O youtuber Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, causou forte repercussão ao denunciar publicamente, em um vídeo publicado na quarta-feira (6), a suposta exploração sexual e exposição indevida de menores de idade por parte do influenciador digital paraibano Hytalo Santos.
O vídeo já ultrapassa a marca de 31 milhões de visualizações até esta terça (12) e gerou ampla mobilização nas redes sociais, incluindo manifestações de apoio de artistas, ativistas e juristas.
Exploração e “adultização” de crianças
No vídeo, Felca aborda o fenômeno da chamada adultização de crianças e adolescentes nas redes sociais. Ele critica a exposição prematura de jovens a conteúdos impróprios, muitas vezes impulsionada por pais e influenciadores que visam lucro e engajamento.
A denúncia mais grave envolve diretamente Hytalo Santos, que, segundo Felca, utiliza crianças e adolescentes em vídeos com teor sexualizado, normalizando comportamentos inapropriados em nome do entretenimento digital. A exposição constante e direcionada, segundo ele, ocorre em um ambiente com elevado risco de aliciamento e pedofilia, favorecido por algoritmos que impulsionam esse tipo de conteúdo.
Felca também expôs cortes de vídeos nos quais adolescentes aparecem em situações sugestivas ou respondendo a perguntas de cunho sexual. Em um dos casos citados, uma jovem chamada Kamyla — que aparece em vídeos de Hytalo desde os 12 anos — teria sido “condicionada” a participar de conteúdos cada vez mais sexualizados, segundo o influenciador.

Investigação do Ministério Público
As denúncias não são inéditas para o Ministério Público da Paraíba (MPPB), que já investigava Hytalo Santos desde 2024. Duas frentes foram instauradas — uma em João Pessoa e outra em Bayeux — para apurar a possível exploração de menores e violação de direitos fundamentais previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Segundo a promotoria, há evidências de que adolescentes eram emancipados com o consentimento dos pais para viabilizar sua participação nos conteúdos, contornando assim a legislação. Além disso, familiares das vítimas teriam recebido pagamentos e benefícios, como aluguel e mensalidades escolares, em troca da liberação para os vídeos — o que levanta suspeitas de aliciamento e coação indireta.
O conteúdo publicado por Hytalo é descrito pelas autoridades como “inadequado, sexualizado e exploratório, com forte apelo a públicos adultos, embora protagonizado por adolescentes”. A promotoria ainda apura a responsabilidade dos pais, que podem responder por omissão e conivência com possíveis crimes contra os próprios filhos.
Apoio de famosos e repercussão pública
A atitude de Felca foi amplamente elogiada por famosos e outras personalidades. A autora Glória Perez classificou o vídeo como “forte e necessário” e parabenizou o influenciador. A cantora Claudia Leitte também expressou apoio: “Deus te abençoe e proteja”, escreveu.
Já a ex-BBB Gizelly Bicalho cobrou posicionamento de outros famosos: “Cadê o apoio dos políticos, influenciadores, atores? Felca, eu estou com você.”
Biana Fernandes, pesquisadora do Laboratório Etnográfico de Estudos Tecnológicos e Digitais da Universidade de São Paulo (Letec-USP), afirmou que o vídeo de Felca trouxe à tona as falhas das big techs na proteção de crianças e adolescentes.
Segundo ela, a lógica dos algoritmos, focada em manter usuários por mais tempo, acaba privilegiando conteúdos sensacionalistas e até perigosos — como os que envolvem sexualização infantil.
Ameaças e segurança reforçada
Desde a publicação do vídeo, Felca relatou receber ameaças diárias e, por isso, passou a circular com carro blindado e segurança particular. Ele revelou em entrevista ao podcast PodDelas que teme processos judiciais e represálias: “A questão das bets gerou muitas ameaças. A da adultização, muitas ameaças de processo. Provavelmente virão processos — e a gente conta com isso.”

Quem é Felca
Criador de conteúdo desde 2012, Felca se destaca pelo tom crítico e irônico em vídeos que satirizam tendências nas redes sociais. Recentemente, ele também ganhou notoriedade por denunciar o envolvimento de influenciadores como Virginia Fonseca com casas de apostas ilegais — tema que o levou a ser convidado para depor na CPI das Bets, embora sua participação não tenha se concretizado.
Repercussão política
A polêmica chegou ao Congresso. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou que vai pautar projetos para restringir a circulação e monetização de conteúdos que promovam a adultização de crianças. “Esse é um tema urgente, que toca no coração da nossa sociedade. Obrigado, Felca. Conte com a Câmara para avançar na defesa das crianças”, declarou.
No governo, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, defendeu que as plataformas sejam responsabilizadas e acusou empresas de “fingirem que não é com elas” quando o assunto é exploração infantil. Já o advogado-geral da União, Jorge Messias, classificou a regulamentação das redes como “necessidade civilizatória”, criticando o papel dos algoritmos na propagação de conteúdos criminosos.
“Agradeço ao Felca pela apuração que realizou sobre a exploração sexual infantil nas redes sociais e por sua postura ativa e cidadã de denunciar tudo à Polícia Federal. Estou contatando a direção da PF para reforçar o perigo e o risco dos perfis denunciados e acionando a Justiça”, disse a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP)
O deputado Reimont (PT-RJ) protocolou na Procuradoria-Geral da República (PGR) um pedido de investigação criminal contra o influenciador digital Hytalo Santos, com avaliação de possível prisão preventiva. O parlamentar alega que conteúdos publicados nas redes sociais pelo criador, que conta com milhões de seguidores, expõem e sexualizam crianças e adolescentes, configurando possível exploração sexual e uso irregular de imagens de menores.
Entenda o termo
O Instituto Alana define a adultização infantil como a exposição precoce de crianças a comportamentos e expectativas adultas, que pode gerar erotização e prejudicar o desenvolvimento emocional e psicológico. Especialistas alertam que, no ambiente digital, o fenômeno ganha escala e velocidade sem precedentes.
Enquanto a discussão avança no Legislativo e no Judiciário, Felca afirma que seguirá expondo casos e pressionando as redes sociais a cortar o incentivo financeiro desse tipo de conteúdo: “Tira o dinheiro dessa galera, que tudo o que eles fazem perde o sentido.”







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