Discussão sobre megaoperação no Rio volta a gerar polêmica na Câmara dos Vereadores

Parlamentares de esquerda e direta voltaram a se desentender quanto à ação policial nos complexos da Penha e do Alemão, que deixou mais de 120 mortos. Enquanto a ala mais conservadora defende a operação, a turma progressista criticou a medida

A turma do velho Palácio Pedro Ernesto parece ainda não ter se acostumado com as novas regras do Regimento Interno da Câmara do Rio que entraram em vigor no início deste mês. Acontece que de acordo com documento recém-atualizado, são vetados discursos fora do tema do projeto em discussão. O intuito é — ou era — blindar as longas falas que acabam cansando o plenário e brecando a pauta.

A intenção da regra até foi boa, mas a execução está difícil. Na sessão desta quinta-feira (30), os discursos fora do tema voltaram a reinar com um novo bate-boca sobre a megaoperação da última terça-feira (28), aquecendo o clima no plenário. O fuzuê começou com Poubel (PL) se coçando para elogiar a ação do governo Cláudio Castro (PL) contra o Comando Vermelho (CV).

Para enaltecer o governador, o moço chegou a pedir a palavra em meio a votação do projeto que permite a intervenção da prefeitura em imóveis com risco de desabamento. Pelas regras, ele foi barrado no momento, o que não impediu o edil de usar a palavra logo em seguida, chegando a propor “um minuto de comemoração” — o que o presidente da Casa, Carlo Caiado (PSD), lembrou que não existe pelo regimento. 

Em meio a elogios e aplausos da ala mais conservadora, o vereador parabenizou a operação e atacou os colegas da oposição. “Foi feita uma faxina onde os vagabundos estavam bem armados. Tinha que morrer mais de 500 vagabundos, porque oprimem quem mora lá na favela”, disparou Poubel. “Eu queria um minuto de comemoração pela morte dos 130 eleitores da esquerda”.

Reação da oposição

A fala gerou reação imediata. Leonel de Esquerda (PT), que esteve ontem (29) acompanhando a chegada dos corpos na praça da Penha, subiu à tribuna para criticar a fala de Poubel. “Não dá para dizer quantos dos mortos são bandidos, porque o Estado ainda não identificou todos. Um mililitro de sangue inocente não vale essa guerra torpe. Vamos impeachmar o governador que é o responsável por uma chacina burra, que não só não resolveu como não amenizou em nada a questão da segurança pública”, retrucou.

Com a confusão formada, outros vereadores se juntaram à treta e deram suas opiniões. A tribuna chegou a ser ocupada por Maíra do MST (PT), que defendeu a opinião do colega de legenda; e Dr. Gilberto (SD), Welington Dias (PDT), Diego Faro (PL), e Pedro Duarte (Novo), favoráveis à ação policial. 

Salvino Oliveira (PSD), da base de Paes, apostou em uma posição mais moderada. O vereador tentou equilibrar os pratos. “Nenhum de nós, espero, defende bandido. Lugar de quem está portando fuzil é no cemitério”, disse, parabenizando os policiais que atuam na ponta. Mas logo em seguida, o vereador alfinetou a lógica da operação. 

“Não podemos normalizar as coisas, se morre um inocente, é uma operação fracassada. Se nenhum de nós vereadores está disposto a dar a vida do filho, do pai ou da esposa como dano colateral, por que uma mãe de favela tem que colocar o filho à disposição de uma política de segurança fracassada?”, completou, questionando ainda o saldo de apreensões em relação ao número de mortos. Ao todo, o balanço oficial aponta, até o momento, a apreensão de 118 armas, prisão de 113 pessoas e 121 mortos.

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