a força do possível rival nas eleições em São Gonçalo, na Região Metropolitana, seu reduto político. A cidade tem como prefeito o Capitão Nelson (PL), pai de Ruas. E também tem importância estratégica nas eleições, já que tem o segundo maior colégio eleitoral do Estado, com mais de 650 mil eleitores, segundo o TRE.

No mesmo dia em que a pré-candidatura de Ruas foi anunciada, o prefeito do Rio fez uma postagem nas suas redes sociais relembrando o apoio financeiro com redistribuição de royalties do petróleo dado por ele, em uma clara mensagem ao eleitor do município. “Seguirei trabalhando muito por São Gonçalo”, escreveu Paes, na ocasião.

Paulo Baía entende que Paes também mira ampliar a sua votação em municípios da Baixada Fluminense, reduto de Washington Reis. “Mas ele também vai buscar apoio em Volta Redonda e Barra Mansa, onde Reis também tem muita força”, projeta o cientista político.

Ele também projeta um contraste entre Paes e Ruas nas eleições. “Ruas vai focar no discurso moral e vai explorar a política de Segurança Pública de Castro no Governo do Rio. Já o Paes vai relativizar o debate sobre esses temas”, projeta.

Capitão Nelson e Eduardo Paes | Crédito: Reprodução

Menos ideologia, mais territorialismo

Professora na UFRJ, a cientista política Mayra Goulart vê similaridades nas chapas de Paes e Ruas. Segundo ela, os pré-candidatos constituíram formações mais com opções mais territorialistas e menos ideológicas, com ações voltadas aos municípios mais populosos.

Mas diz ver um problema para Paes em relação ao seu discurso, já que a vice Jane Reis apoia o bolsonarismo. “Ele tem feito um movimento pragmático de atrair lideranças territoriais do interior e da Baixada, mas tem limitações no discurso, que tende a escassear em termos de políticas públicas”, projeta a cientista política, que coordena o Laboratório de Partidos, de Eleições e Política Comparada nas seis regiões do Estado do Rio de Janeiro.

“A tentativa do Paes de atirar para os dois lados pode ser um problema, porque ele não vai explorar o nome do Lula e ainda vai perder votos para o bolsonarismo. É uma campanha limitada, porque ele não vai poder se posicionar como esquerda ou direita em um mundo ideologizado com símbolos de radicalização”.

Mayra Goulart, cientista política

Mayra diz ainda ver potencial de crescimento durante a pré-candidatura de Ruas pelo fato de ele ser um representante de uma família com controle territorial político em São Gonçalo. “Ele é muito bem articulado e enraizado no sistema político, com trânsito entre as elites políticas”.

Márcio Canella (União), Cláudio Castro (PL), candidatos ao Senado; Flávio Bolsonaro (PL), à Presidência da República; Douglas Ruas (PL) ao governo do estado, com Rogério Lisboa (PP) de vice | Crédito: Reprodução

Paes busca presença no interior; Ruas é o ‘nome novo’

Para o cientista político Ricardo Ismael, os primeiros movimentos da campanha de Paes indicam uma tentativa de fortalecer a sua imagem em municípios da Baixada e do interior. “Ele é muito influente na capital. A tarefa agora é conseguir uma votação expressiva em outros municípios”, diz o professor da PUC Rio.

“O Paes perdeu as eleições de 2018 para o Witzel com uma fraca votação nos municípios da Baixada e do interior. Por isso, ele buscou a Jane Reis como vice. Ele também deve intensificar as articulações, com visitas pelo interior. Outro aspecto importante deve ser a busca pelo voto dos evangélicos”.

Ricardo Ismael, cientista político

Ismael diz ver vantagens para Paes na disputa com Douglas Ruas pela maior experiência administrativa e pelo leque de alianças mais amplo. Por outro lado, entende que Ruas surge como um nome novo para o eleitor bolsonarista. “É um político que deve assumir o discurso das políticas de Segurança Pública implementadas por Castro. Menos conhecido, ele ainda vai precisar provar que tem as credenciais necessárias para o cargo”.

O cientista político prevê que Ruas irá apostar na candidatura de Flávio Bolsonaro para herdar a maior parte dos votos bolsonaristas.

“O Eduardo Paes ainda é o favorito, mas o Ruas aposta na imagem de Flávio Bolsonaro para que possa se tornar mais conhecido do eleitor. Mas ainda precisamos verificar se a estratégia dará certo durante a campanha”, projeta.

“No embate direto, o Paes tende a levar vantagem pela experiência em campanhas majoritárias. Então, talvez ele vá tentar chamar a atenção ao fato de que o Ruas ainda é um nome desconhecido, com pouca experiência administrativa. Por outro lado, o Ruas vai usar o bolsonarismo para alavancar a sua campanha com um voto mais emocional”.

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading