El Niño expõe fragilidade de mais de 3,6 mil cidades brasileiras diante de enchentes e deslizamentos

Fenômeno climático já confirmado aumenta preocupação com municípios que têm baixa capacidade de resposta a eventos extremos; governo federal afirma ter mais de R$ 3 bilhões disponíveis para obras preventivas

A confirmação da chegada do El Niño acendeu um alerta em todo o Brasil. O fenômeno climático, conhecido por intensificar chuvas em algumas regiões e provocar eventos extremos, encontra um cenário preocupante: cerca de dois terços dos municípios brasileiros apresentam baixa ou muito baixa capacidade de adaptação a enchentes, alagamentos e deslizamentos de terra.

Dados da plataforma AdaptaBrasil mostram que 3.668 cidades do país, o equivalente a 66% dos municípios brasileiros, possuem índices considerados insuficientes para enfrentar inundações, enxurradas e alagamentos. Em relação aos deslizamentos de terra, a situação é semelhante, atingindo 3.736 municípios, ou 67% do total.

Capacidade de adaptação preocupa especialistas

A avaliação foi desenvolvida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O sistema mede a capacidade dos municípios de responder e se adaptar aos impactos das mudanças climáticas.

Os índices variam de zero a um. Cidades com pontuação entre 0,20 e 0,39 são classificadas como de baixa capacidade adaptativa. Já aquelas com pontuação inferior a 0,19 são enquadradas na categoria de capacidade muito baixa.

Embora nem todos os municípios classificados estejam necessariamente localizados em áreas de risco elevado, a análise aponta que essas administrações possuem estrutura insuficiente para responder adequadamente a situações de emergência provocadas por chuvas intensas.

O diagnóstico ganha ainda mais relevância com a confirmação do El Niño, fenômeno que altera o padrão climático global e costuma aumentar o volume de precipitações em parte do território brasileiro.

El Niño pode intensificar desastres naturais

Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, o El Niño influencia a circulação dos ventos e modifica o transporte de umidade na atmosfera.

No Brasil, o fenômeno costuma direcionar mais umidade para a Região Sul, favorecendo chuvas acima da média. Especialistas lembram que as enchentes históricas registradas no Rio Grande do Sul entre 2023 e 2024 ocorreram sob influência do El Niño.

Além das chuvas intensas no Sul, os efeitos podem incluir períodos de seca mais severos nas regiões Norte e Nordeste, além de ondas de calor mais frequentes no Sudeste e Centro-Oeste.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou oficialmente a instalação do fenômeno. Segundo estimativas da agência, existe 63% de probabilidade de que o evento atinja intensidade elevada nos próximos meses.

Região Sul concentra centenas de cidades vulneráveis

Entre os municípios do Sul do país, 343 apresentam simultaneamente baixa ou muito baixa capacidade adaptativa tanto para enchentes quanto para deslizamentos de terra.

O número representa aproximadamente 29% das 1.191 cidades da região. Desse total, 158 estão no Rio Grande do Sul, 107 no Paraná e 78 em Santa Catarina.

Pesquisadores alertam que um eventual fortalecimento do El Niño pode ampliar significativamente os impactos em áreas já historicamente afetadas por eventos climáticos extremos.

Segundo especialistas do Inpe, o Brasil ainda não possui estrutura suficiente para enfrentar os efeitos de um possível super El Niño, cenário que exigiria investimentos robustos em prevenção e adaptação.

Quase 2 mil municípios são considerados de alto risco

Além da capacidade de adaptação, os estudos também avaliam o nível de exposição aos desastres geo-hidrológicos.

Atualmente, 1.513 municípios brasileiros apresentam risco alto ou muito alto para inundações, enxurradas e alagamentos. Já o perigo relacionado a deslizamentos de terra é considerado elevado em 1.041 cidades.

No Plano Clima, elaborado pelo governo federal, o número de municípios classificados como mais suscetíveis a esses eventos chega a 1.942, representando cerca de 35% do total nacional.

A estimativa aponta que quase 9 milhões de pessoas vivem em áreas consideradas vulneráveis a desastres associados às chuvas intensas.

Governo destaca recursos do Novo PAC para prevenção

Especialistas em adaptação climática defendem a ampliação dos investimentos em infraestrutura preventiva, como sistemas de drenagem urbana, contenção de encostas e monitoramento de áreas de risco.

O governo federal afirma que mantém uma política de prevenção baseada em sistemas de alerta, monitoramento meteorológico e execução de obras estruturantes.

Dentro do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), os investimentos voltados especificamente para drenagem urbana e contenção de encostas contam com previsão de R$ 22 bilhões.

Até março deste ano, aproximadamente R$ 3,8 bilhões em obras desse segmento já haviam sido concluídos, segundo dados oficiais.

A gestão federal também informou que mais de R$ 3 bilhões permanecem disponíveis para que estados e municípios apresentem projetos voltados à prevenção de enchentes, alagamentos e deslizamentos.

Segundo o governo, os entes estaduais e municipais são responsáveis pela apresentação e execução dos projetos, enquanto a União disponibiliza os recursos e acompanha a implementação das intervenções.

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