Pelo segundo ano consecutivo, o Departamento de Estado dos Estados Unidos não publicou uma mensagem em homenagem ao Dia da Independência do Brasil, celebrado em 7 de setembro. A ausência ocorre em meio a uma nova escalada das tensões entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.
Levantamento feito pelo portal g1 nos comunicados publicados pelo Departamento de Estado mostra que, nos últimos 12 meses, mais de 180 países receberam mensagens dos EUA por seus chamados “Dias Nacionais”. O Brasil ficou de fora ao lado de Afeganistão, Coreia do Norte, Etiópia, Guiné, Irã, Líbia, Santa Lúcia, Síria e Sudão.
A última homenagem oficial dos Estados Unidos à Independência brasileira foi publicada em 2024, ainda durante o governo de Joe Biden. Na ocasião, o então secretário de Estado Antony Blinken enviou “saudações calorosas” aos brasileiros.
“Que os anos vindouros continuem a fortalecer nossos laços e nossos valores democráticos compartilhados. Os Estados Unidos desejam ao povo brasileiro uma feliz celebração do Dia da Independência”, dizia a nota.
Trump homenageou países com relações conturbadas
A ausência brasileira chama atenção porque o governo Trump publicou mensagens relacionadas às datas nacionais até de países com os quais Washington mantém relações difíceis, entre eles Rússia, China e Venezuela.
Na terça-feira (8), por exemplo, o Departamento de Estado felicitou Andorra pelo Dia de Nossa Senhora de Meritxell, padroeira do país e data correspondente à celebração nacional.
“Enquanto o povo de Andorra celebra este dia importante, os Estados Unidos reafirmam sua parceria com o Principado e estendem seus mais calorosos cumprimentos ao povo andorrano no próximo ano”, diz a nota assinada pelo secretário de Estado, Marco Rubio.
Há situações específicas em outros países. Não foram encontrados comunicados do Departamento de Estado sobre Bahamas, Iêmen, Israel e Tunísia, mas as respectivas embaixadas estadunidenses fizeram manifestações nas redes sociais.
No caso de Cuba, Rubio divulgou mensagem e vídeo dirigidos diretamente aos cubanos, nos quais reafirmou “o apoio inabalável dos Estados Unidos ao povo cubano em sua busca por liberdade, dignidade e autodeterminação”.
O levantamento considerou as publicações realizadas entre 10 de setembro de 2025 e esta quarta-feira (9).
Questionado sobre a possibilidade de uma mensagem ter sido encaminhada diretamente ao governo brasileiro, o Itamaraty orientou que a informação fosse solicitada aos Estados Unidos. O Departamento de Estado não respondeu ao pedido de comentário.
Tarifas voltaram a elevar tensão entre Lula e Trump
A relação entre Brasília e Washington começou a se deteriorar em julho de 2025, quando Trump anunciou tarifas sobre produtos brasileiros e justificou parte da pressão pelo que chamou de “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A tensão diminuiu nos meses seguintes. No fim de 2025, os Estados Unidos aliviaram tarifas e retiraram algumas sanções contra autoridades brasileiras. Lula e Trump também se encontraram duas vezes, incluindo uma reunião em Washington, em 7 de maio deste ano.
A trégua, porém, durou pouco. No fim de maio, Washington classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
A decisão ocorreu dias depois de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, encontrar-se nos Estados Unidos com Trump e Marco Rubio.
Em julho, a tensão comercial voltou a crescer. No dia 22, entrou em vigor uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, resultado de uma investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA.
O governo Trump alegou que determinadas práticas brasileiras “oneram ou restringem” o comércio com os EUA. Entre os pontos questionados estavam o PIX e a regulamentação das plataformas digitais.
Dois dias depois, Washington anunciou outra tarifa, de 12,5%, que atingiu o Brasil e dezenas de outros países, sob a justificativa de práticas comerciais consideradas desleais relacionadas à falta de combate ao trabalho forçado.
Disputa chegou aos diplomatas e às eleições
A crise ultrapassou a área comercial. Em 24 de julho, o Itamaraty negou vistos ao secretário-assistente Riley M. Barnes e ao subsecretário-assistente Samuel Samson, do Departamento de Estado.
Os dois haviam sido apontados pelo The Washington Post como integrantes de uma estratégia destinada a questionar a integridade e a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. O Departamento de Estado negou qualquer intenção de interferir nas eleições.
Segundo o jornal estadunidense, a viagem serviria para discutir “integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão” com autoridades e representantes da sociedade civil brasileira.
Em agosto, a crise ganhou outro capítulo com a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington. O Departamento de Estado afirmou que a medida foi uma resposta à demora do Brasil em conceder aval diplomático para que Daniel Perez assumisse a embaixada dos EUA em Brasília.
Perez havia sido anunciado por Trump em junho, antes de uma consulta reservada ao governo brasileiro. Pelas práticas diplomáticas, a indicação de um embaixador costuma ser anunciada somente depois que o país que o receberá sinaliza sua concordância.
O Itamaraty reagiu à revogação do visto e classificou como “falsas” as justificativas apresentadas por Washington.
“[A medida] Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo”, afirmou.
“Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente.”
No fim de agosto, Perez afirmou que não pretende se envolver na eleição presidencial brasileira de outubro e declarou que trabalhará por um acordo comercial que seja vantajoso para os dois países.







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