O afastamento do diretor-geral Andrei Rodrigues do comando da Polícia Federal, determinado nesta terça-feira (8) pelo ministro André Mendonça, ocorre em meio a uma escalada de tensão entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e a direção da corporação. À frente da PF desde janeiro de 2023, Rodrigues comandou a instituição durante algumas das principais investigações criminais e políticas dos últimos anos.
Entre as operações, destacam-se apurações sobre os ataques de 8 de Janeiro, a tentativa de golpe de Estado, o assassinato de Marielle Franco, a chamada “Abin paralela” e casos envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Mais recentemente, a atuação da PF avançou sobre esquemas da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e seus mecanismos de lavagem de dinheiro, chegando ao setor de combustíveis, além de investigações voltadas ao caso do Banco Master e fraudes no INSS.
1. Operação Lesa Pátria – 8 de Janeiro
Uma das principais operações da PF no início da gestão Andrei Rodrigues, a investigação apurou a participação de executores, financiadores e outros envolvidos nos ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023.
A operação avançou em diferentes fases e também passou a investigar pessoas suspeitas de financiar a estrutura que levou manifestantes a Brasília. Em abril de 2024, Andrei afirmou que a Lesa Pátria havia ajudado a revelar a trama relacionada aos atos e à tentativa de ruptura institucional.
2. Operação Tempus Veritatis
A investigação sobre a tentativa de golpe de Estado ampliou o trabalho iniciado com as apurações do 8 de Janeiro. A PF investigou a existência de uma organização que teria atuado para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e manter Jair Bolsonaro no poder.
A operação atingiu integrantes do governo anterior, militares e aliados do ex-presidente e passou a integrar o conjunto de investigações de maior repercussão conduzidas pela corporação durante a gestão Andrei. O próprio diretor-geral citou a investigação sobre a trama golpista entre os principais trabalhos da PF daquele período.
3. Operação Última Milha – “Abin paralela”
A PF também investigou o uso clandestino do sistema FirstMile, capaz de monitorar a localização de celulares, durante o governo Bolsonaro.
A investigação avançou sobre uma suposta estrutura paralela dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), com suspeitas de monitoramento de autoridades, adversários políticos e outras pessoas. O inquérito terminou com o indiciamento de 36 pessoas.
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin), inclusive, foi utilizada para ações de monitoramento relacionadas à investigação do assassinato da ex-vereadora Marielle Franco, morta em 2018, no Rio de Janeiro.
4. Caso Marielle / Operação Murder Inc.
A elucidação do assassinato da ex-vereadora Marielle Franco e Anderson Gomes também foi uma das prioridades anunciadas por Andrei Rodrigues.
Em março de 2024, a PF prendeu Domingos Brazão, Chiquinho Brazão e Rivaldo Barbosa, em uma operação que apontou os supostos mandantes e revelou a participação de integrantes ligados à estrutura política e policial do Rio.
5. Operações Quasar e Tank
A mudança de foco da PF para o poder econômico das organizações criminosas ganhou força com operações que passaram a investigar empresas, instituições financeiras e mecanismos de lavagem de dinheiro.
Em agosto de 2025, a PF deflagrou as operações Quasar e Tank simultaneamente à Carbono Oculto. A Quasar investigou uma organização suspeita de lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta de instituições financeiras, com uso de fundos de investimento para ocultar patrimônio de origem ilícita.
Nesta operação, a Justiça Federal autorizou o sequestro de fundos de investimento dos investigados, além do bloqueio de bens e valores até o limite de cerca de R$ 1,2 bilhão, valor correspondente às autuações fiscais já realizadas. Também foi determinado o afastamento dos sigilos bancário e fiscal de pessoas físicas e jurídicas investigadas.
A Tank, por sua vez, mirou a rede financeira ligada ao esquema no setor de combustíveis.
A ofensiva reuniu cerca de 1,4 mil agentes e 350 mandados de busca e apreensão em diferentes estados. Segundo as investigações, o grupo teria lavado pelo menos R$ 600 milhões e movimentado mais de R$ 23 bilhões desde 2019.
6. Operação Carbono Oculto
Já a Carbono Oculto, realizada ao mesmo tempo que as duas ações citadas acima, foi deflagrada em conjunto com a PF e a Receita Federal e investigou um esquema de lavagem de dinheiro e fraudes no setor de combustíveis atribuído ao crime organizado.
