Há algumas pessoas que aprendi a ler como quem regressa a uma casa antiga. Não por hábito. Muito menos por fidelidade. Regressa-se a certas casas porque elas guardam uma temperatura própria, uma maneira singular de acolher as inquietações sem a ansiedade de dissolvê-las imediatamente.
Maria Hermínia Tavares pertence, para mim, a essa pequena geografia dos espíritos que não perderam a delicadeza de observar os movimentos lentos da história. Em tempos dominados pela vertigem das urgências e pela aceleração das certezas, seus textos preservam uma virtude que se tornou rara: a capacidade de perceber aquilo que cresce em silêncio e que, por não produzir estrondo, costuma escapar aos apaixonados do imediato.
Ao longo de mais de quatro décadas acompanhando a vida pública brasileira, aprendi a desconfiar dos fenômenos que chegam anunciando a própria grandeza. Os grandes deslocamentos coletivos raramente entram pela porta da frente. Preferem a discrição. Escolhem as palavras que repetimos sem perceber, os hábitos que se instalam nas rotinas e os sentimentos que lentamente reorganizam a paisagem afetiva das sociedades.
São semelhantes às pequenas fissuras que aparecem nas paredes das velhas casas muito antes de ameaçarem a estrutura inteira. Quem viveu o suficiente sabe que as ruínas não começam nos desabamentos. Começam em lugares que quase ninguém vê.
Foi assim que li o recente artigo de Maria Hermínia sobre a armadilha da judicialização da política. E quanto mais regressava às suas linhas, mais me convencia de que ali havia uma inquietação maior.
Aos poucos, deixei de enxergar uma reflexão sobre a esquerda ou sobre os tribunais. O que emergia diante dos meus olhos era uma meditação sobre os sentimentos políticos do nosso tempo. Uma reflexão sobre o medo e sobre essa forma discreta e melancólica de exaustão que chamamos de cansaço.
Aprendi mais sobre a democracia observando pessoas do que estudando instituições. Os povos, assim como os indivíduos, conhecem a angústia e a necessidade de proteção. Não há vergonha nisso.
O medo é uma das formas da vulnerabilidade humana. Ele não chega fazendo ruído. Não arromba portas. Senta-se à mesa e, quase sem ser percebido, modifica a maneira como olhamos os outros e como compreendemos o mundo.
Sociedades assustadas procuram abrigo. Procuram guardiões. E passam a desconfiar das ambiguidades, como se as dúvidas fossem um luxo excessivo para tempos difíceis.
Os últimos anos foram anos de tempestade. Houve momentos em que a República pareceu caminhar sobre superfícies frágeis. Houve a banalização da mentira, a transformação da agressividade em linguagem e a tentação permanente de converter adversários em inimigos.
Seria intelectualmente desonesto não reconhecer a importância das instituições encarregadas da guarda constitucional em tempos como esses. As tempestades exigem faróis.
Mas a vida humana nunca se desenvolveu nos faróis.
As velhas casas brasileiras sabem disso. Os alicerces são indispensáveis. As vigas importam. As paredes sustentam os dias difíceis.
Mas é em torno da mesa, entre o cheiro do café e as conversas que atravessam as tardes, que as memórias são construídas. É nos almoços de domingo, nas pequenas reconciliações e até nas divergências que sobrevivem ao cair da noite que as famílias descobrem que pertencem umas às outras.
As casas foram feitas para serem habitadas. E com as democracias acontece algo semelhante.
A Constituição é a fundação. Os tribunais são as vigas. Mas a vida democrática habita outros cômodos. Mora naquela atividade imperfeita, cansativa e extraordinariamente humana que chamamos de política.
E a convivência cansa.
O medo conserva a energia da urgência. O cansaço é diferente. Ele envelhece as palavras, torna as conversas mais difíceis e faz crescer a nostalgia das respostas simples.
Tenho, às vezes, a impressão de que a sociedade brasileira anda cansada de si mesma. Não escrevo isso com desalento. Escrevo com a humildade de quem aprendeu que as sociedades também conhecem fadigas e também atravessam estações em que parecem perder a confiança nas próprias capacidades.
Foi por isso que voltei tantas vezes ao texto de Maria Hermínia. A cada releitura, ele me parecia menos um artigo sobre a judicialização e mais uma reflexão sobre os humores de uma época.
