Deputado pede ao STF cooperação com Bolívia para investigar ‘fazenda de bots’ de aliado do clã Bolsonaro

Rui Falcão solicita cooperação jurídica com país vizinho para preservar provas apreendidas em endereços ligados a Fernando Cerimedo — argentino que difundiu informações falsas sobre as urnas brasileiras — e apurar eventuais conexões com candidaturas no país

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O deputado federal Rui Falcão (PT-SP) pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a adoção urgente de medidas de cooperação jurídica internacional com a Bolívia para obter e preservar provas relacionadas a uma “fazenda de bots” identificada em endereços ligados ao argentino Fernando Cerimedo.

A iniciativa também busca esclarecer se a estrutura de automação digital teria alguma relação com as eleições brasileiras de 2026. O parlamentar pede que sejam rastreados operadores, contas, fontes de financiamento, clientes e eventuais beneficiários das atividades, caso seja comprovada ligação com o Brasil.

Segundo o documento encaminhado ao STF, autoridades bolivianas apreenderam dispositivos eletrônicos e identificaram uma estrutura destinada à automação digital em locais associados a Cerimedo. Falcão pretende garantir que os equipamentos e dados sejam preservados e disponibilizados às autoridades brasileiras para análise.

A solicitação foi dirigida ao ministro Alexandre de Moraes e tenta incorporar os elementos recolhidos na Bolívia às apurações que já envolvem Cerimedo no Brasil.

Cerimedo já foi investigado no Brasil

O argentino aparece em investigações brasileiras relacionadas aos ataques contra o sistema eleitoral e às apurações sobre a tentativa de ruptura democrática após as eleições presidenciais de 2022. Cerimedo foi indiciado pela Polícia Federal em 2024 no âmbito dessas investigações.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) reconheceu que ele participou da divulgação de conteúdos infundados sobre supostas fraudes nas urnas eletrônicas.

A conduta do argentino, entretanto, permaneceu sob investigação separada. Naquele momento, segundo as informações apresentadas, não havia elementos suficientes para determinar seu grau de conhecimento sobre o plano investigado e uma eventual adesão às ações criminosas.

É nesse ponto que Falcão sustenta a importância dos materiais apreendidos na Bolívia. Para o deputado, equipamentos, dados e outras informações obtidas pelas autoridades do país vizinho podem ajudar a esclarecer questões que permaneceram pendentes nas investigações brasileiras.

A cooperação internacional permitiria às autoridades brasileiras analisar o conteúdo dos dispositivos e verificar se há elementos relacionados às apurações já existentes no país.

Atentado contra a ex-companheira

A investigação sobre a estrutura de automação surgiu em meio a outro caso envolvendo Cerimedo. O argentino está preso preventivamente na Bolívia por 180 dias sob investigação por tentativa de feminicídio contra sua ex-companheira, a advogada e ativista política Nadia Beller.

Beller foi atingida por três tiros em 17 de agosto, em Santa Cruz de la Sierra. Ela acusa Cerimedo de ter planejado sua morte. O argentino nega participação no atentado e afirma ser inocente. Sua defesa sustenta que não existem provas de que ele tenha contratado os autores do ataque.

Cerimedo foi detido no dia seguinte ao atentado. Posteriormente, a Justiça boliviana determinou que permanecesse preso preventivamente por 180 dias no presídio de Palmasola, em Santa Cruz.

Foi durante buscas realizadas em imóveis relacionados ao argentino que investigadores encontraram equipamentos associados a uma suposta “fazenda de bots”, além do equivalente a cerca de US$ 43 mil em dinheiro. A defesa de Cerimedo nega a existência da estrutura de robôs.

Bolívia apura suspeita de ligação com narcotráfico

Além do processo relacionado ao atentado contra Beller, Cerimedo passou a ser investigado em outro caso na Bolívia, desta vez envolvendo suspeitas de proteção a voos irregulares possivelmente relacionados ao narcotráfico.

O Ministério Público do departamento de Beni abriu uma investigação para apurar uma possível estrutura de proteção a pequenas aeronaves que realizavam voos irregulares no município de Santa Ana del Yacuma. A suspeita é de que algumas dessas operações estivessem relacionadas ao tráfico de substâncias controladas.

O procurador Alexander Mendoza confirmou que o nome de Cerimedo está incluído nessa investigação. As autoridades tentam determinar se havia uma rede que fornecia cobertura às aeronaves e quem participava desse eventual esquema.

Possível interferência nas eleições de 2026

O pedido ao STF também procura ampliar a investigação para o atual processo eleitoral brasileiro. Falcão quer que seja apurado se a estrutura identificada na Bolívia possui ou possuía alguma ligação com as eleições presidenciais de 2026.

Entre as informações que o parlamentar pede para serem verificadas estão a identidade das pessoas responsáveis pela operação, as contas usadas pela estrutura de automação, as fontes de financiamento e a existência de eventuais clientes.

O deputado também solicita a identificação de possíveis beneficiários das atividades e a apuração de vínculos com pessoas, partidos políticos ou candidaturas no Brasil.

A iniciativa ocorre depois de Cerimedo voltar a participar publicamente de discussões sobre o sistema eleitoral brasileiro. Em julho, o argentino esteve em uma transmissão com o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) na qual foram feitos novos questionamentos sobre as urnas eletrônicas.

Com a investigação, Falcão pretende esclarecer se a estrutura encontrada na Bolívia foi utilizada ou preparada para interferir no debate político e eleitoral brasileiro. Até o momento, as informações apresentadas não comprovam que a suposta estrutura tenha sido empregada nas eleições de 2026 nem estabelecem vínculo com candidatos ou partidos brasileiros.

A intenção do pedido é justamente permitir o rastreamento dessas atividades e determinar se houve alguma conexão com o processo eleitoral no país.

Deputado quer provas compartilhadas com TSE

Falcão também solicita que eventuais provas relacionadas especificamente às eleições sejam compartilhadas com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e com a Procuradoria-Geral Eleitoral.

Dessa maneira, possíveis elementos de natureza eleitoral obtidos por meio da cooperação jurídica com a Bolívia poderiam ser analisados paralelamente pelas instituições responsáveis pela fiscalização das eleições brasileiras.

A eventual remessa das informações dependerá das providências adotadas pelo STF e dos procedimentos de cooperação internacional. O material recolhido pelas autoridades bolivianas poderá ser importante para determinar a finalidade da estrutura, quem a operava e se havia alguma atuação direcionada ao Brasil.

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