A corrida presidencial no Peru entrou em sua fase mais dramática na noite desta quarta-feira, quando a candidata da extrema direita Keiko Fujimori assumiu uma estreita liderança sobre o representante da esquerda Roberto Sánchez após a contabilização de novas atas eleitorais, especialmente dos peruanos residentes no exterior.
Com 98,2% das urnas apuradas, os dados divulgados pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) apontam Keiko com 50,002% dos votos válidos, contra 49,999% de Sánchez. A diferença entre os dois candidatos é inferior a mil votos, um cenário que mantém o país em suspense enquanto a contagem se aproxima do fim.
Poucas horas antes, o quadro era diferente. Sánchez aparecia à frente por aproximadamente 27 mil votos, mas o avanço da apuração das seções eleitorais internacionais alterou o equilíbrio da disputa e recolocou Fujimori na dianteira.
Caso confirme a vitória, a líder do partido Força Popular entrará para a história como a primeira mulher eleita presidente do Peru por meio do voto popular.
Votos do exterior mudam o cenário
O desempenho de Keiko Fujimori entre os peruanos que vivem fora do país foi decisivo para a mudança no resultado parcial. Tradicionalmente mais alinhado a posições de direita, esse eleitorado concedeu ampla vantagem à candidata em importantes comunidades da diáspora peruana.
Nos Estados Unidos, onde reside cerca de 30% dos peruanos que vivem no exterior, Fujimori recebeu 76,5% dos votos. Na Espanha, segundo maior destino da imigração peruana, alcançou 60,1% da preferência dos eleitores. Na Argentina, outro importante centro da comunidade peruana, ela também lidera com 61,3% dos votos contabilizados até o momento.
O peso desse eleitorado foi suficiente para reverter a vantagem construída por Sánchez em diversas regiões do território peruano durante a maior parte da apuração.
Resultado permanece indefinido
Apesar da virada, as autoridades eleitorais alertam que ainda não é possível declarar um vencedor. A proclamação oficial dependerá da conclusão da contagem dos votos restantes e da análise de centenas de atas que apresentam algum tipo de observação ou contestação.
Segundo a ONPE, o processo promete ser demorado devido ao equilíbrio extremo entre os candidatos. A expectativa é que a definição oficial possa se estender até meados de julho.
Em meio à incerteza, Keiko Fujimori adotou um discurso cauteloso diante da imprensa.
“Vamos esperar os números oficiais, mas sem dúvida, quando a contagem aumenta, sobretudo das atas que estão chegando do exterior, isso nos dá muito, muito ânimo”, declarou.
A candidata também defendeu respeito ao resultado final das urnas.
“É preciso agir com muita cautela e responsabilidade. O importante é o que indicam as atas. Os fatos valem mais do que as narrativas.”
Passado eleitoral volta ao debate
As declarações de Fujimori provocaram forte repercussão nas redes sociais. Críticos da candidata recordaram episódios que marcaram eleições anteriores no país.
Entre as lembranças está a estratégia adotada pelo partido Força Popular em 2021, quando foram apresentados recursos para tentar invalidar aproximadamente 200 mil votos provenientes de regiões andinas onde Pedro Castillo havia obtido expressiva votação.
Também voltaram ao debate as acusações de fraude eleitoral registradas por Keiko em pleitos anteriores, denúncias que não foram comprovadas pelas autoridades. A memória da crise política desencadeada durante o governo de seu pai, o ex-presidente Alberto Fujimori, igualmente reapareceu nas discussões públicas.
Fujimori governou o Peru de 1990 a 2000, período caracterizado por um crescente autoritarismo; ele foi acusado de corrupção e condenado por crimes contra a humanidade.
Sánchez convoca mobilização
Do outro lado da disputa, Roberto Sánchez elevou o tom de suas manifestações à medida que a diferença entre os candidatos diminuiu.
Embora inicialmente tenha sinalizado uma postura menos combativa, o candidato passou a defender o direito de seus apoiadores de se manifestarem nas ruas. Integrantes do partido Juntos pelo Peru convocaram uma marcha nacional para esta sexta-feira, com encerramento previsto na Praça San Martín.
Sánchez também criticou o que classificou como tentativas de interferência no processo democrático e denunciou a retirada de apoiadores que estavam acampados diante da sede do Júri Nacional de Eleições.
“Defender uma vitória popular e o voto é um direito constitucional. Há uma convocação espontânea, e as pessoas têm esse direito. A democracia se defende”, afirmou.
Atas observadas podem definir o vencedor
Além dos votos ainda pendentes, a Justiça Eleitoral peruana terá de analisar 1.635 atas observadas, que representam cerca de 1,7% do total de documentos eleitorais.
Em uma eleição decidida por uma margem de poucas centenas de votos, qualquer correção ou validação dessas atas poderá alterar significativamente o resultado final.
A missão de observação eleitoral da União Europeia informou que o segundo turno ocorreu de maneira tranquila e organizada, apesar do ambiente de intensa polarização política que marcou toda a campanha.
Temores sobre o futuro político
A possibilidade de uma vitória de Keiko Fujimori também reacendeu debates sobre o futuro das instituições democráticas peruanas.
Entre as manifestações que ganharam repercussão está a do historiador José Ragas, que questionou publicamente o compromisso democrático da candidata.
“Vocês acreditam que, depois de disputar quatro eleições ao longo de quinze anos, ser a única presidente de seu partido, mudar as regras do jogo, ocupar instituições, contar com o apoio de boa parte da elite e utilizar o capital político de sua família, Keiko Fujimori ficará apenas cinco anos no cargo e entregará o poder em 2031?”, escreveu.
A eleição marca a quarta tentativa de Keiko Fujimori de alcançar a Presidência da República. Já Roberto Sánchez disputa pela primeira vez o principal cargo político do país.
Quem sair vencedor sucederá o presidente interino José María Balcázar e assumirá o comando do Peru por um mandato de cinco anos a partir de 28 de julho.






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