Os Houthis conquistaram nesta quinta-feira a cidade portuária de Mokha e a ilha de Zuqar, no sudoeste do Iêmen, em uma ofensiva que altera o equilíbrio de forças no conflito e amplia as preocupações com a segurança de uma das principais rotas marítimas do planeta. A operação, iniciada há cerca de uma semana, já deixou mais de 500 mortos, segundo os levantamentos mais recentes. As informações são do jornal O Globo, em parceria com AFP e NYT.
A tomada de Mokha representa uma derrota estratégica para as forças do governo iemenita reconhecido internacionalmente e apoiado pela Arábia Saudita. Além da importância militar, a cidade fica a menos de 80 quilômetros do Estreito de Bab el-Mandeb, passagem que liga o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e é fundamental para embarcações que seguem em direção ao Canal de Suez.
A ofensiva também ocorre em um momento de maior tensão regional. Os Houthis, apoiados pelo Irã, ameaçaram impedir a passagem de embarcações sauditas pelo estreito em represália a um bombardeio atribuído a Riad contra um aeroporto iemenita.
Conquista muda cenário da guerra no Iêmen
A rápida ofensiva terrestre expulsou as forças governistas da cidade e do porto de Mokha, de acordo com autoridades políticas e militares iemenitas ouvidas sob condição de anonimato pela AFP. A escalada levou o conflito interno ao momento de maior intensidade desde o rompimento, em julho, do cessar-fogo firmado em 2022.
Os Houthis já haviam atacado embarcações relacionadas ao setor petrolífero saudita no Mar Vermelho. O domínio de Mokha, porém, coloca o grupo em uma posição territorial significativamente mais próxima de Bab el-Mandeb.
“Este é potencialmente um dos pontos de inflexão mais significativos, especialmente nos últimos anos, do conflito no Iêmen”, disse Adam Baron, pesquisador especializado no Iêmen da New America, uma organização de pesquisa sediada em Washington.
Mokha estava sob controle das forças comandadas pelo tenente-general Tareq Saleh, aliado do governo iemenita. Após o avanço rebelde, ele informou nas redes sociais que havia determinado que suas tropas “reorganizassem suas fileiras e estabelecessem um centro de comando alternativo em um local seguro”.
A ofensiva não ficou restrita ao continente. Uma fonte militar ouvida pela AFP afirmou que os Houthis também conquistaram Zuqar, ilha localizada no sul do Mar Vermelho, entre o Iêmen e a Eritreia e ao norte de Mokha. Segundo o relato, a operação ocorreu após uma ofensiva “com foguetes” e um desembarque de combatentes.
Próximas 72 horas serão decisivas
Ainda não está claro até onde os Houthis pretendem avançar nem se conseguirão sustentar as posições conquistadas. Adam Baron considera provável uma tentativa de deslocamento mais ao sul, em direção às áreas imediatamente próximas ao estreito, descritas por ele como “o território de maior valor estratégico do Iêmen, provavelmente”.
Ao mesmo tempo, os militantes precisam responder às ofensivas das forças governamentais e da Arábia Saudita. Na véspera da conquista de Mokha, os sauditas bombardearam mais de 50 alvos em áreas controladas pelos Houthis.
Em entrevista à rede catari Al-Jazeera, Rashid al-Mohanadi, analista do Center for International Policy Research, alertou que a entrada dos militantes Houthis na cidade não significa necessariamente que o controle esteja consolidado.
“A natureza da guerra terrestre no Iêmen baseia-se em formações de alta mobilidade. Eles entraram em Mokha e, segundo as informações mais recentes, ainda estão lá. Mas a verdadeira questão é se conseguirão mantê-la sob seu controle pelas próximas 48 a 72 horas”, afirmou, acrescentando que as forças governamentais provavelmente tentarão retomar o controle com ajuda de drones nas próximas horas.
Outro ponto estratégico da guerra é Hodeida. O Instituto para o Estudo da Guerra (ISW, na sigla em inglês) avalia que o porto, atualmente sob domínio dos Houthis, pode se tornar o “objetivo final” das forças governamentais. A cidade é considerada “fundamental para o abastecimento civil e militar dos rebeldes”, e sua perda representaria um “grande revés” para o movimento.
Bab el-Mandeb coloca comércio mundial sob pressão
O principal impacto internacional da ofensiva está relacionado a Bab el-Mandeb, cujo nome em árabe significa “o portão das lamentações”. O estreito é uma passagem indispensável para boa parte dos navios que transitam entre Ásia e Europa utilizando o Canal de Suez.
Sua importância aumentou ainda mais desde o início da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã e o bloqueio de Ormuz, no lado oposto da Península Arábica. Diante das dificuldades nessa rota, a Arábia Saudita passou a escoar parcela maior de seu petróleo pelo Mar Vermelho, utilizando Yanbu, na costa oeste do país.
Entre março e julho, as exportações sauditas por essa rota alcançaram média de 3,8 milhões de barris por dia, aproximadamente cinco vezes o patamar anterior à guerra, segundo dados da agência de monitoramento Kpler.
O risco para a economia mundial, no entanto, não depende necessariamente de um bloqueio completo de Bab el-Mandeb. Andreas Krieg, especialista em segurança do King’s College de Londres, avaliou que “o maior perigo” não seria necessariamente um “fechamento físico” da passagem, mas uma “incerteza persistente”.
Esse cenário pode aumentar os custos de seguros e transporte, levar companhias a evitar a região e pressionar ainda mais o mercado de energia. Nesta semana, o barril do petróleo Brent ultrapassou US$ 100 pela primeira vez em meses.
O Ministério das Relações Exteriores ligado aos Houthis afirmou nesta quinta-feira que o grupo “não representará uma ameaça” e que está “preparado para fazer parte da estrutura de segurança regional, especialmente no que diz respeito à proteção da navegação marítima”. O comunicado não mencionou os combates em Mokha e pediu à comunidade internacional “que obrigue o regime saudita a parar de atacar o Iêmen”.
Conflito ameaça ganhar dimensão regional
A escalada entre Houthis e Arábia Saudita também eleva o risco de envolvimento de outros países. O ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Asif, afirmou em entrevista na quarta-feira que ataques contra o território saudita podem acionar o acordo de defesa coletiva da recém-criada Aliança de Defesa de Meca.
O pacto reúne Arábia Saudita, Paquistão e Turquia, ampliando as consequências potenciais de uma eventual expansão dos confrontos para além do território iemenita.
Enquanto cresce a disputa pelo controle das rotas marítimas, a população civil volta a sentir diretamente os efeitos da guerra. Quase 20 mil pessoas já foram obrigadas a abandonar suas casas desde a retomada dos confrontos, segundo comunicado divulgado na terça-feira pela Organização Internacional para as Migrações (OIM).







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