O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, negou à Polícia Federal (PF) a existência de uma fraude de R$ 12 bilhões envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e criticou a condução das investigações que apuram as negociações entre as duas instituições financeiras. A informação é de Manoela Alcântara, jornalista do portal Metrópoles.
Durante um depoimento de quase quatro horas, prestado nesta quinta-feira (15), ele afirmou que a Operação Compliance Zero foi conduzida de maneira “açodada” e colocou a “instituição num enredo falso de suposta fraude bilionária, abalando a confiança indispensável para regular funcionamento de um banco”.
Foi a terceira vez que Vorcaro prestou esclarecimentos à PF no âmbito dos inquéritos que investigam suspeitas de irregularidades nas operações entre o Master e o BRB. Segundo seus advogados, o ex-banqueiro respondeu às perguntas dos investigadores e colaborou com as apurações.
A defesa sustenta que os elementos reunidos até agora não confirmam as suspeitas que motivaram a operação policial. Para os advogados, “decorrido quase um ano desde o início das apurações, as investigações demonstram categoricamente que a versão inicial divulgada não se sustenta no plano factual ou jurídico”.
Vorcaro contesta prejuízo bilionário e anuncia perícia
Um dos principais pontos abordados no depoimento foi a negociação de carteiras de crédito vinculadas à Tirreno, que está no centro das suspeitas de fraude investigadas pela Polícia Federal.
Vorcaro afirmou que a operação não chegou a ser concluída e, por isso, não teria provocado perdas financeiras ao banco público ou a seus clientes. A alegação contraria a linha de investigação da PF, que apura a existência de operações com ativos supostamente fraudulentos.
“O negócio envolvendo as carteiras da Tirreno não foi concluído, nem gerou qualquer prejuízo ao BRB ou a seus clientes. Ao contrário do que se especulou, a troca de ativos realizada demonstra que os negócios entre o Banco Master e o BRB geraram resultados positivos para o Banco de Brasília”, afirmou o banqueiro em seu depoimento à PF.
A estratégia de defesa também será levada à Justiça. Os advogados anunciaram que apresentarão, nesta sexta-feira (16), uma contestação na esfera cível e “pedirá a realização de perícia a fim de sepultar definitivamente a narrativa fantasiosa de fraude e prejuízo”.
A perícia pretendida pela defesa deverá se concentrar na análise das operações financeiras questionadas, buscando demonstrar a alegada inexistência de danos ao BRB.
Ex-banqueiro está preso desde março
Daniel Vorcaro permanece em prisão preventiva desde 4 de março de 2026. Em junho, foi transferido para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha, em Brasília.
Diferentemente das oitivas anteriores, realizadas por videoconferência, o depoimento desta quinta-feira ocorreu presencialmente. A delegada responsável pelas investigações esteve na unidade prisional para ouvir o ex-controlador do Banco Master.
A Operação Compliance Zero foi deflagrada em novembro de 2025 para investigar suspeitas de irregularidades na aquisição, pelo BRB, de aproximadamente R$ 12 bilhões em carteiras de crédito do Master, apontadas pelos investigadores como supostamente falsas.
As apurações também atingiram antigos dirigentes do banco público.
O ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa está preso desde 16 de abril deste ano, sob suspeita de ter recebido propina de Daniel Vorcaro.
Outro investigado é Dario Oswaldo Garcia Júnior, ex-diretor executivo financeiro e de controladoria do BRB. Ele foi alvo de mandado de busca e apreensão na operação e acabou afastado de suas funções em novembro de 2025.
PF aponta articulação para compra do Master e operações bilionárias
Apesar das negativas de Vorcaro, a Polícia Federal apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um relatório que descreve indícios de articulação entre dirigentes das duas instituições para viabilizar a aquisição e a integração do Banco Master ao BRB.
Segundo os investigadores, mensagens trocadas em outubro de 2024 entre Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa revelam preocupações com os efeitos da operação no mercado financeiro.
Na ocasião, o então presidente do BRB teria demonstrado preocupação com a repercussão do aumento de capital do banco e destacado a necessidade de “dar sinais ao mercado”.
As conversas ocorreram em período próximo à autorização, pelo acionista controlador, de um aumento de capital de R$ 750 milhões, medida que já havia sido submetida ao Conselho de Administração.
Para a PF, os diálogos indicam que a incorporação do Master ao BRB fazia parte de um planejamento anterior às etapas formais da negociação.
O relatório sustenta que, já em outubro de 2024, a aquisição e a integração das instituições estavam definidas no planejamento estratégico, enquanto o aumento de capital e a reorganização acionária funcionariam como medidas preparatórias.
Os investigadores também identificaram movimentações financeiras consideradas suspeitas depois da entrada do grupo Master na estrutura acionária do BRB.
De acordo com a PF, o banco público passou a adquirir, “em volume expressivo, carteiras de crédito, instrumentos estruturados e outros ativos originados do próprio grupo investidor, totalizando bilhões de reais em operações concentradas em curto intervalo temporal”.
Na avaliação dos investigadores, essa dinâmica teria criado uma relação de dependência financeira entre as instituições, com potenciais consequências para a estabilidade do BRB.
“Tal dinâmica evidencia circularidade econômica e dependência financeira artificialmente construída, criando incentivo direto para internalização de ativos de maior risco, com impacto relevante sobre a solidez financeira da instituição pública”, diz trecho do relatório da PF enviado ao STF.







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