Na esteira da disputa pelas duas cadeiras do Rio no Senado, os candidatos das terras fluminenses participaram de um debate promovido nesta terça-feira (1) na sede da OAB/RJ, no Centro. Durante o encontro, organizado pelo jornal O Dia em parceria com a Ordem dos Advogados, os candidatos falaram sobre suas propostas para o Congresso e debateram temas como segurança pública, educação, economia, violência contra mulheres, bets, habitação, trabalho e royalties do petróleo.
Estiveram presentes o senador e candidato à reeleição Carlos Portinho (PL), o deputado federal Carlos Jordy (PL), o deputado federal e ex-prefeito do Rio Marcelo Crivella (Republicanos), os vereadores cariocas Marcos Dias (Podemos) e Monica Benício (PSOL) e o ex-prefeito de Belford Roxo Waguinho (Republicanos). As ausências vieram de Benedita da Silva (PT) e Pedro Paulo (PSD).
Com respostas abertas, confronto entre os participantes e considerações finais com direito a pedidos de votos, o debate foi aberto pelo tema da segurança pública, com os candidatos questionados sobre propostas para combater a expansão do crime e o domínio territorial das facções criminosas no estado.
Segurança pública
Primeiro a ser sorteado, Portinho abriu o debate criticando a atuação do Judiciário e o que classificou como uma postura branda: “A polícia, que são nossos heróis e põe o peito na frente, prende [os criminosos], aí vem o Judiciário e solta. Isso vem afastando o próprio Poder Judiciário da sociedade”, afirmou. Ele defendeu ainda o projeto que criminaliza as barricadas, em tramitação no Congresso e do qual foi relator no Senado, e o fim das chamadas “saidinhas” temporárias de presos.
Monica Benício associou o combate ao crime organizado à necessidade de investigar as estruturas financeiras e políticas que sustentam as organizações criminosas. Ela relacionou o tema à sua trajetória política, marcada pelo assassinato da então vereadora Marielle Franco, sua companheira, em 2018.
“O Senado tem um papel fundamental no combate à corrupção e ao crime organizado, na oportunidade de investigar, abrir CPIs e chegar na ponta de quem realmente financia o crime organizado e lucra com a criminalidade”, disse, defendendo que o combate ao crime não pode se limitar à ocupação de favelas sem alcançar o “braço financeiro” das organizações. “O atentado contra Marielle revelou para todo o Brasil a relação entre a política, o crime organizado e uma polícia sendo corrompida por falta de estrutura, investimento e inteligência”.
Crivella tratou do tema sob a ótica das fronteiras, defendendo o reforço de recursos para Exército, Marinha e Aeronáutica no combate ao tráfico de armas, e citou o Estatuto da Segurança Privada, do qual foi autor no Senado. Waguinho atribuiu a responsabilidade pela segurança pública ao governo do estado e defendeu que não pode haver relação entre políticos e organizações criminosas: “Não podemos mais permitir o que acontece no Rio: políticos envolvidos com milícia e traficantes”.
Já Marcos Dias, que perdeu um irmão morto a tiros enquanto voltava da igreja, defendeu maior integração entre as esferas de governo na área de segurança. “O Brasil tem que parar com essa radicalização, tem que ter propostas efetivas com racionalidade e respeito. Torno a dizer: eu fui vítima da violência perdendo um irmão com um tiro na cabeça. Então, o endurecimento das leis penais, acabar com as saidinha de presos, redução da maioridade penal, castração química… são agendas muito importantes”, disse durante o encontro.
Violência contra mulheres: Jordy e Portinho atacam Pedro Paulo
Um dos momentos de maior tensão ocorreu no bloco de perguntas entre os candidatos, quando Portinho questionou o aliado Jordy, com quem faz uma dobradinha pelas vagas para o campo bolsonarista: “Homem que bate em mulher merece a confiança do voto?”, em ataque indireto ao adversário do PSD, Pedro Paulo, que não estava presente e já foi acusado de de agressão contra sua ex-esposa — o que chegou a ser investigado, mas um inquérito foi arquivado pelo Supremo Tribunal Federal.
Jordy respondeu classificando a violência contra mulheres como um dos crimes “mais bárbaros da sociedade” e defendeu penas mais rígidas e a restrição de benefícios penais a agressores.
