Comprador de avião de Ciro Nogueira recebeu R$ 1 milhão de empresa do cunhado de Vorcaro

Relatório do Coaf relaciona operação a uma autoridade com foro privilegiado, mas não revela sua identidade; DuBem afirma que dinheiro foi destinado à produção de festival que acabou não realizado

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Um pagamento de R$ 1 milhão apontado em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) como relacionado a uma autoridade com foro privilegiado teve como destinatária uma empresa do paraibano Netinho Lins, empresário que comprou, em 2023, um avião do senador Ciro Nogueira (PP-PI). A informação é da colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo.

O repasse aparece no documento que o ministro Alexandre de Moraes classificou como “essencial” para o julgamento desta terça-feira (15), no Supremo Tribunal Federal (STF), sobre a abertura de uma investigação contra ele.

De acordo com o relatório tornado público nesta segunda-feira (14), após ofício de Moraes ao presidente do STF, Edson Fachin, a DuBem Business Marketing Eventos e Produções Artísticas Ltda., de Netinho Lins, recebeu R$ 1 milhão da Super Empreendimentos entre julho e setembro de 2024.

A Super tinha como diretor Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O Relatório de Inteligência Financeira (RIF) reúne uma série de movimentações relacionadas a Zettel e suas empresas e informa que a mesma comunicação bancária referente ao R$ 1 milhão faz menção a uma pessoa com prerrogativa de foro. O documento, contudo, não identifica essa autoridade.

Empresa diz que dinheiro seria usado em festival

A DuBem Business informou que o pagamento estava relacionado à criação e produção do “Will Bank Festival”, evento que acabou não sendo realizado.

Além do R$ 1 milhão recebido da Super Empreendimentos, a empresa de Netinho afirma ter recebido outro R$ 1 milhão da Entre Investimentos, ligada a Vorcaro, para o mesmo projeto.

A Entre também aparece em outra frente das investigações. A empresa foi utilizada pelo dono do Master para investir no filme “Dark Horse”, operação investigada pela Polícia Federal por suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro.

Em março, a PF pediu ao ministro André Mendonça, relator do caso Master, o compartilhamento integral das informações presentes no relatório do Coaf, incluindo a identidade da autoridade com foro privilegiado mencionada no documento. Segundo as informações tornadas públicas, o órgão de inteligência financeira não havia informado aos investigadores quem seria essa pessoa. O pedido ainda não havia sido respondido pelo ministro.

A Super Empreendimentos e Participações aparece no relatório do Coaf associada a R$ 19,6 milhões em movimentações bancárias consideradas atípicas. A empresa também teria recebido aporte de R$ 2,5 bilhões de um fundo administrado pela Reag.

Avião comprado de Ciro Nogueira foi bloqueado

A relação empresarial de Netinho Lins com Ciro Nogueira passa pela compra, em 2023, de um Beechcraft King Air B200. O empresário adquiriu a aeronave em parceria com o cantor de forró Luan Estilizado por US$ 2 milhões, valor equivalente a pouco mais de R$ 10 milhões em valores corrigidos.

Ciro havia comprado o mesmo avião por R$ 4 milhões. Apesar da negociação posterior, a transferência definitiva da propriedade para os compradores não foi concluída.

Em maio deste ano, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) bloqueou a aeronave por ordem de André Mendonça no âmbito das investigações sobre o Master.

Segundo a DuBem, o avião foi “integralmente quitado”, mas a transferência não pôde ser concluída justamente em razão do bloqueio judicial.

O Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB) aponta que a negociação ocorreu com cláusula de reserva de domínio, mecanismo pelo qual o vendedor continua formalmente como proprietário até a quitação integral. O Grupo DuBem e Luan Estilizado aparecem como operadores, enquanto Ciro e sua ex-esposa, Iracema Portella, permanecem registrados como proprietários.

Ciro é investigado sob suspeita de ter recebido vantagens indevidas de Vorcaro em troca de atuação favorável aos interesses do banco no Congresso. Segundo a PF, o banqueiro também teria custeado viagens internacionais do senador.

Netinho mantém relações com nomes da política

Além da negociação com Ciro Nogueira, Netinho Lins mantém proximidade com políticos como o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), o ex-presidente da Casa Arthur Lira (PP-AL) e o ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas, o JHC (PSDB).

Netinho é filiado ao Republicanos e disputa neste ano o cargo de primeiro suplente da senadora Zenaide Maia (PSD), candidata à reeleição pelo Rio Grande do Norte. Ele declarou aproximadamente R$ 2,1 milhões em bens à Justiça Eleitoral.

Em fevereiro de 2025, Luan Estilizado se apresentou em uma festa de Hugo Motta em Brasília após a eleição do parlamentar para a presidência da Câmara. O cantor também participa com frequência de eventos promovidos por Netinho.

O empresário ainda viajou com Motta em uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) para participar de um compromisso na Associação Comercial de São Paulo.

DuBem nega irregularidades

Em nota, a empresa sustenta que os R$ 2 milhões recebidos estavam vinculados exclusivamente ao projeto do “Will Bank Festival” e que as operações decorreram de uma relação comercial regular.

“A DuBem Business informa que esse assunto já foi esclarecido no início de 2026 e que os valores mencionados estão relacionados à criação, produção, consultoria, desenvolvimento e execução do projeto Will Bank Festival, concebido para circular por diferentes localidades do país.

O projeto teve valor total de R$ 2 milhões, sendo R$ 1 milhão pago pela Super Empreendimentos e Participações S.A.

O evento não chegou a ser realizado por decisão unilateral dos proprietários da instituição contratante. Os pagamentos decorreram de relação comercial regular e da prestação de serviços para a concepção e o desenvolvimento do projeto.

Em relação à aeronave adquirida em parceria com Luan Estilizado, é necessário reforçar que foi integralmente quitada. A transferência de propriedade ainda não ocorreu porque a aeronave se encontra bloqueada por determinação judicial.

A empresa reforça seu compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento da legislação vigente, permanecendo à disposição das autoridades competentes sempre que necessário.”

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