Na ocasião, a apuração apontou uma estrutura que, segundo os investigadores, utilizava postos de combustíveis, distribuidoras, holdings, instituições de pagamento, fintechs e fundos de investimento para movimentar recursos.
A investigação chegou ao mercado financeiro e à região da Faria Lima, em São Paulo. Na ocasião, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) denunciou os empresários Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, pelos crimes de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Os dois foram apontados como líderes do esquema.
Relatórios de inteligência financeira identificaram movimentações consideradas atípicas que somaram quase R$ 4 bilhões.
7. Operação Sem Desconto
Em 2025, a PF também deflagrou a Operação Sem Desconto, que investigou descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS.
Segundo as investigações, o esquema começou em 2016 e se intensificou a partir de 2019. Entre 2019 e 2024, os descontos feitos pelas associações investigadas chegaram a R$ 6,3 bilhões, embora a parcela efetivamente fraudulenta ainda estivesse sendo apurada.
Em uma das fases, a PF apontou que uma das entidades investigadas recebeu mais de R$ 708 milhões do INSS, dos quais R$ 640,9 milhões teriam sido desviados para empresas de fachada e contas de operadores financeiros.
O caso passou a tramitar no Supremo sob relatoria de André Mendonça. O atrito entre o ministro e a cúpula da PF começou a se aprofundar a partir da condução desse inquérito. Isso porque, Mendonça determinou que Andrei Rodrigues ficasse de fora da investigação e sem acesso a informações do caso. A PF, por sua vez, transferiu a apuração para a área responsável pelos inquéritos que tramitam nos tribunais superiores, o que gerou novas cobranças do ministro sobre a condução do trabalho.
A investigação também passou a envolver pessoas politicamente relevantes, entre elas Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O nome dele apareceu em uma frente do inquérito que apura possíveis conexões financeiras com o esquema. As apurações sobre Lulinha, porém, tramitam sob sigilo.
As divergências aumentaram neste ano, quando Mendonça passou a questionar decisões e procedimentos adotados pela PF no caso. Em agosto, uma nova fase da operação autorizada pelo ministro investigou suspeitas de lavagem de dinheiro que teriam como beneficiário o senador Weverton Rocha.
A partir daí, o caso do INSS se tornou uma das duas principais frentes, ao lado do Banco Master, do conflito entre Mendonça e a direção da PF.
8. Operação Compliance Zero
A operação que hoje está no centro da crise entre a PF e André Mendonça começou em novembro de 2025, quando a PF deflagrou a primeira fase da Compliance Zero e prendeu Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
A investigação apura suspeitas de fraudes financeiras envolvendo títulos de crédito e outras operações do banco. Desde então, a operação avançou por diferentes fases e passou a investigar relações do Master com empresários, políticos e instituições públicas.
Em janeiro de 2026, uma nova fase bloqueou R$ 5,7 bilhões e aprofundou a investigação sobre as operações financeiras do banco.
Em maio, a PF chegou aos investimentos feitos pelo governo do Rio em fundos ligados ao Master. A investigação passou a apurar a aplicação de aproximadamente R$ 3 bilhões de recursos do Rioprevidência e de outras estruturas estaduais.
Em junho, a nona fase alcançou o senador Jaques Wagner, depois que a PF identificou mensagens que, segundo os investigadores, indicariam sua atuação em assuntos de interesse do banco.
Em julho, a décima fase avançou sobre outros personagens ligados ao entorno de Vorcaro, depois da análise dos celulares apreendidos durante as etapas anteriores.
É justamente a Compliance Zero que ajuda a explicar o afastamento determinado por Mendonça nesta terça-feira (8). Ao longo da investigação, a PF analisou mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro que fazem referência a Andrei Rodrigues, Alexandre de Moraes e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. Em uma delas, Vorcaro afirma precisar da “proteção” de “Andrei e Paulo”.
O material acabou entrando na disputa institucional entre Mendonça e a direção da PF. O ministro afirma que a corporação vinha monitorando integrantes do Supremo e determinou nesta terça-feira o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada.







Deixe um comentário