Carnaval de inverno em Paquetá gera polêmica e moradores acionam MP contra bloco Boto Marinho

Manifesto contra desfile reúne mais de 700 assinaturas e pede cancelamento do cortejo; organização acusa opositores de preconceito e Seop prevê multa se desfile ocorrer

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A realização de um cortejo do bloco Boto Marinho transformou Paquetá em palco de uma disputa entre moradores, organizadores e poder público neste sábado (12). Enquanto um grupo de residentes tenta impedir o evento e levou o caso ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), foliões começaram a embarcar ainda nas primeiras horas da manhã na Praça XV em direção à ilha.

Às 6h30, participantes já aguardavam o transporte. Segundo Danilo Marinho, fundador do bloco, a primeira barca deixou a Praça XV às 6h50 levando cerca de 1,1 mil foliões. “Não havia PMs tentando impedir a viagem, mas a barca saiu com atraso. Somos uma manifestação cultural, integramos os blocos não oficiais da cidade. Não precisamos de autorização”, afirmou.

A Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) informou que agentes estão em Paquetá acompanhando a movimentação. A posição inicial é multar os organizadores caso o desfile seja realizado. O valor dependerá de fatores como o número de participantes e a distância percorrida.

Manifesto reúne mais de 700 assinaturas

A mobilização contrária ao evento ganhou força com uma petição digital intitulada “Diga não ao Boto”, que já reúne mais de 700 assinaturas. O documento pede o cancelamento imediato do cortejo e que não sejam disponibilizadas viagens extras de barcas para atender ao público.

Os moradores citam como precedente uma edição realizada em março, quando, segundo eles, mais de 15 mil foliões foram para a ilha. O manifesto relata “superlotação dos postos médicos, com overdoses e comas alcoólicos, invasão de propriedade por ambulantes e foliões, urina em massa nas ruas, falta crônica de banheiros e intimidação de comerciantes locais por parte dos organizadores”.

Uma moradora afirma que parte dos transtornos estaria relacionada aos vendedores que chegam do continente.

“O maior problema não é o bloco, mas a quantidade absurda de ambulantes que chega do continente com muita antecedência. Eles acampam e dormem na praia, o que é proibido. O comércio local não é prestigiado”, disse.

Caso chegou ao Ministério Público

Na quarta-feira, um morador protocolou uma representação no MPRJ classificando o evento como “clandestino” e solicitando a intervenção da Promotoria para impedir sua realização. Segundo a representação, o Boto Marinho “não possui registro na Riotur, não apresenta plano de contingência aprovado pelo Corpo de Bombeiros (CBMERJ) e Polícia Militar (PMERJ)”.

O documento também argumenta que a estrutura de Paquetá seria insuficiente para receber milhares de pessoas simultaneamente. “Paquetá possui uma população fixa residente de apenas 3.612 moradores, sendo tecnicamente incapaz de absorver ou suportar o impacto estrutural, ambiental e civil de tamanho turismo de massa predatório”, afirma a representação.

O texto destaca ainda que Paquetá é uma Área de Proteção do Ambiente Cultural (Apac), condição que estabelece medidas para preservar características urbanísticas, arquitetônicas e paisagísticas do bairro.

Morador contesta tamanho do evento

O professor aposentado Ricardo Montenegro, de 68 anos, morador de Paquetá, afirma que sua oposição não é direcionada ao carnaval, mas à dimensão do público em uma ilha com limites geográficos definidos.

“Eu não sou contra bloco de carnaval, eu sou compositor de bloco de carnaval, vencedor inclusive. Fui da diretoria do Bloco de Segunda, no Humaitá. Eu sou contra, numa ilha com limites geográficos fechados, um evento que coloca 15 mil pessoas, quatro vezes mais o número de moradores”, afirmou.

“Pode ser bloco de carnaval, pode ser evento religioso, esportivo, pode ser qualquer coisa. Colocar essa quantidade de pessoas em Paquetá, um lugar conhecido por sua tranquilidade, bucolismo e presença maciça de idosos e crianças, é o caos. É estourar o ecossistema social do local. Colapsou a unidade de saúde básica”, acrescentou.

Organização rebate acusações

O fundador do bloco, Danilo Firmo, afirmou que não havia recebido notificação determinando o cancelamento do evento e disse que a oposição parte de uma parcela minoritária dos moradores.

“O Boto Marinho faz parte do movimento de carnaval não oficial do Rio, como tantos outros blocos. Nosso objetivo é a ocupação de rua com a cultura popular, o que não quer dizer que não dialoguemos com o poder público; nossas conversas vão desde prefeitura ao Corpo de Bombeiros”, declarou.

Danilo atribuiu as críticas a preconceito e resistência ao evento.

“Uma minoria de moradores crítica a gente desde o nosso primeiro dia, quando chegamos lá com mil foliões. São pessoas conservadoras, preconceituosas e contrárias à cultura. São as mesmas que atacam a democracia. Querem fazer de Paquetá um condomínio privado, quando é um lugar público”, afirmou.

O organizador negou que o posto de saúde tenha ficado superlotado na edição de março e também rejeitou a acusação de intimidação de comerciantes. Admitiu, porém, problemas relacionados à quantidade de banheiros químicos.

Bloco prevê cortejo durante o dia

Criado em 2017, o Boto Marinho tradicionalmente realiza duas edições no verão, em domingos posteriores ao carnaval, e uma edição de inverno, no início de setembro.

A programação começa cedo. Os foliões deixam a Praça XV antes das 7h e, após chegarem a Paquetá, concentram-se na Praça Pinto Pedro Bruno. Por volta das 9h, o cortejo segue pela Praia da Moreninha, retorna na Praça São Roque e termina no ponto inicial. A dispersão costuma ocorrer por volta das 18h.

Danilo disse que o bloco adotou medidas após reclamações anteriores envolvendo ambulantes. Segundo ele, 63 vendedores participariam desta edição, dos quais 80% seriam mulheres.

“Há dois anos, tivemos um problema com os ambulantes do bloco, que foram para lá uma semana antes, gerando reclamação dos moradores. Depois disso, passamos a organizá-los melhor, com uma lista com todos os seus dados, de CPF a telefone, enviada a todos os órgãos”, afirmou.

Órgãos dizem que evento não tem autorização

A Polícia Militar informou que os organizadores não procuraram a corporação para solicitar as autorizações necessárias. “Dessa forma, não há qualquer autorização ou liberação concedida pela Secretaria de Estado de Polícia Militar”, informou.

A Riotur afirmou que não consta no Cadastro Prévio de Eventos (CPE) pedido de autorização para o Boto Marinho na data prevista. O Corpo de Bombeiros também declarou não haver processo em tramitação referente ao cortejo. “Portanto, não há liberação do CBMERJ para a realização do evento”, informou a corporação.

A Seop afirmou que atuaria para impedir a realização e que os organizadores estariam sujeitos a multa caso o desfile acontecesse.

Já a Secretaria de Estado de Transporte e Mobilidade Urbana (Setram) informou que preparou a operação das barcas para uma demanda extraordinária. Os organizadores estimaram público de 7 mil pessoas, e dez viagens extras foram programadas nos dois sentidos.

Segundo a Setram, na edição de março, quando a expectativa superava 14 mil passageiros, foram disponibilizadas 21 viagens extras e registrados aproximadamente 20.759 embarques, considerando os dois sentidos.

O MPRJ, acionado pelos moradores para tentar impedir o cortejo, ainda não havia informado quais medidas seriam adotadas diante da representação.

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