Única mulher na bancada de debatedores, Monica Benicio criticou o fato de não ter sido chamada para responder ao tema diretamente pelos concorrentes. “Num tema sobre violência contra mulher, as mulheres precisam ser protegidas, mas também precisam ser ouvidas. Temos um problema grave na política quando vemos mulheres ocupando lugares de poder e ainda assim sequer são chamadas para falar sobre o tema como autoridade e os impactos disso na sua vida”.
Bets, royalties e confrontos sobre saúde e economia
As plataformas de apostas também entraram no debate. Portinho afirmou que votou contra a regulamentação das bets e disse que pretende apresentar uma proposta para criminalizar quem aposta em plataformas ilegais. Waguinho também se declarou contrário às apostas e relacionou o problema com o uso de recursos de programas sociais do governo federal. Ele defendeu ações para impedir que os benefícios seja utilizados nas bets.
Questionado por Waguinho sobre como evitar o uso de recursos do Bolsa Família em jogos virtuais pelos beneficiários, Carlos Portinho adotou tom duro, lembrou seu voto contra a regulamentação do setor e disse que o dinheiro dos mais pobres está indo para o ralo.
Portinho defendeu restrições ainda mais severas e anunciou projeto de lei para criminalizar quem aposta em plataformas ilegais.
Na discussão sobre trabalho e emprego, os candidatos trataram da relação entre Estado, empresas e trabalhadores de aplicativos. Marcos Dias defendeu políticas de qualificação e geração de empregos e criticou tanto a precarização do mercado de trabalho quanto as taxas cobradas pelas plataformas.
Monica, por outro lado, destacou o avanço da informalidade e defendeu políticas de proteção aos trabalhadores. Ela também citou o debate nacional sobre o fim da escala 6×1 como parte da discussão sobre direitos trabalhistas.
Os royalties do petróleo também foram discutidos. Carlos Jordy afirmou que defenderá a permanência dos recursos no Rio de Janeiro e argumentou que os royalties são uma compensação financeira aos estados produtores pelos impactos da atividade petrolífera. Enquanto isso, Monica Benício defendeu a soberania nacional sobre os recursos energéticos e a permanência da Petrobras sob controle estatal, mas ressaltou que a riqueza gerada pelo petróleo deve ser utilizada para reduzir desigualdades e beneficiar a população.
O bloco registrou ainda debate sobre a regulamentação das redes sociais. Monica cobrou maior responsabilidade das grandes plataformas contra desinformação e crimes digitais. Em resposta, Crivella concordou com a necessidade de disciplinar o ambiente virtual para frear notícias falsas e radicalismos, mas ponderou que as medidas não devem descambar para censura.
Embate sobre gestões municipais
As experiências dos candidatos à frente do Executivo municipal também motivaram atritos no debate. Monica Benicio questionou a passagem de Marcelo Crivella pela Prefeitura do Rio, classificando sua gestão como uma das piores da capital fluminense, sobretudo no enfrentamento à pandemia de Covid-19. O ex-prefeito rebateu as críticas afirmando ter priorizado a saúde, com a compra de respiradores, tomógrafos para comunidades e a criação de leitos de UTI durante a crise sanitária.
Também houve confronto entre Marcos Dias e Waguinho. O vereador apontou abandono na saúde da Baixada Fluminense e criticou a suposta existência de “currais eleitorais” de atendimento, enquanto o ex-prefeito belford-roxense se defendeu citando números de sua gestão, argumentando ter construído 54 unidades de saúde e contratado 250 médicos especialistas ao longo de seus dois mandatos.
Considerações finais e apelo aos votos
Nas considerações finais, os candidatos reforçaram suas estratégias de voto duplo para o Senado. Monica Benicio defendeu a eleição de duas mulheres progressistas e pediu votos para si e para a deputada Benedita da Silva (PT), declarando-se a única representante do governo Lula no debate. Já Carlos Jordy e Carlos Portinho pediram apoio conjunto à dobradinha do PL para fortalecer a oposição no Congresso e a fiscalização sobre os poderes.
Pelo Republicanos, Waguinho fez um apelo ao eleitorado da Baixada Fluminense e defendeu a dobradinha com Marcelo Crivella, que centrou seu tempo na necessidade de repactuação dos repasses de impostos federais para o Rio. Marcos Dias, por sua vez, reforçou sua pauta de segurança pública e de endurecimento penal, pedindo o apoio do eleitor conservador para ambas as vagas.







Deixe um comentário