Emma Bonino, uma das figuras mais conhecidas da luta pelos direitos civis na Itália e com longa trajetória na política europeia, morreu nesta sexta-feira (11), aos 78 anos. A informação foi confirmada por seu porta-voz e publicada pela Folha de S. Paulo. Ex-ministra das Relações Exteriores e ex-comissária europeia, ela construiu uma carreira de cinco décadas marcada pela defesa do aborto legal, da igualdade de gênero, dos direitos dos migrantes e de uma maior integração da União Europeia.
Bonino havia sido hospitalizada em estado grave na segunda-feira. Na quinta, deixou a terapia intensiva e foi transferida para uma clínica particular. Ela enfrentou um câncer de pulmão e continuou participando da vida política italiana mesmo depois dos 70 anos.
Sua entrada na política esteve diretamente relacionada a uma experiência pessoal. Em 1974, quando o aborto ainda era ilegal na Itália, Bonino viajou para uma clínica clandestina em Florença para interromper uma gravidez não planejada.
“Voltando de trem à noite, decidi que nunca, nunca, nunca mais alguém deveria ter de sofrer essa humilhação”, recordou mais tarde.
Do aborto clandestino ao Parlamento
Um ano depois, Bonino decidiu apresentar-se à polícia, transformando uma experiência pessoal considerada crime pela legislação da época em um ato político público.
A prisão ganhou repercussão nacional e fortaleceu a mobilização pela descriminalização do aborto. A prática acabaria legalizada na Itália em 1978.
A militância também impulsionou Bonino para o Parlamento pelo Partido Radical, fundado por seu mentor político, Marco Pannella. A legenda tornou-se conhecida pelo uso de instrumentos como desobediência civil, greves de fome e referendos para defender mudanças na legislação italiana.
Ao longo das décadas, Bonino manteve a defesa dos direitos civis como eixo de sua atuação.
“Lutei por direitos a vida inteira, alertando as pessoas para defendê-los, porque eles não duram para sempre”, disse à emissora estatal Rai em 2024.
Ela foi eleita diversas vezes para os Parlamentos italiano e europeu e ocupou os cargos de ministra das Relações Exteriores e ministra dos Assuntos Europeus da Itália.
Projeção internacional em Bruxelas
Em 1994, Bonino foi indicada para a Comissão Europeia com o apoio do então primeiro-ministro Silvio Berlusconi. Em Bruxelas, ficou responsável por áreas como pesca, defesa do consumidor e ajuda humanitária.
Sua passagem pela Comissão Europeia ganhou visibilidade internacional. Durante a chamada “guerra do peixe” entre a União Europeia e o Canadá, Bonino chegou a embarcar em barcos de pesca espanhóis em alto-mar e acusou o governo canadense de pirataria. O Canadá negou a acusação.
Em 1997, durante uma visita ao Afeganistão, foi detida por milicianos do Talibã depois que integrantes de sua comitiva fizeram fotografias dentro de um hospital feminino, o que contrariava as regras impostas pelo grupo.
Bonino tornou-se uma crítica da falta de reação internacional às restrições impostas às mulheres afegãs, embora rejeitasse ser enquadrada como uma feminista tradicional.
“Eu não quero e não acho que nós, mulheres, sejamos uma categoria”, disse. “Se acharmos que somos uma categoria a ser protegida, acho que perderemos nossa luta.”
Direitos civis permaneceram no centro da carreira
Depois da passagem por Bruxelas, Bonino continuou envolvida em campanhas contra a mutilação genital feminina, pela igualdade previdenciária e pela defesa dos direitos dos migrantes.
Defensora de uma União Europeia mais integrada, participou da criação do partido +Europa em 2017. Apesar da popularidade pessoal de Bonino, a legenda encontrou dificuldades eleitorais. Não conquistou cadeiras nas eleições para o Parlamento Europeu de 2019 e 2024 e obteve apenas dois assentos nas eleições nacionais italianas de 2022.
Sua atuação na defesa do aborto não impediu uma aproximação pessoal com o papa Francisco. Em novembro de 2024, após Bonino enfrentar um grave problema de saúde, Francisco deixou o Vaticano para visitá-la em sua residência, num gesto incomum e de grande repercussão na Itália.
Uma vida dedicada à política
Nascida no noroeste da Itália em 1948, Bonino nunca se casou nem teve filhos. Em entrevista à revista Io Donna, em 2018, explicou a decisão.
“Não os tive por escolha”, disse ela à revista Io Donna em uma entrevista em 2018. “É preciso muita coragem (para ter filhos). Com uma criança, é preciso dizer ‘para sempre’. Eu nunca consegui isso.”
Da prisão pela interrupção clandestina de uma gravidez à Comissão Europeia e ao Ministério das Relações Exteriores, Bonino atravessou meio século da política italiana defendendo pautas que, em diferentes momentos, colocaram-na em confronto com governos, instituições religiosas e setores conservadores.
A defesa dos direitos conquistados permaneceu como uma de suas principais mensagens até os últimos anos de vida. Para Bonino, conquistas sociais e políticas não deveriam ser consideradas definitivas, mas permanentemente protegidas.







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