Ex-delegado da Lava Jato entra na mira de relatório sobre a Farra do INSS

Documento apócrifo questiona tratamento dado a Maurício Moscardi em investigação sobre fraudes no INSS; ex-delegado nega irregularidades e diz que pediu para prestar depoimento

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O relatório de inteligência apócrifo citado pelo ministro Alexandre de Moraes em suas acusações contra André Mendonça aponta uma suposta diferença de tratamento ao ex-delegado da Polícia Federal Maurício Moscardi Grillo nas investigações sobre fraudes no INSS. A informação foi publicada por Demétrio Vecchioli no portal Metrópoles. O documento questiona a ausência de medidas cautelares pessoais contra ele, apesar das suspeitas levantadas na apuração.

Moscardi ficou conhecido por comandar investigações da Operação Lava Jato pela PF no Paraná. Em uma entrevista que provocou repercussão à época, afirmou que a corporação havia “perdido o timing” para prender o então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O ex-delegado deixou a Polícia Federal em 2024 e passou a atuar na advocacia privada. Atualmente, integra a defesa do ex-procurador-chefe do INSS Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, que foi solto na semana passada por decisão de André Mendonça.

Moscardi rejeita as suspeitas levantadas contra ele e reclama de ter sido exposto por meio de um relatório de inteligência divulgado de maneira que considera irregular.

Compra de imóvel entrou na investigação

O ex-delegado teria passado à condição de investigado depois de adquirir uma laje comercial em Curitiba que havia sido anteriormente negociada por Antônio Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.

Moscardi afirma, porém, que comprou o imóvel diretamente da incorporadora BF 01 e tomou precauções para garantir que o bem já não estivesse vinculado a Antunes.

“Eu comprei um imóvel da incorporadora, a BF 01. Eu fiz questão de saber que não estava mais no nome dele (do Careca). Foi uma exigência minha, isso tudo está nos autos, muito bem explicados. Desde o ano passado, não teve nenhum tipo de autuação, não sei se sigo como investigado. Me coloquei de prontidão para ser ouvido e ainda nem fui chamado para poder prestar algum depoimento”, relata o ex-delegado.

Segundo Moscardi, o imóvel havia sido inicialmente adquirido pelo Careca do INSS junto à incorporadora. A negociação foi posteriormente desfeita, já durante as investigações sobre as fraudes, e o advogado adquiriu a unidade da própria empresa.

O negócio teria sido fechado com desconto de R$ 400 mil, porque a incorporadora já havia sido beneficiada financeiramente na primeira negociação. Em razão dessa diferença de preço, a PF teria solicitado o bloqueio de R$ 400 mil em bens de Moscardi, medida que, segundo ele, foi rejeitada por Mendonça.

“A compra foi realizada, salvo engano, em agosto ou setembro de 2024. Fiz o Pix da minha conta para a conta da incorporadora. Meu risco foi ser o máximo transparente. Deixei exposto meu nome”, diz Moscardi, que afirma ter comprado o imóvel junto dos sócios, que futuramente vão levar o escritório de advocacia para lá.

Relatório questiona critérios adotados pela investigação

O nome do ex-delegado aparece no relatório apócrifo em um trecho dedicado a supostas inconsistências nas medidas adotadas durante as investigações. O documento compara o tratamento dispensado a Moscardi com as providências tomadas contra outros investigados.

“A peça (a petição 15.041/DF) afirma que ele ‘não apenas intermediou, mas atuou de forma consciente e funcional na lavagem de capitais’, que ‘tinha plena ciência da origem criminosa do bem e da natureza ilícita dos recursos’ e que sua conduta configura ‘participação consciente e voluntária no processo de lavagem de capitais’”, aponta o relatório.

O documento afirma que, apesar dessas acusações, optou-se por “não representar por medidas cautelares pessoais em seu desfavor”, sem apresentar, segundo o próprio relatório, justificativa que explicasse a diferença de tratamento.

Também são mencionados no tópico sobre “inconsistências na aplicação do critério” Leonardo Soares Araújo, que teria recebido R$ 4,7 milhões do Careca do INSS, e Cléber Ribas de Oliveira.

Como recomendação, o relatório propõe uniformizar os critérios empregados para situações envolvendo suspeitas de simulação contratual e conhecimento da origem dos pagamentos: “ou requerer medida quanto a Maurício Moscardi, Leonardo Soares e Cleber Ribas, ou consignar expressamente o fundamento distintivo que os afasta”.

Moscardi comandou investigações da Lava Jato no Paraná

Antes de deixar a Polícia Federal, Moscardi teve atuação de destaque na Lava Jato no Paraná. Ele coordenou pela corporação parte das investigações da operação que atingiram empresários e políticos.

O ex-delegado também chegou a receber punição administrativa relacionada à instalação de uma escuta considerada ilegal na cela do doleiro Alberto Youssef. A punição foi posteriormente anulada.

Agora atuando na advocacia, Moscardi contesta as suspeitas relacionadas à compra do imóvel e sustenta que a transação foi realizada diretamente com a incorporadora, por meio de transferência bancária identificada.

As referências ao ex-delegado ganharam nova repercussão porque constam do relatório apócrifo que passou a integrar a disputa entre Alexandre de Moraes e André Mendonça no Supremo. O documento, porém, não possui, por si só, valor probatório, e as acusações nele registradas não equivalem a uma conclusão definitiva sobre eventual responsabilidade dos citados.

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