Os intérpretes dos movimentos lentos da história possuem essa qualidade. Conseguem perceber que os sentimentos também produzem instituições e que os estados de espírito das sociedades podem ser tão decisivos quanto os acontecimentos que ocupam as manchetes.
Uma das mais extraordinárias invenções humanas é aquilo que aprendemos a chamar de espaço público. Sempre me pareceu uma expressão insuficiente para nomear algo tão delicado.
Porque o espaço público não é apenas um conceito. É uma atmosfera. É uma espécie de tecido invisível que une destinos diferentes e permite que as dores individuais descubram que não estão sozinhas.
É a região da vida coletiva onde as inquietações dispersas reconhecem umas nas outras uma estranha familiaridade e onde os seres humanos aprendem a conjugar a esperança na primeira pessoa do plural.
As sociedades vivem das conversas que estabelecem consigo mesmas. Vivem dos lugares onde sentimentos se transformam em palavras, palavras em argumentos e argumentos em convivência.
E essa conversa nunca foi serena. Nunca foi um coral harmonioso. Carrega as marcas das desigualdades, das hierarquias e das imperfeições que acompanham a aventura humana.
Talvez resida justamente aí a sua beleza. O espaço público nunca foi uma conversa entre anjos. Sempre foi uma experiência atravessada por grandezas e misérias, generosidades e ressentimentos.
No Brasil, essa conversa adquiriu sotaques, cheiros e ruídos próprios. Ela passou pelas calçadas, pelos bancos das praças, pelas mesas dos cafés, pelos botequins, pelas redações dos jornais, pelas escolas, pelas universidades e por todos aqueles lugares onde homens e mulheres descobriram que suas inquietações pertenciam a uma comunidade mais ampla.
Foi nesse território imperfeito que sucessivas gerações ampliaram os horizontes da cidadania e produziram algumas das mais belas reservas morais da sociedade brasileira.
Tenho a impressão de que parte importante do mal-estar contemporâneo nasce do enfraquecimento desses lugares onde a sociedade conversava consigo mesma.
E quando essa conversa se empobrece, o medo encontra abrigo e o cansaço se instala como uma névoa. Talvez seja por isso que a hipertrofia dos tribunais revele menos a força dos juízes e mais uma certa fadiga da própria conversa pública, como se estivéssemos transferindo para as togas aquilo que já não acreditamos ser capazes de construir por meio da palavra.
As redes sociais ocuparam uma parte desse vazio. E seria um equívoco enxergá-las apenas através dos seus excessos.
Os excessos existem. Mas a democracia jamais foi uma conversa entre santos. A antiga ágora também era barulhenta. As paixões humanas nunca foram silenciosas.
E é nesse território turbulento, muitas vezes exasperante, mas extraordinariamente vivo, que milhões de pessoas continuam procurando reconhecimento, pertencimento e sentido.
Sempre achei que as bibliotecas fossem uma das formas mais elegantes de humildade inventadas pela civilização. Em suas estantes repousam autores que passaram séculos discordando uns dos outros.
Nenhum livro expulsa o outro. Nenhuma ideia pretende ocupar sozinha todo o espaço. Talvez as bibliotecas saibam lidar melhor com a pluralidade do que nós mesmos.
E talvez por isso as universidades devam ser catedrais da dúvida e não fábricas de unanimidades. A democracia exige diversidade, mas exige, acima de tudo, pluralidade. Porque diversidade é presença. Pluralidade é convivência. E conviver nunca foi uma tarefa simples.
Ao longo dos anos, aprendi que as sociedades são menos destruídas pelas diferenças do que pela perda da vontade de conviver com elas. É isso que mais me inquieta. Não o conflito. Nem mesmo o barulho. Mas a possibilidade do silêncio.
Porque existem muitas maneiras de destruir uma democracia. E suspeito que todas elas começam quando homens e mulheres deixam de acreditar que vale a pena continuar conversando.
A democracia nunca coube em togas. Nunca coube inteiramente nas instituições. Ela sempre coube nas pessoas.
E, apesar do medo e do cansaço, ainda não aprendemos a viver sem os outros.
Pode ser que essa seja a nossa fragilidade mais evidente.
Mas, olhando para trás, depois de tantos anos observando a vida pública brasileira, tenho a impressão de que é justamente aí que repousa a parte mais bonita da esperança humana.
Na disposição, sempre imperfeita e sempre provisória, de não desistirmos uns dos outros.
* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ.





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