O empresário Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro, afirmou em acordo de colaboração premiada que perdeu mais de US$ 12 milhões aplicados em um fundo de investimentos nos Estados Unidos supostamente ligado ao financiamento de uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo o delator, os aportes foram feitos a pedido de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, sem que ele soubesse que os recursos poderiam ser destinados à produção do filme “Dark Horse”. A informação foi publicada pela jornalista Juliana Dal Piva no portal ICL Notícias.
Freixo Junior relatou que acreditava estar realizando uma operação financeira regular. Entretanto, quando tentou recuperar os valores, durante o agravamento da crise do Banco Master, descobriu que o dinheiro não estava mais disponível. Em seu depoimento, classificou a operação como uma fraude.
Os recursos foram transferidos ao Havengate Development Fund, fundo sediado no Texas e administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado ao deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
A colaboração de Mineiro foi firmada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e homologada em setembro pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Fundo recebeu mais de US$ 12 milhões em transferências
Segundo informações reveladas pelo blog da jornalista Andréia Sadi no g1, Freixo Junior relatou sete transferências ao Havengate entre fevereiro e setembro de 2025, totalizando US$ 12,333 milhões.
Os repasses partiram da Entre Investimentos e Participações, empresa pertencente ao delator, e foram registrados como operações de subscrição de cotas do fundo americano.
Uma reportagem da revista piauí apontou a possibilidade de outras duas transferências, além das sete mencionadas na colaboração.
A publicação também revelou que a minuta original de um suposto contrato de patrocínio previa o envio de recursos diretamente à produtora brasileira Go Up, responsável pelo projeto cinematográfico. Posteriormente, porém, os pagamentos passaram a ser direcionados ao fundo sediado nos Estados Unidos.
O Havengate Development Fund LP está vinculado à Havengate Development Fund GP LLC, empresa registrada no mesmo endereço comercial do escritório de Paulo Calixto, em Dallas.
Além do advogado, o quadro societário da empresa inclui o corretor de imóveis Altieris Santana.
De acordo com reportagem do Intercept Brasil, o fundo havia sido criado originalmente para captar investimentos destinados ao empreendimento imobiliário Havengate Community, no Texas. O projeto, entretanto, não saiu do papel.
Flávio Bolsonaro confirma pedido de recursos para filme
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, reconheceu ter solicitado recursos para a produção da cinebiografia de seu pai, mas negou a existência de irregularidades.
O parlamentar havia prometido apresentar uma prestação de contas dos valores em maio deste ano, o que, segundo as informações divulgadas, ainda não ocorreu.
Também não foi esclarecido por que os recursos relacionados ao projeto cinematográfico foram direcionados a um fundo de investimentos no Texas, em vez de serem transferidos diretamente à produtora responsável pelo filme.
O advogado Marco Petrelluzzi, responsável pela defesa de Freixo Junior, foi procurado, mas informou que não poderia comentar o conteúdo da colaboração premiada.
A defesa de Daniel Vorcaro, por sua vez, solicitou acesso ao procedimento e pediu a anulação da homologação do acordo. Até o momento relatado, o ministro André Mendonça ainda não havia decidido sobre os requerimentos.
Delator afirma ter movimentado R$ 1,3 bilhão em dinheiro vivo
Além dos investimentos no exterior, Freixo Junior apresentou à PGR informações sobre um suposto esquema de movimentação de dinheiro em espécie para Daniel Vorcaro.
Na colaboração, o empresário admitiu que sua função era “gerar” dinheiro vivo para atender a solicitações do banqueiro e de pessoas ligadas ao Banco Master.
Segundo seu relato, ao longo de aproximadamente dois anos e meio, conseguiu disponibilizar R$ 1,3 bilhão em espécie, entregue a Vorcaro e integrantes de sua equipe.
Os pagamentos eram realizados em malas contendo valores entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão, de acordo com o delator.
Mineiro afirmou que o dinheiro era destinado a pessoas indicadas pelo banqueiro, sem que necessariamente tivesse conhecimento da finalidade de cada pagamento.
Operação utilizava empresas e entregas em garagens
O empresário também detalhou o funcionamento da estrutura utilizada para obter e distribuir o dinheiro.
Inicialmente, as solicitações eram feitas por Vorcaro, por meio do WhatsApp. Posteriormente, os pedidos passaram a ser encaminhados por Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, e Augusto Lima, ex-sócio do empresário.
Após receber as orientações, Mineiro acionava operadores financeiros e realizava transferências bancárias para empresas indicadas por eles.
Uma dessas companhias era uma distribuidora de combustíveis que, segundo o colaborador, já havia aparecido nas investigações da Operação Carbono Oculto.
Os operadores obtinham as cédulas por meio de contatos no bairro do Brás, na região central de São Paulo, e no setor de combustíveis.
O dinheiro era levado à sede da Entre Investimentos, localizada na Rua Iguatemi, no Itaim Bibi, zona oeste da capital paulista.
As entregas eram organizadas para ocorrer no mesmo dia, evitando que valores elevados permanecessem guardados na empresa.
Segundo o depoimento, as malas eram repassadas no estacionamento subterrâneo do edifício da Entre ou na garagem do prédio onde Fabiano Zettel residia, também no Itaim Bibi.
Pelo serviço, os operadores financeiros recebiam uma comissão de 4% sobre os valores movimentados, enquanto Mineiro ficava com 1%.
O relato integra as informações apresentadas à Procuradoria-Geral da República e deverá ser confrontado com documentos e outros elementos de investigação. A homologação da colaboração premiada não significa, por si só, que todas as declarações do empresário tenham sido comprovadas.







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