A nova etapa da Operação Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (28) pelo Ministério Público de São Paulo e pela Receita Federal, revelou que fintechs instaladas na Avenida Brigadeiro Faria Lima, principal centro financeiro do país, continuaram sendo utilizadas para ocultar recursos do crime organizado mesmo após a megaoperação realizada em agosto do ano passado.
Batizada de “Fluxo Oculto”, a nova ofensiva mira um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), com atuação no setor de combustíveis, movimentações bilionárias e uso de plataformas financeiras digitais para blindagem patrimonial.
Segundo os investigadores, a organização criminosa não apenas manteve as operações após a primeira fase da Carbono Oculto, como ampliou o volume de desvio de nafta — solventes petroquímicos usados ilegalmente na adulteração de gasolina — e abriu novas empresas de fachada para continuar movimentando dinheiro ilícito.
Relatórios de inteligência financeira apontam movimentações consideradas atípicas e suspeitas que chegam a quase R$ 26 bilhões.
A nova fase da operação cumpre 59 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Os principais alvos são empresários, operadores financeiros, gestores de fintechs, operadores logísticos e suspeitos de atuarem como “laranjas” do esquema.
Contas-bolsão criaram “ponto cego” para fiscalização
Um dos focos centrais da investigação é o funcionamento das chamadas contas-bolsão e contas gráficas utilizadas por fintechs em bancos tradicionais.
Segundo o Ministério Público, esse modelo permitia ocultar os verdadeiros donos dos recursos movimentados nas plataformas financeiras.
As contas-bolsão funcionavam como grandes cofres digitais. Para os bancos tradicionais, o titular formal da conta era apenas a fintech. Internamente, porém, as empresas mantinham registros próprios — as chamadas contas gráficas — identificando quem realmente era dono do dinheiro.
Na prática, os recursos de dezenas de clientes eram misturados em uma única conta bancária, dificultando o rastreamento por órgãos de fiscalização e controle financeiro.
De acordo com os promotores, o sistema criou um “ponto cego” para mecanismos de combate à lavagem de dinheiro.
Com acesso às contas gráficas nesta nova fase da operação, os investigadores conseguiram identificar origem, destino, remetentes e beneficiários das transações realizadas dentro dessas estruturas financeiras.
Segundo o Ministério Público, até então os bancos tradicionais não tinham acesso aos CPFs ou CNPJs dos clientes finais que movimentavam recursos dentro das contas-bolsão.
De acordo com o MP, quando o dinheiro cai na conta bolsão, o banco só sabe que ele é da fintech, não sabe o CNPJ ou CPF do depositante. A fintech mantém um livro de registro com esses dados, de quem é realmente o dono do dinheiro. Isso é justamente a chamda conta gráfica.
Os investigadores afirmam que esse sistema oferecia múltiplas possibilidades de ocultação patrimonial e lavagem de capitais.
Grupo teria se reorganizado após operação de 2025
A investigação aponta que, mesmo após a deflagração da primeira fase da Carbono Oculto, em agosto de 2025, a organização criminosa se reestruturou rapidamente.
Segundo os promotores, houve migração de recursos entre diferentes fintechs, substituição de empresas já expostas e concentração de movimentações financeiras em contas únicas para dificultar o rastreamento.
Em um dos casos identificados, operações financeiras de 56 postos de combustíveis eram feitas por meio de uma única conta.
O esquema, segundo o MP, era liderado por Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”.
Os dois estão foragidos desde o ano passado, quando também foram alvo da Operação Tank, deflagrada pela Polícia Federal paralelamente à primeira fase da Carbono Oculto.
Os investigadores afirmam que os empresários tentaram negociar acordos de delação premiada, mas as propostas foram rejeitadas pelo Ministério Público.
Segundo os promotores, os investigados omitiram informações sobre lavagem de dinheiro, corrupção policial e conexões da estrutura financeira com o PCC.
Fintechs e plataformas movimentaram bilhões
A frente financeira da operação identificou o uso de fintechs e plataformas digitais como “dutos financeiros” da organização criminosa.
Entre as empresas investigadas aparecem BK Bank, Ceopag, Sispay, Vpay, Yaw e Smart Solutions Group.
A Smart Solutions Group, segundo os relatórios, movimentou mais de R$ 1,2 bilhão, sendo cerca de metade do valor destinado à GGX Global, holding de postos vinculada ao grupo investigado.
A Ceopag registrou movimentações consideradas suspeitas de R$ 359 milhões em créditos e R$ 513 milhões em débitos em curto período.
Os investigadores também apontam conexões entre operadores financeiros e pessoas investigadas por vínculos com o PCC.
A fintech Yaw teria ligação com a Shelby Holdings, associada a Ricardo Romano, investigado por suposta relação com a facção criminosa.
Já a Sispay aparece vinculada a Luiz Sérgio Ferreira da Mota, alvo de operações anteriores relacionadas à chamada máfia dos ônibus.
No consolidado, relatórios de inteligência financeira identificaram movimentações atípicas superiores a R$ 3,86 bilhões apenas na frente envolvendo fintechs.
“Máfia do nafta” abastecia adulteração de combustíveis
Outra frente da operação investiga a chamada “máfia do nafta”, apontada como responsável pela adulteração de combustíveis e fraude tributária.
Segundo o Ministério Público, empresas produtoras e importadoras de solventes petroquímicos emitiam milhares de notas fiscais falsas simulando vendas para indústrias químicas de fachada.
Na realidade, afirmam os investigadores, os caminhões desviavam a rota e descarregavam a nafta diretamente em distribuidoras e terminais terrestres, onde o produto era misturado à gasolina.
O combustível adulterado acabava sendo revendido normalmente ao consumidor final.
As investigações apontam desvio superior a 135 milhões de litros de nafta em pouco mais de dois anos.
A produtora Petrodansk aparece como uma das principais empresas investigadas. Segundo o MP, a companhia emitiu mais de 10 mil notas fiscais falsas, totalizando R$ 1,49 bilhão.
O prejuízo estimado com sonegação fiscal supera R$ 200 milhões.
Fundos de investimento entraram no esquema
A operação também identificou o uso de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados (FIDC-NP) para ocultar recursos provenientes da adulteração de combustíveis.
Segundo os investigadores, empresas de fachada emitiam boletos que eram pagos por fundos fechados usados exclusivamente para dar aparência legal às operações.
Os fundos investigados são Zeus FIDC-NP, Gran Capital FIDC-NP e FIDC DB Crédito Global.
Para bloquear recursos ligados ao esquema, a operação mirou patrimônios de R$ 85 milhões, R$ 72 milhões e R$ 47 milhões vinculados aos fundos suspeitos.
Os investigadores afirmam que o esquema revela um alto nível de sofisticação financeira, integrando fintechs, distribuidoras de combustíveis, empresas de fachada, operadores financeiros e fundos de investimento em uma estrutura voltada à lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial do crime organizado.





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