Com 92% das urnas apuradas, Keiko Fujimori lidera disputa no Peru com 50,06% dos votos

Diferença mínima para Roberto Sánchez mantém incerteza sobre o resultado final em meio à crise política e institucional do país

Com 92% das urnas apuradas, a eleição presidencial do Peru segue indefinida, apesar da vantagem numérica da candidata conservadora Keiko Fujimori. Ela aparece com 50,06% dos votos válidos, enquanto o deputado de esquerda Roberto Sánchez registra 49,94%, segundo dados divulgados pela autoridade eleitoral peruana.

A diferença entre os candidatos é de apenas alguns décimos percentuais, o que mantém o cenário de empate técnico e impede qualquer projeção definitiva sobre o vencedor, informa o g1. A expectativa é de que a contagem oficial continue pelos próximos dias, já que ainda restam votos de regiões mais afastadas do país para serem contabilizados.

Votos do interior podem alterar resultado

Mesmo com 92% das urnas apuradas, especialistas avaliam que a disputa permanece aberta. Isso porque Roberto Sánchez tem forte desempenho em áreas rurais e localidades de difícil acesso, cujos votos costumam entrar nas etapas finais da apuração.

As seções eleitorais foram fechadas às 17h no horário local, sem registros de grandes incidentes. O clima foi mais tranquilo do que o observado no primeiro turno, quando problemas técnicos e denúncias de fraude marcaram o processo eleitoral.

Keiko, líder do partido Fuerza Popular e filha do ex-presidente Alberto Fujimori, chegou ao segundo turno após liderar a primeira votação com 17,2% dos votos válidos. Sánchez avançou após obter 12%.

Fragmentação política marca cenário peruano

O pleito de 2026 ocorreu em meio a um ambiente de forte fragmentação partidária. No primeiro turno, 35 candidatos disputaram a Presidência, um recorde na história recente do país.

Segundo o cientista político Lucas Berti, pesquisador do Observatório Político Sul-Americano e coordenador-executivo do Grupo de Relações Internacionais e Sul Global, o atual cenário é resultado de um longo processo de desgaste institucional.

“É um sintoma de um processo de deslegitimação institucional que vem acontecendo nos últimos anos no país. E isso, na medida em que os presidentes eleitos não conseguem governar”, afirmou.

Instabilidade levou o país a ter nove presidentes em dez anos

A crise política peruana se reflete na sucessão de governos. Em apenas uma década, o país teve nove presidentes, embora os mandatos presidenciais sejam de cinco anos.

De acordo com Berti, um dos fatores que contribuem para essa instabilidade é o artigo 113 da Constituição peruana, que permite ao Congresso destituir um presidente por “incapacidade moral ou física permanente”. Na prática, o mecanismo tem sido utilizado com frequência em disputas políticas entre Legislativo e Executivo.

O especialista destaca ainda que a coalizão ligada ao fujimorismo ampliou sua influência nos últimos anos em diferentes esferas do Estado, incluindo o Congresso e setores do Judiciário.

Democracia enfrenta crise de confiança

Além da instabilidade institucional, o Peru convive com uma profunda desconfiança da população em relação às instituições democráticas. Dados do Latinobarómetro indicam que cerca de 90% dos peruanos têm pouca ou nenhuma confiança no governo e no Congresso.

Apenas 10% dos entrevistados afirmam estar satisfeitos com a democracia no país. O levantamento também aponta crescimento da apatia política, impulsionada pela fragilidade dos partidos e pela constante troca de legendas por parte dos candidatos.

Nesse contexto, a disputa entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez transcende a escolha de um novo presidente. O resultado final será observado como um teste para a capacidade do Peru de superar anos de instabilidade e reconstruir a confiança em suas instituições democráticas.

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